IPCC: alertas da ciência e vulnerabilidade brasileira

Focos de incêndio e desmatamento no município de Trairão, no Pará: relatório do IPCC alerta para impactos climáticos na Amazônia (Foto Marizilda Cruppe / Amazônia Real / Amazon Watch – 17/09/2020)

CEBDS vê com preocupação avanço do desmatamento e mudanças na legislação que podem colocar em risco áreas protegidas

Por Marina Grossi | ArtigoODS 13 • Publicada em 18 de abril de 2022 - 08:45 • Atualizada em 6 de maio de 2022 - 10:42

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Focos de incêndio e desmatamento no município de Trairão, no Pará: relatório do IPCC alerta para impactos climáticos na Amazônia (Foto Marizilda Cruppe / Amazônia Real / Amazon Watch – 17/09/2020)

No dia 28 de fevereiro, enquanto o mundo acompanhava com apreensão a recém-declarada guerra da Rússia contra a Ucrânia, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU lançava o segundo volume do seu sexto relatório, que se debruça sobre os impactos socioeconômicos das mudanças climáticas, as vulnerabilidades e a necessária adaptação a eles. O furor do conflito bélico tirou parte da atenção da opinião pública para os alertas dados por nada menos que 270 cientistas do mundo todo. Composto pela revisão de 34 mil artigos científicos, o documento esmiúça os danos que o aquecimento global já causa aos ecossistemas globais, os impactos sob a perspectiva social e traz ainda um olhar regionalizado – a América do Sul e Central mereceram um capítulo específico, com riqueza de informações sobre o Brasil.

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Entre os dados acachapantes que a publicação traz estão o profundo impacto pela qual a Amazônia já vem passando, com evidências científicas mostrando que determinadas regiões da floresta tropical já se converteram em uma fonte de emissão de gases de efeito estufa, invertendo o papel de sumidouro de carbono que se espera de uma floresta tropical. Segundo o IPCC, a Amazônia foi severamente atingida por secas e altas temperaturas nos anos de 1998, 2005, 2010 e 2015/2016, que causaram grande mortandade de árvores – eventos extremos que já podem ser atribuídos às mudanças climáticas.

A combinação entre essas alterações, o desmatamento e as queimadas compromete ainda mais o papel da floresta na absorção de carbono e ameaça o regime de chuvas na América do Sul. Um cenário de aumento da temperatura global entre 1,5ºC e 3ºC faz crescer o risco de a floresta amazônica se transformar definitivamente em savana, o que alteraria a dinâmica de transferência da umidade da Amazônia para o restante do país e traria uma redução da ordem de 40% das chuvas, impactando também as regiões Sul e Sudeste do Brasil.

E os impactos apontados pelo IPCC não param por aí: em um cenário onde as emissões de gases de efeito estufa se mantiverem em alta, o Brasil deve ter uma queda de 22% na precipitação média ao longo do século; a mesma projeção vale para a região Nordeste do país, que já sofre com a escassez. Além das secas, o excesso de chuvas também preocupa os cientistas, com impactos para a infraestrutura urbana e para a vida das pessoas. Com a elevação de 1,5ºC na temperatura global, a população sujeita a enchentes e deslizamentos de terra pode triplicar no Brasil, Colômbia e Argentina. Em todo o mundo, 1 bilhão de pessoas ficam expostas a riscos climáticos nas cidades costeiras, vulneráveis tanto aos eventos extremos quanto à elevação do nível dos oceanos.

O Brasil é, portanto, uma região muito sensível às mudanças climáticas, pois temos uma condição sui generis – nossa matriz elétrica tem 65% de energia gerada por hidrelétricas, e nossa agricultura depende mais de fatores climáticos do que da irrigação. O nexo causal entre água, produção de energia e de alimentos é muito forte, de modo que qualquer alteração climática que inviabilize o acesso aos recursos hídricos é preocupante. Já estamos vendo as crises causadas pela escassez hídrica nos reservatórios das hidrelétricas nos meses mais secos do ano, bem como o clima tem sido cada vez mais a causa de quebra de safras consecutivas e de prejuízos aos produtores rurais.

O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) vem reiterando seu posicionamento face ao crescente desmatamento da Amazônia, nossa principal fonte de emissão de gases de efeito estufa, e vê com preocupação as mudanças na legislação que podem colocar em risco áreas hoje protegidas. Um dos exemplos é a possibilidade de votação do projeto de lei 191/2020, que permite a mineração, a construção de hidrelétricas e a agricultura industrial em terras indígenas. O CEBDS é contrário à proposta, endossando o posicionamento do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). É fundamental valorizar e proteger as terras e culturas indígenas, historicamente prejudicadas por atividades como o desmatamento ilegal, e acreditamos que o risco assumido com o projeto trará prejuízos reputacionais, econômicos, ambientais e sociais ao país.

Os alertas da ciência estão postos e mostram a interdependência entre clima, florestas, recursos hídricos, economia e pessoas. O Brasil precisa ocupar uma posição de liderança na transição para a economia de baixo carbono, de modo a aproveitar as oportunidades de inovação que esse novo cenário traz. A voz do setor empresarial na discussão sobre mudanças climáticas deve se tornar cada vez mais assertiva e relevante, pois os negócios de hoje e do futuro dependem tanto da mitigação quanto da adaptação a elas.

Marina Grossi

Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010. Foi negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre 1997 a 2001 e coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto.

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