ODS 1
Empresas à ‘esquerda’ de Bolsonaro

Na contramão do discurso oficial, empresários investem U$S 85 bilhões em redução das emissões de carbono


Se o aquecimento global é mesmo uma trama marxista, como prega o futuro chanceler brasileiro, embaixador Ernesto Fraga Araújo, uma parte significativa dos empresários brasileiros está envolvida nesse complô da esquerda. Nos últimos três anos, as empresas brasileiras investiram mais de U$S 85 bilhões em 1.340 projetos para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE). As principais ações foram nas áreas de eficiência energética, otimização de processos e na busca por fontes renováveis de energia. Os dados fazem parte de um estudo organizado pelo CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) e apresentado ontem na COP24, que acontece em Katowice, na Polônia.
[g1_quote author_name=”Marina Grossi” author_description=”Presidente do CEBDS” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Temos trabalhado por um Brasil mais sustentável há muito tempo e não vamos mudar agora. Está claro para as empresas que a inovação com foco em uma economia de baixo carbono é uma oportunidade para o país, uma tendência mundial e um diferencial competitivo
[/g1_quote]O mesmo documento mostra que, entre 2015 e 2016, houve uma redução de 33% nas emissões de carbono de empresas como Alcoa, Petrobras, Unilever, Vale, Coca-Cola e Natura. Parte da queda se deve à crise econômica do período, mas houve também mudanças importantes no processo de produção. Mais de 80% das empresas reportaram ter metas para minimizar os GEE, algumas delas já usando até critérios científicos para estabelecer os seus indicadores. O compromisso brasileiro assumido junto ao Acordo de Paris, em 2015, é de reduzir em 37% as emissões nacionais, até 2025, e em 43%, até 2030, tomando como base sempre os níveis registrados em 2005.
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Veja o que já enviamosA presidente do CEBDS, Marina Grossi, acredita que a questão climática continuará sendo uma prioridade para as companhias, seja qual for a posição do novo governo: “Temos trabalhado por um Brasil mais sustentável há muito tempo e não vamos mudar agora. Está claro para as empresas que a inovação com foco em uma economia de baixo carbono é uma oportunidade para o país, uma tendência mundial e um diferencial competitivo. O portfólio de produtos sustentáveis cresce mais do que o de produtos convencionais”.

No final do ano passado, 26 empresas brasileiras já haviam assinado uma carta aberta defendendo a implementação de um mecanismo de precificação de carbono adequado para o Brasil. O que incluiria, entre outras coisas, a adoção de créditos florestais para o replantio de áreas desmatadas da Amazônia e do Cerrado. Um movimento espontâneo que vai na contramão do que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, vem defendendo. Esta semana, em um dos seus pronunciamentos via Facebook, ele disse que o Acordo de Paris “exigiria do Brasil o reflorestamento de uma área enorme, algumas vezes o tamanho do Estado do Rio”. Não é verdade. O Acordo não exige nada. Os compromissos brasileiros são voluntários e foram feitos com base em consultas a vários setores da sociedade, incluindo a indústria e o agronegócio. Além disso, a proposta do Brasil fala em reflorestar 12 milhões de hectares, menos de um terço da área do Rio. Em sua fala, Bolsonaro advertiu: “Vamos sugerir mudanças no Acordo de Paris. Se não mudar, sai fora (sic). Quantos países não assinaram? Por que o Brasil tem que dar uma de politicamente correto?”.
Marina Grossi minimiza essas diferenças. Ela argumenta que o Brasil tem leis robustas, como o Código Florestal, e iniciativas importantes, como o trabalho em busca de uma maior eficiência energética: “Não vamos retroagir. Se as leis forem cumpridas não temos muito o que temer. Estamos sempre abertos ao diálogo. Vamos seguir conversando com o governo, como sempre fizemos, e com a sociedade. Explicando todas as vantagens para o cidadão e para os empresários”.
O problema de Marina e de alguns empresários preocupados com o tema talvez seja mesmo encontrar um interlocutor no próximo governo. O novo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já disse que a discussão sobre o aquecimento global é secundária e inócua, e que pretende priorizar “questões tangíveis de preservação ambiental”. Segundo ele, muitas ações contra o desmatamento são baseadas em achismos e ideologia. O balanço das empresas mostra resultados diferentes.
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Agostinho Vieira
Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.