“Por que os brancos não se acalmam? Por que querem nos destruir? Por que nos fazem morrer?” As perguntas norteiam os pensamentos de um dos mais importantes líderes indígenas do Brasil, no documentário Watoriki – Conversa com Davi Kopenawa. Dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, o filme é um testemunho e, ao mesmo tempo, uma biografia do xamã da aldeia Watoriki, na Terra Indígena dos Yanomami.
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Conhecido internacionalmente por defender os direitos dos povos indígenas e a conservação da floresta Amazônica, Kopenawa conta sobre sua trajetória pessoal e relembra fatos históricos do seu povo. Intercalando português e Yanomami, uma das cinco línguas faladas pelos Yanomami, explica como usou sua experiência como intérprete e tradutor do mundo dos brancos, o napë. A estreia do documentário, com 90 minutos de duração, no Canal Curta! será no dia 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas – o filme ficará também disponível no streaming CurtaOn a partir do mesmo dia.
Os brancos aparentam ser bons, mas guardam seus pensamentos em segredo. Os brancos nunca nos explicam nada. E já que não explicam, ficam nos enganando para roubar nossa terra
O povo Yanomami vive em aldeias no Amazonas e em Roraima. É a maior terra indígena do Brasil, abrangendo parte da Venezuela. Kopenawa liderou uma campanha nacional e internacional para garantir os direitos à terra Yanomami. Após muita pressão, a demarcação ocorreu em 1992, quando 40 mil garimpeiros foram expulsos do território – uma corrida do ouro que começou nos anos 1980.
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Veja o que já enviamosPouco mais de três décadas depois, a exploração de ouro continua sendo uma ameaça ao território. “Aprendi que os rastros dos napë são assustadoramente sujos”, comenta Kopenawa no documentário, de pouco mais de uma hora.

À medida que foi conhecendo “os invasores do governo e, depois, os da cidade”, Kopenawa lembra que seus “pensamentos foram se encadeando, como os cipós que crescem e se conectam uns aos outros”. Cortando a floresta, as estradas abriram caminho para garimpeiros, posseiros, pescadores, caçadores e fazendeiros – uma invasão que começou na ditadura militar, com a construção da rodovia BR-210 (Perimetral Norte).
“Os brancos aparentam ser bons, mas guardam seus pensamentos em segredo. Os brancos nunca nos explicam nada. E já que não explicam, ficam nos enganando para roubar nossa terra”, resume Kopenawa, lembrando que foi alertado sobre os riscos do mundo dos brancos pelas lideranças Makuxi.
O depoimento de Kopenawa é o fio condutor de todo o documentário. Suas falas, em português ou em Yanomami, são ilustradas com imagens históricas e atuais. Cenas do cotidiano desse povo levam o espectador para dentro da floresta. “Nós, xamãs, queremos uma floresta boa”, comentando, completamentando que “como eu, os xapiri, são os defensores da floresta”. E faz um apelo: “Vocês que vieram fazer um filme, que ouviram minhas palavras, espero que isso desperto os pensamentos, de quem assistir”.
Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha também dirigiram o longa-metragem A Queda do Céu, baseado no livro escrito em parceria por Davi Kopenawa e pelo antropólogo francês Bruce Albert, amigos há 40 anos. O filme, que estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, acompanha a festa Reahu, ritual funerário e uma das mais importantes cerimônias dos Yanomami, que reúne centenas de parentes dos falecidos com a finalidade de apagar todos os rastros daquele que se foi e assim colocá-lo em esquecimento