Três dias depois de bolsonaristas terem tomado de assalto as sedes dos Três Poderes, indígenas e favelados (com todo orgulho que a palavra pode carregar) deram uma festa de civilidade no Salão Nobre do Palácio do Planalto. O motivo era ainda mais nobre: a tomada de posse de Sonia Guajajara e Anielle Franco à frente dos ministérios dos Povos Indígenas e da Igualdade racial, respectivamente.
As vias de acesso ao palácio, que haviam sido reabertas na tarde de terça-feira (10) por determinação do interventor federal, Ricardo Cappelli, foram novamente fechadas a veículos, com a segurança reforçada pela Força Nacional, polícias e Forças Armadas, devido à ameaça de novos atos terroristas. Mas a dança da chuva, que fez cair muita água sobre Brasília na quarta (11), amedrontou os bolsonaristas, que, desta vez, não conseguiram sair às ruas e se limitaram a xingar muito no Twitter e nos grupos de Telegram.
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Quando a cerimônia começou, com mais de meia hora de atraso, o sol voltou a brilhar, e feixes de luz resplandeceram no Salão Nobre, iluminando rostos indígenas e pretos que, talvez, pela primeira vez, tenham sido a maioria naquele espaço. O brilho nos olhares reluziu mais forte quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desceu a rampa interna ao som de atabaques ecoando pontos de umbanda, ao lado de Janja, Anielle e Guajajara.
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Junto com eles, sentaram-se o vice-presidente, Geraldo Alckmin, a ex-presidenta Dilma Rousseff e o ministro da Justiça, Flávio Dino, que já dissera, ao assumir o cargo, que solucionar o caso Marielle seria uma questão de honra. As honras da Casa ficaram por conta de um canto das três raças, mas, desta vez, sem soluçar de dor nem lamento triste.
A uma indígena guerreira coube cantar a primeira parte do hino nacional na língua Ticuna, o povo indígena mais numeroso da Amazônia brasileira. Sem revolta pelos ares, uma negra entoou a segunda parte desse canto, que voltou a ser um canto de alegria, desde o resgate do hino pelas três raças na posse de Lula.
Guajajara anuncia homologação de 13 terras indígenas e combate ao garimpo ilegal
“Nós, que somos a resistência secular desse país, trouxemos o hino cantado por uma mulher indígena e uma mulher preta para dizer que não vamos desistir nem recuar. Não são ameaças à democracia que vão fazer a gente ter medo. Nunca tivemos medo. Estamos aqui não só para assumir espaços de poder, mas para fazer uma diferença no respeito a essa diversidade de modos de vida dos povos, culturas e territórios nesse país”, disse a nova ministra dos Povos Indígenas.
Em seu discurso de posse, Guajajara homenageou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, assassinados no Vale do Javari, na Amazônia, e anunciou a recriação do Conselho Nacional de Política Indigenista. O órgão, responsável por políticas públicas voltadas para indígenas, havia sido extinto pelo governo de Jair Bolsonaro.
A nova ministra também puxou um coro com o grito “sem anistia”, em referência aos indícios de crimes cometidos pelo governo Bolsonaro, sendo acompanhada e ovacionada pelos convidados. Questionada pelo #Colabora sobre como seu ministério lidará com o combate ao garimpo ilegal em terras indígenas, Guajajara afirmou que pretende liderar este enfrentamento com a ajuda de outras pastas: “Estamos conversando com os ministérios do Meio Ambiente, da Justiça e da Saúde para que possamos organizar uma ação articulada para retirar todos os garimpeiros ilegais, a começar pelo território do povo Yanomami no estado de Roraima”, detalhou.
Ela também garantiu que, nos primeiros 100 dias de governo, uma prioridade será a homologação de 13 terras indígenas já em fase final de reconhecimento, mas cujos processos foram paralisados na era Bolsonaro.
Depois de Guajajara ser erguida em meio a uma roda de dança indígena, foi a vez de Anielle Franco tomar posse como ministra da Igualdade Racial. Mostrando que a diversidade de estilos pode ser harmônica, mesmo sem o rigor da etiqueta, ternos e vestidos longos contracenavam, sem contrastar, com chinelos e bonés. Um deles, com a sigla CPX, estava na cabeça de Camila Moradia, cria do Complexo do Alemão e líder do Movimento por Moradia na favela, que apresentou Anielle, cria do Complexo da Maré.
Anielle se emociona ao falar de Marielle e gritos de “favela chegou ao poder”
Da plateia, ouviam-se gritos de que “a favela chegou ao poder!”. Em um discurso emocionante, Anielle também se emocionou ao falar da irmã Marielle Franco, cujo assassinato completa cinco anos no próximo dia 14 de março.
“Nós estamos aqui porque a gente tem um projeto de país. Um projeto de país onde uma mulher negra possa acessar e permanecer em diferentes espaços de tomada de decisão da sociedade, sem ter sua vida ceifada com cinco tiros na cabeça”, disse Anielle, com a voz embargada.
Na sequência, as lágrimas deram lugar aos sorrisos dos mais de 1000 convidados que cantaram “Histórias para ninar gente grande”, samba da Mangueira, campeão do carnaval de 2019, escolhido a dedo para encerrar a festa. Como não coube todo mundo no salão, um telão foi instalado ao lado de fora.
Quase 200 anos depois da luta dos caboclos de julho, índios e mestiços que derrotaram as tropas portuguesas em 1823 na Bahia na luta pela Independência, Anielle também exaltou sua “eterna presidenta” Dilma Rousseff, que “foi de aço nos anos de chumbo” ao entoar que, finalmente, “chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”.