Recentemente, celebramos o ineditismo de que, pela primeira vez na história do Brasil, o Censo 2022 vai contabilizar a população quilombola. Longe dessa notícia, que dias atrás foi manchete digital de diversos portais brasileiros, ser um mérito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fico me perguntando sobre as cicatrizes geracionais da invisibilidade das histórias, dados e lutas dos quilombos em todo o território brasileiro. Comunicação é poder!
Estudei Jornalismo em uma das melhores escolas de comunicação do país, a PUC-Rio. Tive incontáveis aulas obrigatórias e opcionais sobre a estética da comunicação, por exemplo. E algo que era bastante repetitivo em sala era o lema que afirma que a “comunicação é poder”. No entanto, quando afirmamos isso, é preciso ir além de jargões e frases de efeito. Nesse percurso provocativo, é bem possível que encontremos mais perguntas do que respostas que confrontam tal sentença. Poder para quem? Para quê? A custo de quantos e quantas? De que tipo de comunicação estamos falando?
Foram essas mesmas interrogativas que guiaram uma aula que dei poucos meses atrás sobre comunicação climática, ao lado do jornalista Pedro Borges, do Alma Preta Jornalismo. A formação intitulada Racismo Ambiental e Emergência Climática foi uma iniciativa do Instituto Peregum, que formou e utilizou dezenas de lideranças do movimento negro sobre o tema. Foram duas aulas, e novamente saí com a certeza de que aprendo muito mais do que contribuo em espaços como aqueles.

Dito isso, podemos retornar às respostas. Para encontrá-las, antes de mais nada, precisamos de um profundo diagnóstico prático e teórico da comunicação climática. Na formação, vimos que ele pode ser destrinchado em três grandes eixos: 1) linguagem; 2) porta-vozes; e 3) lugar de fala e de escuta das populações que, de forma extremamente desigual, são afetadas pela crise climática.
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Veja o que já enviamosLinguagem também é poder, pois é ela quem nos abre caminhos para compreender os problemas e soluções da emergência climática. Ela é capaz de levar leitores/as, ouvintes, espectadores/as, colaboradores/as e tomadores/as de decisão à ação política. Uma linguagem acessível é a chave para que mais pessoas, famílias e comunidades estejam conscientes de onde estamos em relação à mudança do clima no nível local, regional, nacional e global. Nomear conceitos de forma tecnicista ameaça a legitimidade de experiências e vivências territoriais que estão longe de serem reduzidas à citações acadêmicas.
Existe um fio narrativo de que a crise climática pode se tornar irreversível na próxima década, porque é uma verdade científica e com muitas consequências para todos e todas nós. Contudo, falar de gênero, raça, classe e geração ainda não entra nessas manchetes que mais viralizam, porque ainda há uma invisibilização dessa informação, dessa construção narrativa e desse conhecimento.
Nesse sentido, quem são nossos principais porta-vozes no Brasil hoje? Eles detém o poder de influenciar a formação de opiniões, o imaginário dos cenários da crise climática e de prover dados, evidências e exemplificações que contemplem os múltiplos desafios sociais, raciais, de gênero e classe no Brasil. Vale sempre lembrar que, sim, valorizamos e reconhecemos o valor da contribuição da comunidade científica, mas há uma contradição se ela seguir majoritariamente branca, masculina, de meia-idade e heteressosexual, por exemplo. Tais interlocutores sempre terão lacunas em seus olhares, análises e recortes dos muitos Brasis que existem no Brasil. Portanto, seja pela imprensa ou para produção de conhecimentos e saberes, a escolha de porta-vozes pode ser fatal.
Por fim, a compreensão não-rasa do que é lugar de fala e de escuta é o cerne da disputa de narrativas. Uma vez que posicionamos as contribuições de quem está na linha de frente da crise climática – seja na atuação, sobrevivência ou enfrentamento direto -, comunicamos com força e legitimidade os desafios atuais. Um dos pontos mais marcantes da formação foi, a partir de um exercício reflexivo, ouvir de algumas lideranças quais títulos de manchetes elas gostariam de ler sobre suas realidades e quais as fariam se sentirem verdadeiramente representadas. Eis alguns exemplos:
1- Área de risco tem cor?
2- Cadê as 72 etnias nas terras das maravilhas? O racismo ambiental comeu
3- Quilombolas denunciam: “até quando só seremos pauta de desastre? ”
4- Qual ambiente sobra para os povos tradicionais e para os povos periféricos?
5- Quilombolas querem voz! Já nos calaram por muito tempo.
6- Economia verde. Como medir em líquidos de emissão?
Por mais comunicadores e comunicadoras negras, quilombolas, indígenas, favelados, periféricos, portadores de deficiência, LGBTQI+ e pertencentes a tantas outras interseccionalidades para exercerem seus poderes de comunicar ações e desafiar as soluções climáticas do tempo presente. Por mais vozes plurais para pautar o jornalismo e a mídia tradicional. Que os nossos corpos ocupem posições de especialistas em questões que são tão inegociáveis para nós, e não de vítimas afetadas por desastres e tragédias ambientais. Talvez em 2022 ainda não possível, mas sejamos otimistas: #forabolsonaro em 2023 para, enfim, escrevermos um novo capítulo na política climática no Brasil.