Foi no começo do ano que rodou pelas redes sociais um desafio carioca com 75 programas na cidade: na minha checagem, faltavam nove. Alguns jamais farei como a trilha do Pedra do Telégrafo e saltar de asa delta ou parapente; recoloquei outros na agenda. E precisei da internet para descobri o que era “a batata de Marechal”, que deve ter conquistado fama durante minha temporada em Salvador. Nunca tinha ouvido falar, mas, vim a constatar, muita gente recomendava. E fica ao lado da estação de trem: este #RioéRua adora um trilho. O programa subiu logo para o topo da minha lista.
Mas demorou um pouco porque as batatas só estão disponíveis depois das 16h e é preciso abrir espaço na agenda para pegar o trem do ramal Deodoro em plena tarde. Enquanto isso, vasculhei a memória e depois as estantes para descobrir em que livro de Machado de Assis tem a frase “ao vencedor, as batatas”. Já não me lembrava do contexto mas sabia que a frase existia – ouvi ser usada em situações diversas – e que era do nosso escritor maior. Não foi difícil localizar as batatas em Quincas Borba, filósofo personagem que empresta, em parceria com um cachorro, o nome ao livro. “Aos vencidos, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”, conclui Quincas Borba ao expor parte de sua teoria filosófica ao amigo Rubião, este sim o protagonista do romance.

As batatas machadianas não têm qualquer relação com o Rio de Janeiro apesar de Quincas Borba ser um dos romances mais cariocas do escritor. Rubião vai morar numa casa com vista para a enseada de Botafogo, janta com amigos em Santa Teresa, circula pelo Centro: Largo de São Francisco, Praça da Constituição, Rua do Cano, Rua do Ourives, Rua do Ajuda, Rua do Alfândega, e, claro, Rua do Ouvidor. E visita um amigo doente em Praia Formosa – que, sim, já foi uma praia e não apenas a estação final do VLT. Neste dia, volta caminhando: passa pelo Saco do Alferes – pequena enseada que sumiu como a Praia Formosa -, pela Gamboa e pela Saúde até chegar a Praça da Harmonia onde a trama machadiana retoma seu rumo após esse flanar pelo que ainda viria ser a Zona Portuária.
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Veja o que já enviamosMas também essa crônica precisa retomar seu rumo em direção às batatas de Marechal Hermes, bairro batizado com o nome do presidente que o idealizou para ser um bairro proletário. Marechal Hermes tem data de inauguração: 1º de maio de 1913, quando também foi inaugurada a estação de trem. O bairro planejado não deu muito certo: das 1350 casas projetadas, nem 200 ficaram prontas. Mas a região cresceu de qualquer forma, impulsionada pela ferrovia: a estação de Marechal Hermes conserva, mais de um século depois, suas características históricas e está mais bem cuidada do que a média das estações dos subúrbios cariocas. Foi a antiga estação que ajudou Marechal a ganhar a primeira APAC (Área de Proteção do Ambiente Cultural) da Zona Norte, para preservar imóveis em seis ruas próximas à ferrovia, em torno da Avenida Marechal Cordeiro de Frias que liga Praça Montese, a praça da estação, à Praça Quinze de Novembro.
Este trecho é a parte mais movimentada do bairro e, ali, colado no muro da linha do trem, fica o ADM Lanches, nome oficial da barraca que vende a tradicional e famosa Batata de Marechal. É um exagero de batata frita; a porção mais simples – só batata e e fatias de linguiça calabresa, por R$ 10 – mata fome de pelo menos dois. Sou guloso mas não dei conta de uma sozinho. O mineiro Ademar Moreira, dono do estabelecimento, pega uma quentinha de alumínio, coloca no saco plástico e vai colocando batata frita. A maior porção – a R$ 30, a mais simples, ou R$ 40 se tiver, além da calabresa, frango e bacon – deve ter mais de dois quilos de batata. Ademar não economiza nas porções: de tarde, são turmas de alunos das escolas da região atrás das batatas; à noite, o pessoal compra cerveja e fica beliscando nas mesas colocadas ao longo do muro da ferrovia.
Os moradores garantem que este canto de Marechal Hermes é o único do bairro que tem realmente vida noturna – a batata de Marechal e outras barracas ficam abertas até o começo da madrugada. O sucesso de Ademar e as batatas do ADM ajudaram a concorrência com a abertura de pontos de vendas de hamburguer, cachorro-quente, salgados árabes e até outras barracas de batata frita. Mas o resto desta parte central do bairro ainda tem muitas árvores, casas e prédios baixos e um clima de subúrbio – apesar de os moradores reclamarem da falta de segurança e de atenção do poder público. Mas ninguém se queixa das batatas que hoje ajudam o bairro idealizado pelo Marechal Hermes da Fonseca a ganhar destaque no mapa da cidade.
#RioéRua