Sabe a diferença entre mudança de tempo e de clima?

Iceberg derretendo na Ilha Harbour, no Canadá (Biosphoto / Paul Souders)

Pessoas que vivem em lugares frios tendem a não acreditar em aquecimento global, dizem pesquisas

Por José Eduardo Mendonça | ODS 13 • Publicada em 9 de janeiro de 2017 - 08:00 • Atualizada em 30 de junho de 2021 - 16:54

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Iceberg derretendo na Ilha Harbour, no Canadá (Biosphoto / Paul Souders)

Uma pesquisa publicada no jornal científico Proceedings of the National Academy of Sciences mostra que alguns americanos com opiniões formadas sobre mudanças climáticas podem não compreender a diferença básica entre mudança de tempo e de clima.

A mudança do tempo geralmente acontece em períodos relativamente curtos, como dias, meses ou anos, ou em áreas pequenas, como cidades ou estados. Já a mudança do clima acontece quando a mensuração de um fenômeno do tempo tende na mesma direção por décadas ou em grandes áreas, como continentes, hemisférios ou o planeta como um todo.

Temperaturas recordes são eventos mais ou menos incomuns que recebem muito espaço em mídias locais. Há muitas provas indicando que eventos incomuns que ganham tal destaque são mais lembrados que eventos normais que não têm a mesma cobertura. Mudanças no tempo local estão correlacionadas às crenças das pessoas sobre a mudança do clima. Quem vive em áreas com mais recordes de temperaturas altas do que baixas acredita mais que a mudança do clima está ocorrendo. E aquelas onde o contrário ocorre têm mais probabilidade de não crer.

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Isso sugere que o ceticismo em relação à mudança do clima é provocado em parte por experiências pessoais, dizem cientistas da Universidade de Utah, autores do estudo. E indica que este é um obstáculo para a transmissão mais consistente e acurada do que ela realmente é, o que por sua vez provoca um feedback que amplifica a desinformação.

“Como esperaríamos no caso de muitas outras coisas, as pessoas tendem a aprender com a experiência”, disse Peter Howe, professor de geografia da universidade. “Se o tempo local tende a ser mais frio do que quente, eu não as culparia por fazerem esta suposição e ligá-la a sua crença sobre o aquecimento global”.

Um pastor anda no lago Osman Sagar, uma das principais fontes de água no sudeste da Índia

Embora seja fácil descrever a mudança do clima como um aumento global de temperaturas, ela é um pouco mais complexa. Elas estão esquentando no geral, mas a mudança do clima também torna o tempo local mais variável e dramático.

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Se o tempo local tende a ser mais frio do que quente, eu não as culparia por fazerem esta suposição e ligá-la a sua crença sobre o aquecimento global

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Os padrões sazonais do tempo ainda existem, assim como os caprichos da natureza, que mantêm meteorologistas cautelosos. Assim, alguns locais experimentam frio recorde em meio a uma tendência de aquecimento global, afirmou Howe.

“Pessoas enxergam a mudança do clima através de uma lente local”, disse Robert Kaufmann, principal autor do estudo e diretor do Centro de Estudos de Energia e Meio Ambiente da Universidade de Boston.

Isto, claro, não quer dizer que a ciência está errada, uma vez que não afirma que todas as parte do planeta irão esquentar do mesmo jeito. “Mas quando a experiência pessoal e a opinião de especialistas não se alinham em um tópico não crítico ao bem-estar de um indivíduo, ele irá mais por instinto do que por aquilo que os especialistas lhe dizem”, afirmou o cientista.

Segundo Kaufmann, é da natureza humana confiar mais em sua própria experiência que na prova científica ou na sabedoria política. “A menos que afete meu cotidiano, não vou gastar meu tempo estudando o assunto, e também não vou acreditar nos cientistas, especialmente agora que especialistas têm má reputação, mas vou construir minha opinião segundo vejo e sinto a mudança do clima”, disse ele. “Para muitas pessoas isto se reduz a temperaturas altas ou baixas”.

O estudo foi divulgado no mesmo dia em que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (Noaa) declarou novembro como o quinto maior aumento de temperatura registrado e notou, mais uma vez, que 2016 deverá ser o ano mais quente da história.

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Apesar do problema de percepção, a maioria dos americanos quer mais responsabilidade política e corporativa no caso da mudança do clima, de acordo com o programa de comunicação sobre o tema da Universidade Yale. É pouco provável que isto aconteça no governo Trump, que será um desastre para o ambiente, mas ainda assim três quartos dos eleitores de seu partido, o Republicano, desejam participação corporativa maior. Entre os democratas, este índice sobe para 90 por cento.

Outro estudo recente, da Universidade George Washington e também publicado pelo Proceedings of the National Academy of Sciences, chega às mesmas conclusões. “A ideia é que indivíduos tomem decisões sobre a mudança do clima não baseados no que lêem nas notícias, mas no que experimentam”, afirma o aclamado cientista Michael Mann, co-autor do trabalho “A heterogeneidade espacial da mudança do clima: uma base experimental para o ceticismo”. Um dos maiores desafios de comunicação científica sobre a questão é esta desconexão cognitiva, diz. “E, infelizmente, desde o comecinho a mudança do clima foi enquadrada como apenas aquecimento do clima”.

José Eduardo Mendonça

Jornalista com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo. Criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de reportagens sobre energia limpa. Nos últimos anos vem se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade.

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