Bala perdida: Kathlen, Bianca e eu não gostaríamos de conhecê-la

Kathlen Romeu e seu bebê, mais duas vidas negras interrompidas no Brasil | Reprodução do Instagram @dudusaintclair

Em artigo, uma homenagem a Kathlen Romeu e a Bianca Teixeira, pessoas que a violência contra negros nos tirou

Por Aline Arantes | ODS 16 • Publicada em 11 de junho de 2021 - 08:09 • Atualizada em 23 de junho de 2021 - 09:11

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Kathlen Romeu e seu bebê, mais duas vidas negras interrompidas no Brasil | Reprodução do Instagram @dudusaintclair

Ela é conhecida como “bala perdida”. Já nós, negros e negras, a conhecemos como “bala achada”. Encontramos com ela por toda parte, em nossa rua, em nossa casa – ao perfurar uma parede ou janela. Às vezes, ela é conduzida pela porta da frente, mas não pede licença. A cada 23 minutos a encontramos dentro de nós. Sabemos seu tamanho, sua textura, sua temperatura. Há diversos tipos por aí e você pode ter certeza: conhecemos cada uma delas. E ela também nos reconhece. Nossos corpos são familiares para ela. Parece que implantam um ímã em nós assim que nascemos.

Pensei em fazer as contas de quantos corpos, ao meu entorno, ela já encontrou. Mas, acredite, eu perdi as contas. Comecei contando nos dedos, em seguida, passei para um papel… Desisti. Melhor não lembrar, pelo menos não neste momento. Já foi e está tudo tão difícil. Mas, vou mencionar três pessoas.

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Kathlen Romeu, de 24 anos

Kathlen Romeu: atingida por um tiro de fuzil durante uma operação policial em Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio | Reprodução do Instagram

Conheci a Kathlen em março de 2012. Eu era educadora de um programa social voltado para preparação de jovens para o mercado de trabalho. Menina de sorriso largo, jeitinho doce: “Oi! Hoje é meu primeiro dia, estou muito animada. Você é a professora?”, me perguntou. Ela entrou naquela sala com um desejo enorme de se tornar uma grande profissional. No auge dos seus 16 anos, se destacou e ganhou notoriedade. Quando se posicionava, tinha fala assertiva e doce. Por vezes, era muito observadora. Me encantei, me enxerguei nela. Lembrei do meu primeiro dia e de como os meus olhos brilhavam da mesma forma. Em sua formatura, eu disse: “Parabéns! Agora vai e voa!”

E ela foi e voou! Voo lindo, mas precocemente interrompido. Junho de 2021, a famosa “bala perdida” a encontrou, mas não encontrou apenas ela. Encontrou, também, a vida que estava gerando, seu bem mais precioso. Kathlen reconheceu aquela que mais tememos. Um único tiro, duas vidas. Virou moda, moda antiga… Quanto mais, melhor! Operação de sucesso!

Bianca Teixeira, de 12 anos

Protesto pela morte da jovem Bianca Teixeira | Reprodução da Rede Globo

Minha prima. O ano era 2003. Um único tiro, na cabeça. Forte para você que está lendo? Imagina para nós que vivenciamos? Minha tia sentiu como se tivesse a atingido. E atingiu. Atingiu a família inteira.

Ela estava assistindo à televisão, Malhação, típico de uma pré-adolescente, num fim de tarde, com suas primas. “É tiro? Se esconde!”, “Cadê a Bianca?”, “Ela deitou na cama”, “Bianca, vem!”. Não veio! “Como assim?”, Como isso aconteceu?”, “Corre com ela, ainda dá tempo!”. Não deu. Tarde demais. Rápido demais.

“Justiça por Bianca” era o que estava escrito nas placas do protesto. “Quantos mais passarão por isso até que algo, de fato, seja feito?”… Pergunta que fazíamos há 18 anos, é a mesma fazemos hoje.

Aline Arantes, de 14 anos

Sim, eu mesma. Numa tarde de domingo, eu e Luiza, minha irmã, imploramos para visitar nossa avó, na mesma comunidade onde morávamos. Era um dos programas que mais gostávamos de fazer e a proposta foi consentida: “Vai, mas com cuidado e não deixa escurecer para voltar”. Telefone toca: “Aline, não saí daí. Está tendo operação”. “Tá bom! Quando puder voltar, me fala”.

Telefone toca novamente: “Pode voltar! A operação acabou”. “Beijo, vó!”. “Beijo, minhas netas. Vão com cuidado e prestem atenção”. “Aline, tá dando tiro de novo, precisamos voltar”, “Agora não dá mais, precisamos sair daqui”, “Luiza, vem!”, “Alineeeeeeeeeeee!!!”. Tiro na perna, caí no chão. Rápido demais.

Hoje, aos 29 anos, estou escrevendo este relato. Não é fácil, mas necessário. Escrevo em nome de milhares de jovens que não tiveram a mesma oportunidade. Que tiverem suas vidas silenciadas por ela, que é tão cruel. Nós tentamos fugir, mas ela sempre tem um jeito de nos encontrar. Nosso CEP é conhecido, somos alvo fácil.

O Brasil é o país que mais mata negros no mundo. A cada 23 minutos a famosa “bala perdida” faz uma família chorar. É preciso fazer algo rápido e urgente, de forma verdadeiramente estratégica. Porque nós estamos exaustos desse ímã chamado racismo.

Sonho com o dia em que a “bala achada”, tão íntima, se torne desconhecida.

Aline Arantes

Jornalista com 10 anos de experiência em impacto social. Foi educadora social em uma ONG no Rio de Janeiro. Desde 2014 atua no Instituto Coca-Cola Brasil, colaborando para mover os ponteiros da desigualdade social e impactar jovens em vulnerabilidade social. Co-líder do BlacKO, o grupo de afinidade racial da Coca-Cola Brasil, acredita que diversidade e inclusão em todas as esferas é o caminho para uma sociedade mais justa e igualitária. Por isso, a pauta é transversal à sua atuação.

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