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Graduada em Biblioteconomia e doutoranda em Educação, ela e mais um grupo de 13 travestis, trans e pessoas não-binárias estão tentando reverter esse quadro por meio de muito estudo e ações para a inclusão. Maria é uma das fundadoras do núcleo de pesquisa NeTrans, da Universidade Federal de Santa Catarina: o primeiro do Brasil, formalizado no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), voltado para questões sobre gênero e transgeneridade. “Pessoas trans e travestis estão revolucionando e produzindo conhecimento nas universidades do país, sim”, afirma.
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Veja o que já enviamosNascida em Balneário Camboriú, Maria recorda do tempo em que, ainda adolescente, passava pelos pontos de prostituição e se via na pele das travestis e trans. Função essa que passaria a exercer anos depois, justamente para custear os estudos e conseguir ingressar numa universidade federal. Ciente do seu papel e dos contrastes desses dois mundos nos quais está inserida, se torna ativista pelos direitos de seus iguais. Resultado dessa militância, cria o NeTrans em maio de 2018, durante seu mestrado em Serviço Social, juntamente com Gabriela da Silva, mulher trans e professora há 30 anos.
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Com encontros quinzenais, o núcleo possui linhas de pesquisa em diversas áreas. Entre os temas dos pesquisadores estão: saúde; patologização; esporte; infância em família e no ambiente escolar; transfeminicídio, experiências transgêneras ao longo da história; e outros. Em busca de conscientização, o grupo também desenvolve revista e cartilhas sobre a população trans e, em maio, desenvolveu o primeiro seminário para exposição das pesquisas.
Da Colômbia e integrante do NeTrans, Ale Mujica, de 33 anos, é a primeira pessoa do grupo a ganhar o título de doutor com uma pesquisa voltada para as trajetórias de cuidado à saúde das pessoas trans em Florianópolis. Para Ale, a iniciativa ganha uma importância ainda maior em razão do contexto político atual do Brasil e fez toda diferença para conclusão da sua jornada acadêmica. “Estamos em um momento bastante complexo, de uma conjuntura política conservadora. O NeTrans é, portanto, uma forma de luta e reivindicação dos espaços. De forma pessoal, foi um local que me constituiu como pessoa trans e ainda me constitui. Hoje, posso compartilhar minhas vivências, meus afetos e ser acolhida. Foi uma força para o meu processo de doutorado e me ajudou a pensar na diversidade como uma forma de potencial”.
Cotas em debate
A ideia de construir um grupo de resistência trans no ambiente acadêmico surgiu com o crescimento de alunos e pesquisadores transgêneros na UFSC. Com cotas específicas para pessoas trans e travestis na pós-graduação desde 2018, a instituição é uma das 15 universidades brasileiras com a política de ação afirmativa, segundo estimativa do Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE).
[g1_quote author_name=”Maria Zanela” author_description=”Doutoranda pela UFSC” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A educação é fundamental para a transformação social e estamos conseguindo ocupar espaços nunca antes ocupados
[/g1_quote]Aliás, essa pauta voltou ao centro das atenções em meados de julho após o presidente Jair Bolsonaro anunciar, pelo Twitter, a suspensão de um vestibular específico para candidatos transgêneros e intersexuais da Unilab (Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira), após intervenção do Ministério da Educação. A medida gerou polêmica nas redes sociais e, claro, revolta nos integrantes do NeTrans.
A Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira (Federal) lançou vestibular para candidatos TRANSEXUAL (sic), TRAVESTIS, INTERSEXUAIS e pessoas NÃO BINÁRIOS. Com intervenção do MEC, a reitoria se posicionou pela suspensão imediata do edital e sua anulação a posteriori.
— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) 16 de julho de 2019
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“Foi contra a autonomia universitária. Uma reação movida pela transfobia. As ações afirmativas surgem como uma reparação histórica. 90% da nossa população exercem a prostituição, e grande parte desse número não consegue concluir o ensino médio porque trans e travestis são expulsas das escolas. Então, é um grande passo para que pessoas que são excluídas de direitos e tratadas com indiferença perante a sociedade, consigam se direcionar ao contexto da educação”, opina Zanela, que teve como uma das principais referências ao longo da sua jornada, Luma Andrade, primeira travesti doutora do país.
Para ela, o que está sendo feito pelo NeTrans na UFSC deve servir como exemplo para universidades do Brasil inteiro. “A gente tem feito uma frente de resistência muito importante, tanto pela conjuntura e pela produção de conhecimento, mas também pela articulação dentro da universidade. Esse lugar também é lugar da construção de saberes das experiências dos indivíduos trans. Essa realidade por muito tempo foi ignorada e dita apenas por pessoas cis. A educação é fundamental para a transformação social e estamos conseguindo ocupar espaços nunca antes ocupados”.
74/100: A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil