A solução é a felicidade

Acima de ideologias e governos, a verdadeira revolução virá da alegria e da convivência – analógica – entre os humanos

Por Aydano André Motta | ODS 11ODS 16 • Publicada em 3 de abril de 2025 - 13:34 • Atualizada em 3 de abril de 2025 - 17:15

Carnaval de rua no Rio de Janeiro: não há revolução mais potente do que a da alegria (Foto: Gustavo Stephan / Riotur)

‘Inda pago pra ver

O jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar

Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

Que esse dia há de vir

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“Apesar de você” (Chico Buarque)

Ah, pronto: o colunista – até ele – vai abandonar o maltratado jornalismo para virar coach. Com esse título aí, só pode ser… Calma, Brasil! Aqui, a felicidade funciona como ato político, o caminho para salvar o Brasil do conservadorismo mais tacanho. A alegria, o sorriso, a fraternidade, o carinho, a harmonia pavimentam a empatia fundamental ao convívio humano. Tudo se encaixa na direção correta.

Leu essa? Contra a miséria, festa

O inverso nefasto mora na desesperança, na tristeza, no rancor, na solidão, que se misturam na poderosa fórmula do ódio, semente de todos os outros problemas. Da erva daninha, brotam o preconceito, a intolerância, o apego à violência, o isolamento, a impaciência, o vício no conflito. Desemboca na sociedade explosiva dos nossos dias.

No fundo, é simples. Os humanos fomos concebidos para a interação. Andamos, por conceito, em bando. Aproximamo-nos um dos outros por proteção, afinidade, amizade, paixão, amor. Assim, precisamos montar o ambiente de convergência que garantirá o entendimento – e a paz.

Antes que, além de virar coach ou pastor, o colunista seja chamado de alienado e delirante, ocorre hoje o contrário do cenário virtuoso, cada vez mais inviável. De novo, bem simples. A direita global entendeu que, ao espalhar a ira, prospera como escolha política. Quando assustadas, as pessoas se defendem com o isolamento. Há, até, exemplos físicos: grades, trancas, blindagens, guaritas, seguranças, câmeras, bloqueios. Um lado e outro se encaram como inimigos.

Festa: a intolerância e o ódio não resistem à alegria. Foto Joe Ciciarelli/Unsplash

Dá para entender no visual. Repare nos rostos da turma de direita. Estão sempre carrancudos, a raiva congelando a fisionomia, envenenando o olhar, inviabilizando o diálogo, matando o sorriso. Só mostram os dentes para zombar do diferente, menosprezar o outro, debochar do entendimento. Detestam Carnaval, festas de qualquer tipo. Alegria é veneno para esses bichos. A vida que eles pregam está assentada no arbítrio, no conflito, na guerra, na morte. Fim.

Jamais por acaso, as grandes corporações deste tempo sabotam a convivência positiva, para afastar entendimentos e parcerias. Empurram para a solidão das telas, a estranheza das redes, o vício do consumo. Bets, twitters, ubers, ifoods, tudo ao alcance dos dedos e mentes, longe do mundo real. Equipamentos e plataformas pensados para isolar, cevar a ira, matar o bom humor.

Ouvidos solitários são mais vulneráveis a fake news mensagens de soluções fáceis que, inviáveis, levam à frustração e a mais raiva. Pense na arapuca do transporte por aplicativo: para tentar fazer a conta fechar, os motoristas passam 12, 15, 18 horas por dia ao volante, toureando o tráfego selvagem de nossas metrópoles. Como companhia, no máximo o rádio, que, a depender da estação, acaba de estragar tudo.

O mundo do trabalho está envenenado, formando pensamentos tortos, crenças bizarras, flertes com radicalismos. A escravidão contemporânea dos serviços atrelados à tecnologia, falsamente vendida como empreendedorismo, vira terreno fértil para a intolerância vicejar. Muitos entregadores do comércio eletrônico – amazons, mercados livres, shopees, temus etc – escolhem horários alternativos para transportar as encomendas, tentando fugir do trânsito e economizar tempo e combustível. Pagam preço alto, ao sacrificar noites e domingos em nome do trabalho, e ainda são recebidos com má vontade pelos clientes. Não parece haver saída.

Mas tem sim. Políticas públicas e setor produtivo e sociedade em geral precisam apostar no aumento da oferta de alegria. No conceito anticapitalista de vida melhor, onde a riqueza está nas experiências e não no acúmulo unilateral de bens. Menos dinheiro e mais brincadeira. Medidas como o fim da jornada 6×1, a tarifa zero no transporte público, a busca pelo bem estar no trabalho e a democratização do ócio criativo ajudarão a quebrar o gelo – e a extrema-direita derreterá em praça pública.

O mundo se meteu nesse buraco (cavado especialmente pelo capitalismo e suas incontáveis mazelas) e, para sair, precisa dar meia-volta. Não há solução possível no individualismo; dele, só sairá fel. A verdadeira revolução virá com a felicidade.

Como se diz hoje em dia, pega a visão.

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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