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Notas de um Carnaval marcado pelo quilombo Kalunga

ODS 10ODS 11 • Publicada em 22 de fevereiro de 2023 - 18:43 • Atualizada em 24 de fevereiro de 2023 - 09:26

No nordeste do estado de Goiás, a 539 quilômetros da capital, existe um sítio histórico presente há mais de três séculos. Passei meu carnaval no coração do cerrado brasileiro e — enfim — realizei um sonho antigo: conhecer o quilombo Kalunga, que é o maior do nosso país, localizado no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Para quem desejava fazer uma simples imersão, falhei miseravelmente. Porque o que vivi foi muito mais do que isso. Voltei extasiada com tudo o que eu vi, ouvi, comi, vivi e senti. O Kalunga representa a história de um Brasil que resistiu à escravização e que insiste em perpetuar o legado da nossa resistência, que foi a fronteira de vida ou morte. Alguns conseguiram fugir e prolongar a vida, mas o trágico destino de muitos foi a morte.

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Espalhados pelos 264 mil hectares, 39 comunidades e aproximadamente 10 mil habitantes desenham o atlas geográfico do quilombo Kalunga. O território quilombola corta três municípios goianos: Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás. O que poucos sabem é que, nessa região, encontramos um dos maiores índices de agro-biodiversidade do planeta. Reconhecido pela ONU como o primeiro território brasileiro conservado pela comunidade, suas nascentes e cachoeiras de tirar o fôlego fazem parte da maior área de cerrado preservado no país.

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Quilombo Kalunga: 39 comunidades. com aproximadamente 10 mil habitantes, na maior área de cerrado preservado no país (Foto: Andréia Coutinho Louback)
Quilombo Kalunga: 39 comunidades. com aproximadamente 10 mil habitantes, na maior área de cerrado preservado no país (Foto: Andréia Coutinho Louback)

Não há dúvidas da riqueza ambiental, patrimonial e cultural, apesar das cicatrizes da escravização. Tanto é que uma das tradições clássicas é a sussa kalunga — uma dança criada para celebrar e agradecer pela chuva, a plenitude da colheita e o “fim” da escravidão. Homens, mulheres, jovens e crianças dançam com o corpo e alma o bem viver na terra — e da terra.

As casas do Engenho II possuem um distanciamento uma das outras. Entre a estrada de terra de areia avermelhada que ilustra as ruas, não vemos transporte público, tampouco delegacias, farmácias ou hospitais. A energia elétrica é frágil e a internet oscilante é por satélite. Vale lembrar que o primeiro ponto de luz elétrica foi instalado durante o primeiro mandato do governo Lula, quando o atual presidente visitou a comunidade.

Por isso, as raízes, ervas e folhas medicinais possuem um papel crucial no quilombo. A cura de dores, transtornos e doenças não é guiada por laudos e diagnósticos da medicina tradicional, mas, sim, pela sabedoria ancestral. Um conhecimento hereditário, permeado por saberes e tecnologias que vêm de um dom divino. Afinal, o próprio termo kalunga, palavra bantu, é sinônimo de divindade. As garrafadas enviadas para vários estados do Brasil — e países — já curaram milhares de pessoas. Isso não é lenda. É evidência histórica.

Durante o meu trajeto de ida na estrada de Alto Paraíso de Goiás até o município de Cavalcante, lembrei de uma das entrevistas que fiz para o estudo “Quem precisa de justiça climática no Brasil?”, no qual Selma Dealdina, mulher negra e quilombola, criticou pesquisadores e jornalistas que visitam os territórios para entrevistar pessoas, tirar fotos e não têm nenhum senso de compromisso de retornar para compartilhar o que escreveram ou produziram. A invisibilidade reforça o utilitarismo de narrativas e vivências para fins acadêmicos e midiáticos. “Como me livro de me tornar essa pessoa?”, me perguntei.

Pensar em justiça climática não é só sobre desastres com impactos desproporcionais. A luta para manter a terra e cultura, que refletem diretamente na qualidade de vida do cerrado, também são métricas da justiça socioambiental. Os kalungas são defensores do agro-biodiversidade do cerrado e responsáveis pela manutenção de um sistema alimentar, que abastece a própria comunidade com qualidade nutricional e fartura. Comi uma das melhores refeições da minha vida no restaurante Recanto da Mata, no Engenho II, preparadas pelas mãos das senhoras Rosilene e Luana.

Rosilene e Eliane, do restaurante Recanto da Mata, no Engenho II: kalungas são defensores do agro-biodiversidade do cerrado (Foto: Andréia Coutinho Louback)

Espero, honestamente, que essa seja apenas a primeira de muitas visitas que ainda farei ao quilombo Kalunga. Que as paisagens do cerrado fiquem sempre bem vivas na minha memória afetiva. E que todas as histórias ouvidas e partilhadas se transformem em ciência ancestral de dados, com respeito mútuo às individualidades e coletividades que compõem os modos de vida dos kalungas e toda a sua descendência. Livrai-me de todo jornalismo utilitarista e colonizador, que invisibiliza a resistência e legado daquelas 39 comunidades — e de todos os quase seis mil quilombos espalhados pelo Brasil.

Quero finalizar meu relato com a poesia da jovem Alciléia Torres, de 18 anos. Nascida e criada no Kalunga, ela se divide entre os sonhos de estudar jornalismo, seu trabalho na Prefeitura de Cavalcante e a maternidade da pequena Ágatha Rosária. Ela tem um caderno cheio de escrevivências sobre o resgate da ancestralidade e me deu o presente de ouvi-la recitando memórias, histórias e sonhos. Essa é sobre bioconstrução:

A moradia dos povos kalungas,
é feita de palha, adobe, e madeira,
No Território Quilombola/Kalunga,
As águas dos rios correm na corredeira.

A moradia dos povos kalungas,
é 100% bioconstrução,
em prol da sustentabilidade,
e da biodiversidade da região.

Os materiais utilizados nas construções,
não agridem o meio ambiente, os
Povos kalungas usufruem da natureza,
de forma muito consciente.

As moradias dos povos kalungas,
são representações culturais,
nelas estão os recursos da natureza, que não causam impactos ambientais.

Quem constrói são os bioconstrutores, que fazem todo o trabalho com suas mãos,
É um trabalhão danado,
esse processo de construção.

Com a falta dos recursos naturais,
muitos estão a aderir a alvenaria convencional,
mas tomara que não acabe,
a moradia do modo tradicional.

A bioconstrução sempre esteve vigente, e vem se passando de geração para geração,
Infelizmente, ela está se enfraquecendo,
pois os recursos naturais estão em processo de extinção.

(Alciléia Torres – @alcileia_torres)

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