Distopia climática à vista

Vítimas da crise climática em Bangladesh: novo relatório do IPCC aponta para futuro distópico com clima provocando aumento extremo da desigualdade (Foto: ONU)

Novo relatório do IPCC aponta perdas e danos devastadores, com efeitos desproporcionais para as populações mais pobres e vulneráveis

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 28 de fevereiro de 2022 - 10:28 • Atualizada em 8 de março de 2022 - 09:06

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Vítimas da crise climática em Bangladesh: novo relatório do IPCC aponta para futuro distópico com clima provocando aumento extremo da desigualdade (Foto: ONU)

Vem por aí um mundo distópico do ponto de vista climático e ambiental, além de mais injusto socialmente, dado que os impactos do aquecimento global vão recair sobre os ombros daqueles que menos alimentam a crise climática: as populações mais pobres e vulneráveis. De 2010 a 2020, a mortalidade causada por tempestades, secas ou enchentes foi 15 vezes maior nas regiões vulneráveis do que nas menos vulneráveis. Não bastasse a pandemia e a guerra, que já seria uma combinação absurda, os impactos das mudanças climáticas delineiam um mundo à beira do apocalipse.

E se as emissões de gases de efeito estufa forem reduzidas apenas no ritmo atualmente planejado, o aumento de temperatura resultante ameaçará a produção de alimentos, o abastecimento de água, a saúde humana, os assentamentos costeiros, as economias nacionais e a sobrevivência de grande parte do mundo natural. Cortes mais rápidos de emissões serão a única maneira de evitar tamanha distopia.

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Essas são algumas das conclusões do relatório “Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade” que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) divulgou nessa segunda-feira, dia 28. Finalizado e aprovado por 270 autores e 195 governos, esse sexto relatório, o AR6,  é um calhamaço de 34 mil estudos científicos compilados em 25 capítulos. Cinco pesquisadores brasileiros estiveram envolvidos na sua aprovação, quatro deles como autores líderes de alguns capítulos do relatório e responsáveis pela elaboração do Sumário para os Tomadores de Decisão (SPM).

“Os relatórios do IPCC são como sinos de alarme para a crise climática. Este último relatório é um lembrete sombrio de que nosso fracasso global em reduzir as emissões está levando a impactos devastadores na saúde, econômicos e sociais em todo o mundo”, avaliou Christiana Figueres, co-fundadora da Global Optimism e ex-secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática.  Ela está convencida, no entanto, de que “podemos prevenir e nos proteger de eventos climáticos extremos, fome, problemas de saúde e muito mais, cortando as emissões e investindo em estratégias de adaptação”.  Mas tudo depende da forma como “moldamos o futuro”.

Vítimas da crise climática em Bangladesh: novo relatório do IPCC aponta para futuro distópico com clima provocando aumento extremo da desigualdade (Foto: ONU)

Madeleine Diouf Sarr
Ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Senegal e presidente do grupo dos Países Menos Desenvolvidos (LDCs) nas negociações climáticas da ONU

O IPCC identificou ao longo dos anos, em seus relatórios, cinco “motivos para preocupação” (ou RFC, na sigla em inglês) com a mudança do clima: 1. risco a sistemas únicos (como recifes de coral e povos indígenas), 2. aumento da frequência e severidade de eventos climáticos extremos, 3. desigualdade nos impactos, 4. custo dos impactos e 5. risco de transições abruptas (como a savanização da Amazônia e o derretimento do gelo do oeste antártico, que elevaria os mares em cinco metros). Todos os RFCs no AR6 pioraram, enquanto no documento anterior, o AR5, apenas desses cinco riscos foram identificados como perigosos.

Um dos estudos apresentado no relatório aponta, por exemplo, que de 3,3 bilhões a 3,6 bilhões de pessoas já vivem em locais altamente vulneráveis e ameaçados de extinção – os chamados hotsptos. Países como o Brasil, por exemplo, sofrerão impactos múltiplos, desde o campo até as cidades, caso as emissões de gases de efeito estufa continuem aumentando. Segundo o relatório, as atuais políticas e compromissos de emissões colocam o mundo no rumo certo para um aquecimento de cerca de 2,3 a 2,7°C.

Sinais de alertas

O relatório do IPCC listou riscos de médio e longo prazos, no período de 2040 a 2100. O impacto nos ecossistemas terrestres é um deles: de 3% a 14% das espécies analisadas provavelmente terão risco muito alto de extinção com 1,5ºC de aquecimento, chegando a 18% das espécies com 2ºC, 29% com 3ºC e 39% com 4ºC. O risco de extinção de espécies endêmicas em hotspots de biodiversidade, como o Cerrado e a Mata Atlântica, decuplica com um aquecimento entre 1,ºC e 3ºC.

Os impactos da mudança climática estão ficando cada vez mais complexos e difíceis de administrar, e múltiplos fatores climáticos interagem entre si e com fatores não-climáticos, criando situações de efeito-cascata. Um caso destacado pelo IPCC é o da Amazônia, onde a mudança do clima se soma ao desmatamento e às queimadas para produzir perdas severas e irreversíveis de serviços ecossistêmicos e biodiversidade com 2ºC de aquecimento

Não é de hoje que os cientistas vêm alertando sobre os riscos “intoleráveis e irreversíveis”, incluindo matar pessoas, prejudicar a produção de alimentos, destruir a natureza e reduzir o crescimento econômico. A primeira parte do relatório, divulgada em agosto de 2021, já havia comprovado cientificamente que as mudanças climáticas são reais, causadas pelo homem e estão se intensificando em ritmo acelerado. À época, o relatório do IPCC enfatizou que a temperatura atingirá 1,5ºC até 2030, antecipando em uma década a projeção feita pelos cientistas para 2040.

“Li este relatório com muito medo e tristeza, mas não surpresa. É muito claro para nós que nenhuma quantidade de adaptação pode compensar a falha em limitar o aquecimento a 1,5°C. O relatório confirma o que já estamos vendo e experimentando – a mudança climática está causando perdas e danos devastadores, e afetando desproporcionalmente nossa população vulnerável”, avalia a senegalesa Madeleine Diouf Sarr, presidente do grupo dos Países Menos Desenvolvidos (LDCs) nas negociações climáticas da ONU.

A grande mensagem do Grupo 2 do IPCC neste relatório é que a mudança climática é um brutal agravador de desigualdades e um perpetuador de pobreza

Stela Herschmann
Especialista em Política Climática do Observatório do Clima

Um dos estudos do atual relatório apontou que se as emissões forem reduzidas apenas ao ritmo que os governos atualmente planejam, grande parte da região amazônica experimentará temperaturas de 32°C de um a 12 dias por ano. Se as emissões forem altas, a maior parte do Brasil experimentará temperaturas de 32°C por pelo menos um dia por ano, com algumas partes do Norte e do Centro-Oeste do país sujeitas a estas condições perigosas por até 30 dias por ano – e algumas partes do Nordeste atingindo valores fatais de 35°C.

O risco de dengue aumentará, com períodos de transmissão mais longos no ano e maior disseminação do mosquito, deixando bilhões de pessoas expostas na Ásia, Europa, América Latina e África ao sul do Saara. Transtornos mentais como ansiedade e estresse também devem aumentar em todas as regiões, em especial entre crianças, adolescentes e idosos.

Representantes do movimento negro brasileiro protestam na COP26 contra o racismo ambiental. (Foto: Arquivo pessoal)

Injustiça climática

“A população mais pobre e mais vulnerável tem cor, gênero, idade… são os negros, as mulheres, os idosos e crianças”, comentou Patrícia Pinho, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (IPAM), autora líder do capítulo “Pobreza, meios de vida e desenvolvimento sustentável”. Adaptar-se às mudanças climáticas, defendeu, não é mais uma opção: “Passou a ser uma obrigação”. Do contrário, países tropicais, como o Brasil, serão impactados por custos sociais de dimensões dramáticas – a tragédia de Petrópolis é, em parte, um exemplo recente e bem-acabado desses impactos.

Países como os Estados Unidos, que ocupam o primeiro lugar no ranking mundial de poluição e são responsáveis por 20% das emissões globais, têm muito mais condições de absorver os impactos das perdas econômicas provocadas pelas mudanças climáticas do que, por exemplo, os estados da Amazônia. “O PIB municipal de uma região como a Amazônia, que tem uma população pobre e vulnerável, não tem condições de ressarcir, pelas próximas gerações, o dano material provocado, por exemplo, por uma enchente ou uma seca extrema”, avalia Patrícia. O bioma contribuiu pouco, ou quase nada, com o aquecimento global, e ainda exerce um papel fundamental como sumidouro dos gases de efeito estufa.

“A grande mensagem do Grupo 2 do IPCC neste relatório é que a mudança climática é um brutal agravador de desigualdades e um perpetuador de pobreza”, afirma Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima. “A justiça climática precisa entrar na ordem do dia, e esse relatório é a demonstração mais cabal já feita de que já estamos vivendo um contexto de injustiça climática, onde os impactos adversos de eventos climáticos extremos variam por diferenças na exposição e vulnerabilidade, com regiões como a África e a América Latina sendo desproporcionalmente afetadas.”

Na avaliação de Stela, o tema tende a pegar fogo no fim do ano no balneário egípcio de Sharm el-Sheihk, onde ocorrerá a COP27, a Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU. A COP ficou de discutir um tema fundamental, o financiamento a perdas e danos decorrentes de impactos climáticos aos quais já não cabe adaptação.

Crianças se refrescam em fonte de Colmar, no leste da França, em dia de calor de 40 graus no verão francês: Europa teve ano mais quente da história (Foto: Sebastien Bozon)

Se o relatório do IPCC divulgado em 2014 havia ido cauteloso quanto à medida em que as mudanças climáticas estavam afetando as sociedades humanas; o novo relatório os cientistas deixam claro que o aquecimento causado pelo homem vem de fato prejudicando as sociedades humanas há décadas. As pessoas nas cidades também serão afetadas por ondas de calor mais fortes. As mortes por calor no Brasil poderão aumentar 3% até 2050 e 8% até 2090. Caso as emissões de gases de efeito estufa venham a ser controladas, esse aumento pode ser reduzido para 2%.

Financiamento

O relatório chamou a atenção para o fato de a escassez de financiamento internacional para adaptação ser um fator importante e que está impedindo os países em todo o mundo de se adaptarem às mudanças climáticas. Embora o financiamento climático global tenha aumentado nos últimos anos, os cientistas consideram que os valores ainda não são suficientes para atender às necessidades de adaptação dos países mais pobres.

“Os países ricos prometeram fornecer US$ 100 bilhões por ano aos países em desenvolvimento até 2020, tanto para reduzir as emissões quanto para se adaptar às mudanças climáticas – mas esta meta não foi atingida e a maioria tem se direcionado à redução das emissões. Os países em desenvolvimento precisarão de muito mais do que isso para se adaptarem à mudança climática nas próximas décadas”, destaca o documento. E conclui afirmando que “é mais provável que a adaptação seja eficaz quando prioriza a equidade e a justiça”.

A aprovação do relatório consumiu duas semanas, de 14 a 26 de fevereiro, e todas as sessões plenárias foram virtuais. O IPCC não produz ciências – ele compila estudos científicos produzidos internacionalmente por mudanças climáticas. A primeira minuta do relatório teve 16.348 comentários de revisão, a segunda minuta recebeu 40.293 comentários de revisão, e a distribuição final do governo do Resumo para Formuladores de Políticas recebeu 5.777 comentários. Mais de 34.000 artigos científicos são referenciados no relatório.

A terceira parte do relatório sairá em abril e será sobre soluções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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