Campanha de desinformação tenta colocar produtores rurais contra unidade de conservação no Pampa

Representantes da extrema-direita buscam espalhar pânico entre produtores rurais. Proposta coordenada pelo ICMBio prevê combinar preservação e atividades sustentáveis

Por Micael Olegário | ODS 11ODS 15
Publicada em 7 de janeiro de 2026 - 09:51  -  Atualizada em 8 de janeiro de 2026 - 12:15
Tempo de leitura: 13 min

Pecuária extensiva é essencial para manutenção dos campos nativos; proposta de Unidade de Conservação prevê valorizar pecuaristas (Foto: Giovanna Pallazi/ICMBio)

O Pampa é o bioma menos protegido do Brasil. Apenas cerca de 3% de sua área está dentro de unidades de conservação, segundo dados do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Ainda assim, a criação de uma nova área de proteção no bioma enfrenta uma campanha de desinformação, liderada por representantes da extrema-direita ligados ao agronegócio.

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A proposta está sendo coordenada pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a partir de oficina em Brasília (DF) que estabeleceu prioridades para criação de novas Unidades de Conservação (UC) em todos os biomas.

No Pampa, o objetivo central é garantir a preservação de áreas com espécies endêmicas, como as matas de pau-ferro e os campos missioneiros.

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Inicialmente, o projeto da UC prevê a criação da Área de Proteção Ambiental (APA) dos Campos Missioneiros, contendo três fragmentos de Reservas de Vida Silvestre (REVIS) de Campos Finos e Matas de Pau-Ferro. A iniciativa está atualmente na fase consultiva, em que os atores do território são chamados para o diálogo. Para isso, o ICMBio realizou visitas técnicas à região no início de dezembro.

Analista ambiental do ICMBio, Márcia Casarin Strapazzon é a responsável por coordenar a criação de novas unidades de conservação no bioma Pampa. Segundo ela, a iniciativa nasceu em 2007 de um estudo que identificou a lacuna de proteção no Pampa. Desde então, a proposta passou por diversas alterações.

Na região missioneira, temos algumas espécies emblemáticas para a proposta dessa UC, principalmente o capim barba-de-bode. É uma espécie bem importante em termos de uma fisionomia campestre que não tem sido protegida e foi bastante convertida

Alexandre Krob
Engenheiro agrônomo

“O campo depende da pecuária para se manter. Sabemos que pode ocorrer uma sucessão florestal quando tiramos os grandes herbívoros”, explica Márcia, que é bióloga de formação.

A APA dos Campos Missioneiros prevê combinar preservação com atividades econômicas sustentáveis, a exemplo da pecuária e do turismo ecológico, além da pesquisa científica.

A área estimada para a nova Unidade de Conservação é de cerca de 160 mil hectares e se sobrepõe ao território de cinco municípios gaúchos: Santiago, Santo Antônio das Missões, Bossoroca, Itacurubi e Unistalda. A maioria das áreas são de propriedades privadas, o que despertou o temor de produtores locais sobre a possibilidade de desapropriações e de perdas econômicas. 

A proposta, porém, não prevê nenhuma desapropriação e, mesmo na área mais restrita de refúgio de vida silvestre, existe a permissão de atividades econômicas.

“A despeito de ser de proteção integral, permite agricultura de baixo impacto, pesquisa, visitação, produção florestal e extrativismo, ou seja, a compatibilização com a atividade produtiva, desde que não prejudique os objetivos da unidade”, descreve a analista ambiental do ICMBio.

Campanha de desinformação

Nas redes sociais, representantes da extrema-direita divulgam o projeto da nova UC como uma intervenção catastrófica para a região. Enquanto isso, nos bastidores, boatos enganosos falam em desapropriação forçada e retirada dos produtores rurais de suas terras.

Entre os protagonistas da campanha estão Luís Fernando Cavalheiro Pires, advogado e assessor da presidência da Farsul (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul), e o deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS).

“Vai haver uma intervenção muito grande e eles vão dizer a forma como vai se dar o manejo, vai ter ataque direto à livre iniciativa”, afirma Luís Fernando, em um dos seus vídeos publicados sobre o tema. Nele, o advogado cita um trecho da Lei 9.985/2000 que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza.

O trecho faz referência às Reservas Refúgio de Vida Silvestre, categoria de UC mais restritiva que a APA. No caso dessas áreas, em torno de 43 mil hectares pela proposta preliminar do ICMBio, existe a possibilidade de que os produtores solicitem a desapropriação, caso suas atividades sejam incompatíveis com a agricultura de baixo impacto, pecuária ou outras atividades permitidas pela lei. Contudo, não existe previsão de desapropriações no projeto atual.

Vídeo publicado no perfil de Heinze desinforma ao dizer que o processo não possui transparência e menciona requerimento enviado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) pedindo esclarecimentos sobre a proposta. O conteúdo ignora as consultas previstas às comunidades e entidades representativas do setor, estas últimas já em andamento. 

Parte da estratégia de se contrapor à proposta possui ligação com a defesa do modelo de agronegócio predatório baseado no uso de agrotóxicos, o que seria restrito na APA e nas REVIS.

Outras desinformações lançam dúvidas sobre o acesso ao crédito rural e exploram as dificuldades econômicas enfrentadas pelos produtores após eventos extremos consecutivos de seca e chuva extrema. Para tentar combater as desinformações, o ICMBio elaborou um documento com perguntas e respostas sobre o projeto

Existem ainda alegações de que não seriam permitidas mais áreas de lavoura, o que também não possui base verídica. “Área consolidada se mantém e na APA, é mais um ordenamento territorial, que permite ampliar área convertida, respeitando o processo de licenciamento”, explica Márcia Strapazzon. 

Capim barba-de-bode é uma das espécies endêmicas que a APA dos Campos Missioneiros pretende proteger (Foto: Giovanna Pallazi/ICMBio)

O contexto dos produtores

“Está sendo vendida a ideia de que vai acontecer uma verdadeira devassa na questão dos produtores e que vão perder terra e que não vão mais poder produzir”, comenta Agnaldo Barcelos, pecuarista familiar e representante da Fetag-RS (Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura do Rio Grande do Sul), na região das Missões.

Agnaldo cita o desconforto gerado pela não participação dos sindicatos do setor nas primeiras reuniões do ICMBio com as prefeituras dos cinco municípios. Desde então, a Fetag-RS fez reuniões com o órgão federal para entender o projeto e poder explicar aos produtores rurais. Novos encontros estão previstos para o final de janeiro.

Precisamos olhar para o bioma Pampa, que é nosso e está no Rio Grande, e ver como que ele potencializa, inclusive o desenvolvimento da nossa região, seja olhando para o turismo rural, para a agregar valor ao nosso produto ou para a questão cultural

Agnaldo Barcelos
Pecuarista familiar

Para o pecuarista, a iniciativa da UC possui potencial de contribuir com o trabalho de conservação que já acontece por parte de produtores familiares da região. “É um processo de construção democrática, tem um rito para ser seguido. Não é do jeito que está sendo propagado na região, não vai acontecer dessa forma de as pessoas perderem as propriedades”, enfatiza Agnaldo.

Engenheiro agrônomo e chefe do escritório da Emater-RS/Ascar de Santiago, Marcelo Steiner também menciona as dificuldades dos produtores rurais da região, pressionados por perdas de produção e pelo endividamento rural.

“Os produtores estão muito apreensivos de ter mais prejuízos financeiros com a implantação dessa APA”, complementa o extensionista.

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Marcelo descreve o mosaico de paisagens e modelos de produção na região, em uma zona de transição entre Pampa e Mata Atlântica. “Dentro de uma propriedade mesmo, às vezes, existem áreas que são mais propícias para a agricultura e outras mais propícias para a pecuária”, explica. 

Uma preocupação comum é com relação ao plantio de aveia e azevém em campos nativos, uma estratégia de produtores para garantir forragem e alimento para o gado no inverno. “Isso é uma coisa que preocupa muito os pecuaristas”. Para Marcelo, estes pontos precisam ser mais dialogados e explicados pelo ICMBio.

Biodiversidade e espécies endêmicas

Os fragmentos da região das Missões e da região Central em que a APA Campos Missioneiros e as REVIS seriam implementadas inclui formações florestais raras e ameaçadas – como as matas de pau-ferro-do-sul. Já os campos missioneiros abrigam espécies endêmicas, como a barba-de-bode e o espinilho, além de afloramentos rochosos e os campos finos.

Temos também algumas espécies de animais que utilizam essas áreas de matas de pau-ferro como, por exemplo, o bugio preto”, destaca Alexandre Krob, engenheiro agrônomo e coordenador técnico do Instituto Curicaca.

Em relação ao capim barba-de-bode, Alexandre alerta para a alta taxa de conversão e a falta de proteção para essa espécie, importante para a fisionomia campestre.

Com uma atuação em conjunto com comunidades tradicionais do bioma Pampa, o Instituto Curicaca é uma das entidades que colabora com o ICMBio na construção da proposta da UC.

“É uma estratégia de convivência das pessoas e das atividades sustentáveis tradicionais, o que vem ajudando a manter a conservação da natureza nesse território”, ressalta Alexandre, sobre a importância de manter a pecuária extensiva na região.

Ameaças ao Pampa

Segundo dados do MapBiomas, o Pampa foi o bioma com a maior perda proporcional de vegetação nativa nos últimos 40 anos. Foram 3,8 milhões de hectares, o que equivale a 30% do bioma. Os números também mostram que a degradação ambiental se intensificou na última década  (2015 a 2024), quando foram suprimidos 1,3 milhão de hectares de formações campestres. 

A degradação dos biomas, não somente do Pampa, também aumenta a vulnerabilidade dos territórios a eventos extremos, cada vez mais frequentes e intensos no contexto de mudanças climáticas. Para Alexandre, isso é um indicativo da necessidade de encontrar modos de interação mais equilibrados com a terra.

“Precisamos encontrar soluções de maior sustentabilidade. Para que a vida das pessoas e as economias sejam compatíveis com a natureza, para a viabilidade nossa enquanto seres humanos e de todas as formas de vida no planeta”. Estudo publicado em 2023 indica que o Pampa é o lar de 12.503 espécies de plantas, animais, fungos e bactérias

Vista aérea das matas de pau-ferro; desinformação dificulta diálogo com produtores rurais sobre proposta de UC (Foto: Eduardo Vélez/Instituto Curicaca)

Próximas fases

“O nosso objetivo é o diálogo, a proposta amadureceu de forma a buscar a compatibilização entre a produção agropecuária, especialmente a pecuária extensiva, com a proteção dos campos”, reforça Márcia Strapazzon. Segundo ela, mesmo o debate sobre as pressões que o Pampa tem sofrido já é importante.

A analista ambiental do ICMBio explica também que a fase consultiva deverá continuar no primeiro trimestre de 2026, com novas reuniões setoriais, antes da elaboração da proposta formal a ser apresentada em consulta pública na região. Atualmente, o Pampa possui apenas uma UC federal, a Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã.

“Precisamos olhar para o bioma Pampa, que é nosso e está no Rio Grande, e ver como que ele potencializa, inclusive o desenvolvimento da nossa região, seja olhando para o turismo rural, para a agregar valor ao nosso produto ou para a questão cultural”, lembra Agnaldo Barcelos, sobre a importância de oferecer condições de renda e sustento para a pecuária familiar.

Como exemplo da ecossociabilidades, ou seja, relações sustentáveis das pessoas com o Pampa, Agnaldo menciona o projeto “Recuperação de Biomas”, uma parceria da Fetag-RS com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA-RS). A iniciativa envolve produtores rurais na recuperação de áreas degradadas, com objetivo de capacitá-los como agentes de preservação do Pampa.

Outras estratégias possíveis incluem incentivos para inclusão de produtos da pecuária familiar na merenda escolar, além de certificados e selos de origem.

“Não podemos ser inconsequentes de não entender que o bioma Pampa e os campos nativos precisam ser preservados e a unidade de conservação vem ao encontro disso. Não é de proibir que existam outras coisas na região, mas é também garantir que o patrimônio natural tenha o mínimo de preservação”, complementa Agnaldo.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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