
O dia 28 de outubro de 2017 começou com céu azul e temperatura de quase 20 graus, atipicamente alta para o outono espanhol. Como todo sábado, M. e Y. (a pedidos, usarei só as iniciais) saíam de casa, em Valdemoros, arredores de Madrid, para levar os filhos para um curso de idiomas. Mas o noticiário no rádio sobre a declaração unilateral de independência da Catalunha, anunciada na véspera, centralizava as atenções e logo virou estopim para uma acalorada discussão.
“É um absurdo o que esses separatistas estão fazendo. Vão arruinar todo o país. Estão enganando as pessoas, fazendo parecer que vai ser simples assim”, irritou-se Y., profissional de comunicação corporativa, enquanto dirigia em direção à autoestrada que levava à capital.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Em Madrid, no Museo Reina Sofia, uma exposição do premiado fotógrafo Robert Capa sobre a Guerra Civil Espanhola lembra o que acontece quando o diálogo fracassa. Das trincheiras de uma luta fratricida, há quase 80 anos, saiu um único vencedor: o autoritarismo
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Veja o que já enviamos“Eles não tiveram opção”, rebateu o marido, M., professor de Jornalismo da Universidad Complutense de Madrid, a maior da Espanha. “O governo de (Mariano) Rajoy nunca aceitou ouvir as demandas dos catalães, e isso os levou a radicalizar.”
“Não é verdade, eles sempre tiveram tudo que precisaram”, exaltou-se ainda mais Y. “Independência é para povos oprimidos, a Catalunha sempre foi parte da Espanha. Estas pessoas que estão impondo o separatismo são fascistas! São uma minoria que quer obrigar a maioria dos catalães a deixar a Espanha.”
Ponderado, M. contestou: “Fizeram um referendo, e 42% da população de lá votou pela independência”.
“Um referendo que a Suprema Corte considerou ilegal!”, reagiu a esposa.
“Claro, porque a Constituição espanhola foi escrita em pedra, e é praticamente impossível muda-la”, devolveu M.
“São criminosos, e vão ser processados.”
“Por sedição, rebelião? São crimes do século XIX. Se Madrid tivesse permitido um referendo, provavelmente os independentistas teriam perdido e não estaríamos nessa situação. Faltou diálogo.”
A discussão amainou à medida que chegávamos à periferia de Madrid, com seus grandes prédios residenciais de um marrom avermelhado característico. A paisagem, no entanto, estava diferente do habitual, um outro indício dos ânimos acirrados: bandeiras espanholas tremulavam onipresentes nas janelas e sacadas, por toda a parte.
Naqueles dias, a Espanha estava mergulhada na incerteza após uma declaração unilateral de independência do Parlament Català, estimulada pelo chefe do Govern, Carles Puidgemont. A ruptura institucional veio na esteira de um referendo não reconhecido por Madrid, duramente reprimido por tropas federais. O sim a uma Catalunha independente, no dia 1º de outubro, contou com cerca de 90% dos votos dos 2,2 milhões de eleitores que foram às urnas. Rajoy reagiu brutalmente, não apenas na esfera policial, mas também no plano jurídico. Mudou a legislação para desburocratizar a mudança de endereços de empresas, o que levou a uma fuga em massa de grandes corporações sediadas na Catalunha, temerosas de um provável não reconhecimento da independência pela União Europeia. E, principalmente, invocou pela primeira vez na História o Artigo 155, que permite ao governo central espanhol dissolver o governo e o parlamento de uma província.
Os dias seguintes foram marcados por uma vertiginosa sucessão de fatos surpreendentes, incluindo um proclamado autoexílio de Puidgemont na Bélgica, a prisão de seu vice, Oriol Junquera, e de outros membros do Govern e a exoneração da cúpula dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã, acusada de desobedecer às ordens de Madrid para reprimir o referendo. Animados com a mão de ferro de Rajoy, centenas de milhares de nacionalistas foram às ruas de Barcelona, no domingo, dia 29, para defender uma Espanha unida. Muitos, usando bandeiras nacionais como mantos, vieram de outras cidades e até mesmo de Madrid. O epicentro da manifestação era o Passeig de Gràcia, avenida chique onde se pode encontrar alguns dos mais singulares exemplos da arquitetura catalã, como a Casa Milà (mais conhecida como La Pedrera), de Antoni Gaudí, e a Illa de la Discòrdia, quarteirão de mansões que levam a assinatura de Gaudí e outros três de seus mais famosos arquitetos, Lluís Domènech i Montaner, Josep Puig i Cadafalch e Enric Sagnier. Os mais exaltados cantavam palavras de ordem agressivas, pedindo prisão para Puidgemont. Perto dali, da janela de meu quarto de hotel, pude ver dezenas de ultras – manifestantes da extrema-direita espanhola – confrontarem mossos e agredirem funcionários da loja do Barcelona F. C. na Carrer de Jaume I, no Bairro Gótico, uma das áreas mais turísticas da cidade e também uma das mais adornadas com as bandeiras “esteladas”, ícone independentista catalão. Acuados, os funcionários da loja de artigos do clube de futebol, símbolo da Catalunha, tiveram que fechar as portas às pressas.
A abortada independência unilateral trazia incertezas também às universidades públicas catalãs, que mantêm diversos laços com associações empresariais e organismos multilaterais, além de fraturas entre os próprios professores, divididos como nunca. Uma professora da Universitat Autònoma de Barcelona, uma das mais importantes do mundo, chocou os colegas ao dizer que a violência do governo central – amplamente exibida por redes públicas de TV europeias, como BBC e Deutsche Welle – havia sido encenada para a imprensa e que muitos manifestantes tinham usado tinta vermelha para simular ferimentos.
De fato, acompanhar os acontecimentos na Catalunha pela imprensa não é uma tarefa para iniciantes. Lendo os jornais madrilenhos, não era preciso ter formação em análise de discurso para perceber o tom marcial das manchetes, sobretudo do principal diário nacional, El País, que clamava por uma reação dura do governo central e denunciava os “golpistas” da independência. Aqui e ali, pululavam reportagens em tom jocoso sobre as contradições no Govern e, sobretudo, nas ações de Puidgemont, pintado como um anticristo, sem direito a semitons. Na imprensa catalã, a situação não era tão diferente, visto que os principais jornais locais, como Vanguardia, são declaradamente anti-independência. Não é por acaso que uma rara voz dissonante, a emissora pública Catalunya Ràdio, tenha sido alvo de ultras, tendo sua entrada depredada em manifestação nacionalista no dia 27 de outubro.
Aos moderados, resta informar-se por meio de diários on-line como Ara.cat. Daí muitos pesquisadores entenderem a atual crise como, também, uma crise de narrativa. Afinal, a Catalunha já foi independente e quer recuperar sua autonomia? Ou sempre foi parte da Espanha? Há presos políticos no país ou apenas políticos na prisão?
O movimento por independência da Catalunha tem raízes que remontam ao século XVIII. Ao longo dos séculos, a região alternou momentos de grande autonomia e de (quase) total submissão ao governo central. As terras situadas entre os Pirineus e o Mediterrâneo sempre foram disputadas e suscitam diferentes narrativas, conforme a origem dos pesquisadores. Há consenso quanto ao fato de que fenícios, etruscos, gregos, romanos, visigodos e árabes se sucederam no controle da região. Em 1137, os condados que formavam a Catalunha se uniram em torno da Coroa de Aragão. Nas décadas seguintes, constituíram-se diversas instituições catalãs, como a Generalitat (Executivo) e as Cortes Catalanas (Legislativo). No auge, a Coroa de Aragão abarcava Valência, Mérida, Ilhas Baleares e se estendia até onde hoje fica a Itália, administrando a Sardenha e parte da Sicília. Mesmo com a unificação da coroa espanhola em torno das casas de Aragão e Castela, em 1476, a região manteve sua autonomia. No século XVII, contudo, houve uma revolta catalã contra o governo central e parte da região se tornou território francês. O golpe fatal na autonomia veio com a ascensão de Felipe V, da Casa de Bourbon, em 1714, após a chamada Guerra da Sucessão, provocada pela morte do rei Carlos II, em 1700. No Bairro Gótico, há um monumento em homenagem aos mortos na última batalha contra as tropas de Felipe V. A resistência é lembrada até hoje, todo dia 11 de setembro, data conhecida como Dia da Catalunha, ou Diada. Foi justamente a partir dos 300 anos da data, em 2014, que a campanha e a narrativa da independência ganharam força.
Em 1873, durante a proclamação da primeira república espanhola, os catalães criaram, durante um ano, um novo país, mas logo a casa de Bourbon retomou o poder. No início do século XX, a Catalunha foi polo de resistência à ditadura de Primo de Rivera (1923-1930) e, com a segunda república, conseguiu, enfim, em 1932, recuperar o status de comunidade autônoma. Mas veio a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), culminando com a vitória do ditador Francisco Franco (1939-1975), aliado do eixo nazifascista. O “generalíssimo” Franco proibiu o uso da língua catalã e de outras manifestações culturais e sufocou todas as aspirações de autonomia da região. Só com sua morte e a promulgação de nova Constituição, em 1978, a Catalunha pôde retomar o uso do idioma, que, apesar de proscrito por Madrid, permaneceu sendo utilizado.
“Somos bilíngues, e isso incomoda profundamente algumas pessoas. Muitos nacionalistas veem o ensino em catalão e espanhol como uma forma de doutrinação. Mas em nosso dia a dia passamos de um idioma ao outro com muita facilidade, em família, entre amigos ou no trabalho”, explica Belén Monclús, professora do Departament de Comunicació Audiovisual i Publicitat da UAB e coordenadora do Observatòri de la Rádio a Catalunya.
Diferentemente do que ocorre com outros idiomas regionais, como o basco, o catalão tem forte presença no cotidiano da população. Placas por toda a região são bilíngues, quando não multilíngues – além do inglês, já se veem sinalizações traduzidas para o mandarim, devido à grande presença chinesa em toda a Europa.
A Catalunha é o motor da economia espanhola, respondendo por um quinto do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas geradas por um país em um ano). Daí, vem grande parte do temor das elites madrilenhas. Corre-se o risco de uma divisão em que o resultado seria menor do que a soma das partes.
O separatismo sofreu sucessivos revezes nos últimos dois meses, mas ninguém arrisca dizer o que resultará da recomposição política do Parlament. As eleições parlamentares na Catalunha nesta quinta-feira, 21 de dezembro, chegam sem que haja clareza quanto a vencedores, embora a expectativa seja de uma votação expressiva de partidos vinculados à proposta de independência – uma coalizão absolutamente instável, que abrange da centro-direita até anarquistas anticapitalistas.
A situação evoca o livro “¿Que pasa en Cataluña?”, do jornalista Manuel Chaves Nogales, que traz uma série de reportagens escritas em Barcelona entre 1931 e 1936, expondo toda a fragmentação da segunda república. Ao constatar a complexa dinâmica política da região, o repórter, perplexo, reconhecia a impossibilidade de identificar, entre os catalães, vencedores e vencidos.
Em Madrid, no Museo Reina Sofia, uma exposição do premiado fotógrafo Robert Capa sobre a Guerra Civil Espanhola lembra o que acontece quando o diálogo fracassa. Das trincheiras de uma luta fratricida, há quase 80 anos, saiu um único vencedor: o autoritarismo.