Crise climática: Canadá e noroeste dos EUA sofrem com calor recorde

Crianças brincam e se refrescam em parque aquático na cidade canadense de Richmond, no estado canadense de British Columbia: calor bateu recorde no Canadá, passando dos 49 graus Celsius (Foto: Don MacKinnon / AFP – 29/06/2021)

Cidade canadense registra temperatura de mais de 49 graus em onda de calor sem precedentes; cientistas apontam impacto da mudança climática

Por Oscar Valporto | ODS 13 • Publicada em 1 de julho de 2021 - 12:17 • Atualizada em 11 de agosto de 2021 - 09:08

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Crianças brincam e se refrescam em parque aquático na cidade canadense de Richmond, no estado canadense de British Columbia: calor bateu recorde no Canadá, passando dos 49 graus Celsius (Foto: Don MacKinnon / AFP – 29/06/2021)

No domingo (27/06), a temperatura na cidade de Lyttton, no Canadá, chegou a 46 graus Celsius, recorde para o país – o anterior, de 45º₢,  havia sido registrado em 1937. Lytton fica no sudoeste do Canadá, bem perto da fronteira com os Estados Unidos. Na segunda-feira, a cidade de Portland, no estado do Oregon (EUA), a cerca de 400 quilômetros da fronteira canadense, o calor também bateu em 46 graus, recorde local. No mesmo dia, a temperatura também foi recorde em Seattle – cidade conhecida por chuva constante no estado de Washington, que faz fronteira com o Canadá – onde os termômetros marcaram 42.2º C. Na terça, a pequena Lytton – menos de dois habitantes – ferveu: 49.6 graus Celsius, recorde sobre recorde.

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A onda de calor surpreendeu até mesmo especialistas em mudanças climáticas. “Como cientistas do clima, esperamos ver ondas de calor mais extremas no futuro porque estamos adicionando gases de efeito estufa à atmosfera. Mas isso está além das minhas expectativas. Ter uma onda de calor durar tanto tempo e ser tão quente no Canadá é completamente sem precedentes na história”, afirmou o pesquisador Simon Donner, professor de Climatologia da Universidade de British Columbia (estado canadense onde fica Lytton) em entrevista à CBC (Canadian Broadcasting Corporation). “Estou realmente chocado com essa onda de calor”, acrescentou.

Professor de geomática ambiental na Universidade de Northern British Columbia, o climatologista Joseph Shea também mostrou-se alarmado. “Eu estava tentando encontrar uma palavra no fim de semana e acho que a palavra é ameaçadora. Realmente parece um calor perigoso”, disse Shea. “Há algo diferente nesta onda de calor que ainda não conseguimos identificar”.

O Environment Canada, órgão do Ministério do Meio Ambiente canadense responsável pela articulação ambiental e climática e também pela metereologia e a previsão do tempo, informou que mais de 50 cidades do país registraram recordes de temperatura desde o fim de semana. Em alerta, o órgão previu uma “onda de calor prolongada, perigosa e histórica persistirá durante toda esta semana”, com temperaturas de 10° C a 15° C acima do normal e perto de 40° C em muitos lugares onde temperaturas tão altas são muito raras.

A temperatura global aumentou 1,2 C desde a industrialização, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial. Mas relatório de 2019 do Environment Canada apontou que o país está esquentando duas vezes mais rápido, com as taxas mais altas sendo registradas no norte do país, nas pradarias e ao norte do estado de British Columbia. E as temperaturas no vizinho Ártico estão aumentando três vezes mais que a taxa global.

Na região metropolitana, maior cidade de British Columbia, foram registradas mais de 100 mortes súbitas desde o começo da onda de calor extremo – o que as autoridades atribuem à temperatura incomum na área. Vancouver, cidade portuária na costa oeste do Canadá, tem temperatura quase sempre amena mesmo no verão, mas o calor chegou a 35 graus esta semana. No interior do estado, dezenas de pessoas foram evacuadas de suas casas devido a dois incêndios florestais fora de controle.

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Em Vancouver e outras cidades da região, as autoridades estão montando “centros de refrescamento” – espaços fechados como ginásios e depósitos com ar condicionado para receber a população. De acordo com a CBC, apenas um terço das casas de British Columbia têm ar condicionado: os habitantes da região sempre privilegiaram a instalação de sistemas de aquecimento para enfrentar os invernos rigorosas. A empresa de fornecimento de energia registrou recordes de consumo com a onda de calor; o comércio teve um boom de compras de ar condicionado.

Mulher e seus cachorros em posto de refrescamento montado no Centro de Convenções do Oregon, na cidade de Portland: onda de calor ameaça saúde da população no Canadá e no noroeste dos EUA (Foto: Nathan Howard / Getty Images / AFP – 28/06/2021)

Onda de calor nos EUA

As temperaturas também estão alcançando recordes no noroeste dos Estados Unidos, perto da costa do Oceano Pacífico, principalmente em partes dos estados de Washington e Oregon. O Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) dos EUA chamou a onda de calor de “histórica” e disse que as altas temperaturas devem durar até o fim de semana, “com recordes diários, mensais e até de todos os tempos provavelmente a serem estabelecidos”.

“Nunca vimos nada assim antes”, disse o meteorologista Dustin Guy, do escritório da NWS em Seattle, ao site da revista Scientific American. “Tivemos apenas três dias com calor assim em 126 anos e parece que vamos registrar três deles na mesma semana. Não há realmente nada para comparar”, alertou.

O estado do Oregon afrouxou restrições impostas por conta da pandemia de covid-19 para abrir piscinas e áreas com ar-condicionado, como shopping centers. Mas Seattle, no vizinho estado de Washington. teve que fechar uma piscina a céu aberto por causa das “temperaturas perigosas e inseguras no deck da piscina”, de acordo com comunicado da prefeitura. Nas duas cidades e em outras da região, postos de vacinação contra Covid também fecharam por causa do calor e centros de refrescamento foram abertos

Também em Seattle, grupos de assistência estão distribuindo garrafas de água congelada, instalando estações de nebulização e tentando ajudar os moradores de rua a encontrar maneiras de evitar o sol.“As pessoas que sobrevivem do lado de fora podem não ter um lugar seguro para ficar na sombra, para ter acesso à água”, disse Alison Eisinger, diretora da Coalizão para os Sem-teto da região à Bloomberg. “A desidratação é um risco enorme, realmente enorme”.

Como acontece no Canadá, do outro lado da fronteira, os habitantes desta região dos Estados Unidos também não estão acostumados a este calor, não tem ar condicionado em caso, e as autoridades temem uma onda também de casos graves de saúde. “As pessoas aqui não estão acostumadas a sintomas de desidratação e outras enfermidades causadas pelo calor. Nosso sistema de saúde, também, não está projetado para lidar com um grande número de pessoas que sofrem de insolação ou ficam doentes ou têm problemas de saúde que se agravam com este calor”, disse Larry O’Neill, climatologista chefe do estado do Oregon em entrevista coletiva.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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