As viagens de Jeff Bezos e a crise climática

Jeff Bezos, de chapéu, e a tripulação do New Shepard, da Blue Origin, dão uma entrevista coletiva após voar para o espaço no Blue Origin New Shepard em 20 de julho de 2021, em Van Horn, no Texas. Foto Joe Raedle/Getty Images/AFP

Enquanto a Europa sofre com as enchentes, a África padece com o aumento da fome e a Califórnia arde em chamas, bilionários brincam de deuses e astronautas

Por Agostinho Vieira | ODS 13ODS 9 • Publicada em 21 de julho de 2021 - 14:35 • Atualizada em 27 de julho de 2021 - 12:35

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Jeff Bezos, de chapéu, e a tripulação do New Shepard, da Blue Origin, dão uma entrevista coletiva após voar para o espaço no Blue Origin New Shepard em 20 de julho de 2021, em Van Horn, no Texas. Foto Joe Raedle/Getty Images/AFP

Como já disse Elton John, no clássico Rocket Man, “Marte não é o melhor lugar para criar os seus filhos”. Então, por que diabos todos os noticiários do mundo seguem dando destaque para essa batalha entre três velhos bilionários para saber quem tem o pênis maior. Sim, porque no fundo é disso que se trata. Richard Branson, dono da Virgin Galactic, chegou primeiro, voou antes. Jeff Bezos, dono da Amazon, voou mais alto. Enquanto o sul-africano Elon Musk investe mais e sonha em colonizar Marte. A que preço? Esse mercado de viagens espaciais comerciais, exploração privada de outros planetas e missões de colonização gira em torno de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão), mas o custo ambiental e climático pode ser muito maior.

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Bezos tem se vangloriado de que os seus foguetes Blue Origin são mais verdes do que a unidade VSS de Branson. O Blue Engine 3 (BE-3) que, na terça-feira (20 de julho), lançou o empresário, seu irmão e dois convidados ao espaço, usou propelentes de hidrogênio líquido e oxigênio líquido. O voo de Branson usou um composto de combustível sólido à base de carbono, polibutadieno e um oxidante líquido.  Já o SpaceX Falcon, de Elon Musk, usa querosene líquido e oxigênio líquido. Se você, assim como eu, não entende nada de combustíveis, basta saber que a queima de todos esses propelentes e afins gera gases de efeito estufa e poluentes atmosféricos. Muito? Entre 50 e 100 vezes mais, por passageiro, do que um voo entre Paris e Nova York, por exemplo. Vale frisar que só a Virgin Galactic ameaça oferecer 400 voos anuais para os poucos privilegiados que podem pagar US$ 250 mil por cada passagem.

Mas tão grave quanto a vaidade embutida nesse conflito fálico entre velhos empresários e os seus consequentes impactos ambientais é a absoluta falta de senso crítico, senso de oportunidade ou mesmo de bom-senso. Em sua conta no Twitter, Elon Musk, fundador da Tesla disse: “Aqueles que atacam o espaço, talvez não percebam que ele pode representar a esperança para tantas pessoas”. Pode? Para quantas pessoas?

Em 2019, durante um discurso para anunciar a sonda lunar da Blue Origin, Jeff Bezos foi ainda mais direto: “Podemos ter trilhões de humanos no sistema solar, incluindo milhares de Mozats e Einsteins”. Quem vai querer conviver com trilhões de humanos? Já não basta a bagunça que fizemos e fazemos na Terra? Em seu pronunciamento, Bezos passou rapidamente por questões cruciais como pobreza, fome, falta de moradia, poluição e pesca excessiva. Resumiu tudo na expressão: “problemas imediatos urgentes”. Em seguida falou sobre o que seria, para ele, a verdadeira crise enfrentada pela humanidade:

“Um problema fundamental e de longo alcance é que não teremos mais energia na Terra. Não queremos parar de utilizar energia, mas ela é insustentável. A única forma de evitar cobrir toda a superfície da Terra com células solares é explorar além do nosso planeta natal. Se nos mudarmos para outras partes do sistema solar, teremos recursos ilimitados”

O empresário britânico Richard Branson flutuando em gravidade zero em sua espaçonave UNITY22 no domingo, 11 de julho de 2021. Foto EyePress News via AFP

Em resumo, no sonho futurista de Jeff Bezos, a Terra seria uma espécie de condomínio residencial, com algumas poucas indústrias leves. Já a indústria pesada e poluente seria levada para o espaço, que viraria uma versão da China nos seus piores momentos. Nosso lixo jogado fora, literalmente. Segundo Bezos, tudo isso para “garantir um futuro de dinamismo e crescimento”. Vale registrar que nestes quase dois anos de pandemia e quarentena, Bezos e Musk se revezaram na lista dos mais ricos da Forbes. A riqueza de Bezos praticamente dobrou.

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Em artigo no site “The Conversation”, o matemático e filósofo inglês Tim Jackson explica que a “retórica espacial dos super ricos mostra uma mentalidade antiga, que alguns diriam ser uma característica fundamental do capitalismo. A viagem espacial seria uma extensão natural da nossa obsessão com o crescimento econômico”. O problema é que o crescimento a qualquer custo e a riqueza obscena para uns poucos talvez não seja mais tão primordial, especialmente no mundo pós-covid-19. Segue Tim Jackson: “Pergunte às pessoas o que é mais importante em suas vidas. Dificilmente teremos uma lista diferente desta: “saúde para si próprios, saúde para os amigos e familiares e saúde também – às vezes – para o frágil planeta em que vivemos e de cuja saúde dependemos muito”.

Neste mesmo momento em que Bezos, Musk e Branson batalham para superar a “fronteira final”, a Europa sofre com enchentes que antes pareciam afetar apenas as nações pobres; A Califórnia volta a enfrentar grandes incêndios que expulsam moradores de suas casas; e a África bate novos recordes de fome. Três regiões diferentes do planeta vítimas de um mesmo mal: o descontrole climático.

Quando a vida e a saúde estão em jogo, a luta insana por riqueza e poder talvez pareça um pouco menos charmosa. A família, o convívio saudável com os amigos e um certo senso de propósito ganham mais relevância. Lições da pandemia, sem dúvida. Mas itens que sempre foram fundamentais para uma prosperidade verdadeiramente sustentável. Já passou da hora de substituir o consumismo frenético por uma economia de cuidado, relacionamento e significado.

Para pensar:

“Estamos sendo persuadidos a gastar o dinheiro que não temos, em coisas que não precisamos, para criar impressões que não duram, em pessoas que não nos importam”

Tim Jackson, matemático e filósofo inglês

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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