Uma carta de orgulho para a criança que sente vergonha

Colagem: @_plantarosa / Vitor Hugo Macedo

'Eu sei que as coisas não estão fáceis, e é por isso que eu te escrevo essa carta. Para o seu conforto e paz'

Por Yuri Fernandes | ODS 16 • Publicada em 28 de junho de 2020 - 05:43 • Atualizada em 20 de novembro de 2021 - 12:19

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Colagem: @_plantarosa / Vitor Hugo Macedo

Oi! Como estão as coisas por aí?
Por aqui, um caos. Estamos vivendo um longo período de isolamento social.
Mas é um isolamento diferente do seu.
Eu sei que as coisas não estão fáceis, e é por isso que eu te escrevo essa carta. Para o seu conforto e paz.

Você não entende porque seus colegas de turma te chamam de “bichinha” ou “viado”.
E ficam rindo de você na fila da merenda.
Você nem sabe do que eles estão falando. Mas isso te machuca de alguma forma, eu sei.
Você está esperando a van chegar para sair da sala porque você tem medo do lado de fora da escola. Dos outros meninos, na verdade.

Só depois de alguns anos você vai compreender que, sim, você é diferente deles.
Ainda bem, viu? Mas vai questionar a Deus: “Por que eu?”
Você que nunca foi religioso, vai rezar implorando por uma mudança, que não virá.
Sabe por quê? Está tudo bem em ser assim. Calma, logo você vai me entender.

Mais: Artigo: ‘Muito maior do que o medo, é o orgulho que tenho dos meus filhos LGBT+’

Primeira coisa: a culpa não é sua, nem de ninguém, viu?
Seja forte, porque a sociedade pode ser cruel.
Muitas pessoas são ensinadas a te odiar. E você vai ouvir isso algumas vezes.
Mas muitas outras nasceram para te amar.

Te peço para não chorar mais escondido. É difícil não ter ninguém para falar sobre, eu sei.
E eu entendo que você não quer magoar as pessoas que você mais ama, mas você está se ferindo.
Pegue leve. Existem milhões de você pelo mundo.

Eu quero que você se olhe no espelho e se ame sendo quem você é.
Três anos após a sua autodescoberta, isso acontecerá. E eu vou ficar muito orgulhoso nesse dia.
O outro passo – esse vai demorar mais 7 – é não ter vergonha de falar para o mundo.
E eu sei que esse mundo é a sua família. Mais difícil, né?
Tudo bem, você tem o tempo que achar necessário.
Adianto que tudo de ruim que passava pela sua cabeça, era bobagem. Você renascerá nesse dia.

Escrevo para você no dia 28 de junho de 2020, Dia Mundial do Orgulho LGBTI+.
Você vai entender o significado dessa sigla, calma.
Aí ainda é GLS, certo? É preciso transcender, sempre.
E mais do que isso, você, mesmo com todas as suas noites de insônia, vai agradecer por ser um garoto privilegiado.
Muitos e muitas têm destinos completamente diferentes.
Infelizmente, você vai saber o real significado de LGBTfobia – pela dor do outro.
E, assim, vai sentir que não pode ficar fora de uma luta ainda maior.

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Repito: vocês são muitos, acredite! E muitos deram a vida por você, sem mesmo te conhecerem.
Um dia você vai andar de mãos dadas com seu namorado nas ruas, vai ter uma variedade de lugares seguros para curtir e vai falar ‘eu te amo’, sem medo.
Eu só quero que você não se esqueça de ser grato a quem abriu todos esses caminhos.
A sua profissão vai te fazer conhecer alguns, na hora certa. E a sua família vai se orgulhar desse trabalho. Não te falei que daria certo?

Antes que eu me esqueça, você ainda vai em uma Parada LGBTI+ e verá pessoas de todos os tipos celebrando o amor.
Porém, no caminho, vai ouvir um cara falar que alguém poderia jogar uma bomba em vocês. Comentários do tipo, infelizmente, vão ser recorrentes.
Inclusive, um candidato à presidência do seu país com um discurso parecido vai ser eleito.
A coisa vai ficar sombria por aqui. Mas é para quase todo mundo, viu?

Não vou te assustar, afinal o assunto é orgulho. E eu quero te contar umas novidades.
Você, que gosta muito de novela, ainda vai assistir casais homossexuais, como você, se amando e se beijando em horário nobre.
Você não só vai poder se casar, perante a lei, como também construir sua própria família.
Todos vocês, enfim, poderão doar sangue. Informação recente, viu?
‘Como assim eu não podia?’, aposto que você se questionou.
Relaxa, porque eu ainda me faço essa pergunta.

Mais: O orgulho e a emoção nas falas das pessoas LGBT+

E, ah, sabe aqueles xingamentos e ofensas que você escuta?  Vão virar crime.
Uma conquista e tanto! Aquele “viado” que tanto doía ouvir, quando tentavam te ferir, em breve estará estampado no seu antebraço como a materialização do seu orgulho.
É disso que a gente está falando, afinal.

E olha como as coisas são.
Aquilo que aí te traz vergonha, aqui é o maior motivo da sua alegria.
Anda ao lado do seu trabalho, dos seus amigos e da sua família.
E se um dia você pediu para nascer diferente, em outro corpo, eu tenho uma coisa a te dizer.
Você ainda vai desejar nascer igualzinho, do jeito que você é.
Sabe por quê? Sua existência é única.
Mas eu vou deixar você descobrir muita coisa sozinho. Não quero estragar as surpresas.

Enquanto isso, fique bem.
Estou te esperando do lado de cá, com muito orgulho.

Yuri Fernandes

Yuri Fernandes é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora e roteirista pela Academia Internacional de Cinema. Trabalhou nas redações de Bom Dia Brasil, Fantástico e EGO. Em 2017, passa a fazer parte do time do #Colabora e do #Colabora Marcas, agência de branded content. No ano seguinte, lança a websérie “LGBT+60: corpos que resistem”, com depoimentos de idosos LGBT+. O projeto alcança mais de 1 milhão de views no YouTube, é exibido em diversos seminários e festivais, e vence o Prêmio Longevidade Bradesco Seguros, em 2019. No mesmo ano, Yuri Fernandes também é laureado com o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, com a série “Sem direitos: o rosto da exclusão social no Brasil”. Por meio do jornalismo humanizado, busca ecoar vozes de minorias sociais, sobretudo, da comunidade LGBT+.

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