Uma conversa com Davi Kopenawa: “os brancos ficam nos enganando para roubar nossa terra”

No Canal Curta!, documentário sobre um dos mais importantes líderes indígenas, o xamã da Terra Yanomami, estreia no Dia dos Povos Indígenas

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 3 de abril de 2025 - 09:31 • Atualizada em 3 de abril de 2025 - 15:46

Davi Kopenawa nas filmagens de A Queda do Céu: cosmologia yanomami e ameaças aos povos indígenas em documentário (Foto: Divulgação)

“Por que os brancos não se acalmam? Por que querem nos destruir? Por que nos fazem morrer?” As perguntas norteiam os pensamentos de um dos mais importantes líderes indígenas do Brasil, no documentário Watoriki – Conversa com Davi Kopenawa. Dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, o filme é um testemunho e, ao mesmo tempo, uma biografia do xamã da aldeia Watoriki, na Terra Indígena dos Yanomami.

Leu essa? A Queda do Céu: filme inspirado em livro de xamã yanomami exibido no Festival de Cannes

Conhecido internacionalmente por defender os direitos dos povos indígenas e a conservação da floresta Amazônica, Kopenawa conta sobre sua trajetória pessoal e relembra fatos históricos do seu povo. Intercalando português e Yanomami, uma das cinco línguas faladas pelos Yanomami, explica como usou sua experiência como intérprete e tradutor do mundo dos brancos, o napë. A estreia do documentário, com 90 minutos de duração, no Canal Curta! será no dia 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas – o filme ficará também disponível no streaming CurtaOn a partir do mesmo dia.

Os brancos aparentam ser bons, mas guardam seus pensamentos em segredo. Os brancos nunca nos explicam nada. E já que não explicam, ficam nos enganando para roubar nossa terra

Davi Kopenawa
xamã da Terra Indígena Yanomami

O povo Yanomami vive em aldeias no Amazonas e em Roraima. É a maior terra indígena do Brasil, abrangendo parte da Venezuela.  Kopenawa liderou uma campanha nacional e internacional para garantir os direitos à terra Yanomami. Após muita pressão, a demarcação ocorreu em 1992, quando 40 mil garimpeiros foram expulsos do território – uma corrida do ouro que começou nos anos 1980.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

Pouco mais de três décadas depois, a exploração de ouro continua sendo uma ameaça ao território. “Aprendi que os rastros dos napë são assustadoramente sujos”, comenta Kopenawa no documentário, de pouco mais de uma hora.

Área de garimpo ilegal dentro da TI Yanomami, em Roraima: série de programas de rádio alerta sobre impactos do garimpo ilegal de ouro na Amazônia (Foto: Leo Otero/MPI - 11/02/2023)
Área de garimpo ilegal dentro da TI Yanomami, em Roraima: série de programas de rádio alerta sobre impactos do garimpo ilegal de ouro na Amazônia (Foto: Leo Otero/MPI – 11/02/2023)

À medida que foi conhecendo “os invasores do governo e, depois, os da cidade”, Kopenawa lembra que seus “pensamentos foram se encadeando, como os cipós que crescem e se conectam uns aos outros”. Cortando a floresta, as estradas abriram caminho para garimpeiros, posseiros, pescadores, caçadores e fazendeiros – uma invasão que começou na ditadura militar, com a construção da rodovia BR-210 (Perimetral Norte).

“Os brancos aparentam ser bons, mas guardam seus pensamentos em segredo. Os brancos nunca nos explicam nada. E já que não explicam, ficam nos enganando para roubar nossa terra”, resume Kopenawa, lembrando que foi alertado sobre os riscos do mundo dos brancos pelas lideranças Makuxi.

Cena de A Queda do Céu, documentário baseado na obra do xamã yanomami Davi Kopenawa, principal liderança indígena da etnia: selecionado para mostra no Festival de Cannes (Foto: Divulgação)

O depoimento de Kopenawa é o fio condutor de todo o documentário. Suas falas, em português ou em Yanomami, são ilustradas com imagens históricas e atuais. Cenas do cotidiano desse povo levam o espectador para dentro da floresta. “Nós, xamãs, queremos uma floresta boa”, comentando, completamentando que “como eu, os xapiri, são os defensores da floresta”. E faz um apelo: “Vocês que vieram fazer um filme, que ouviram minhas palavras, espero que isso desperto os pensamentos, de quem assistir”.

Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha também dirigiram o longa-metragem A Queda do Céu, baseado no livro escrito em parceria por Davi Kopenawa e pelo antropólogo francês Bruce Albert, amigos há 40 anos. O filme, que estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, acompanha a festa Reahu, ritual funerário e uma das mais importantes cerimônias dos Yanomami, que reúne centenas de parentes dos falecidos com a finalidade de apagar todos os rastros daquele que se foi e assim colocá-lo em esquecimento

 

 

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Sair da versão mobile