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Trump – ou as naturalizações que nos atiram ao precipício

Normalizar governantes como o presidente dos EUA põe o mundo em grave risco; contra a barbárie, precisa radicalismo

ODS 16 • Publicada em 10 de janeiro de 2026 - 01:06 • Atualizada em 10 de janeiro de 2026 - 12:19

O ditador da Venezuela, Nicolas Maduro, durante o sequestro por tropas americanas, em plena madrugada de Caracas: brutal atentado à soberania. Reprodução do Twitter

Começa tudo muito pitoresco, totalmente peculiar, algo risível, bastante patético, merecedor do mais contundente menosprezo. O personagem, desimportante a olho nu, se assemelha a uma caricatura mal desenhada, a vomitar diatribes histéricas para qualquer microfone. A bizarrice, claro, rende audiência o que, em tempos descerebrados (e pouco éticos), é o objetivo. A criatura mora na terra das bizarrices – até, naturalizada, saltar para a vida real.

Leu essa? Direitos humanos até para Bolsonaro

Quem é?

a. Jair Bolsonaro
b. Donald Trump
c. Todas as respostas acima

Entre as muitas mazelas que cercam a ascensão de protagonistas da extrema-direita mundo afora, a naturalização tem importância decisiva. A tolerância com atitudes horrendas e declarações públicas repulsivas funcionou como palanque e combustível potentes. O que parecia humor de baixa qualidade transmutou-se em oração nos ouvidos convenientes. Agora, o mundo paga o pato – e o Brasil se vira para evitar nova tragédia, sem sequer ter se recuperado por completo da primeira.

E a mídia tem muita culpa nessa história. O IMDb, bíblia digital da produção audiovisual, lista a participação de Trump como ator em 38 produções de cinema e TV, entre 1989 e 2024. De “Days of Our Lives” (novela icônica) a “Esqueceram de mim 2”; de “Um maluco no pedaço” a “Sex and the City”; de “Zoolander” a “Amor à segunda vista”; de propagandas da redes de junk food Domino’s e McDonald’s a “O homem elétrico”. E, claro, a série “O aprendiz”.

O chefe da quadrilha que sequestrou Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores em Caracas está catalogado, ainda, como produtor-executivo (também conhecido como “o cara do dinheiro”) em 21 programas – além do reality famoso pela frase “Você está demitido!”, vários concursos de miss e umas opacas séries televisivas. A figura ridícula do louro fake, gravata excessivamente comprida e fisionomia sempre carrancuda sedimentou-se como ícone de sucesso na sociedade que se mede exclusivamente pela quantidade de dinheiro.

(Processo perturbadoramente semelhante ao que alçou Jair Bolsonaro ao poder. Programas especializados em subcelebridades ou de um pretenso “jornalismo criativo” lambuzaram-se nos impropérios cuspidos pelo capitão ao longo de vários anos. Aquele deputado estúpido, de trajetória política minúscula, ganhou palanques generosos para espalhar sua oratória e, assim, turbinar a própria relevância. Após a desgraça consumada, só há registro de uma autocrítica dos responsáveis. Todos os outros seguem de cara lavada, como se não fosse com eles.)

Donald Trump, entre seus secretários de Relações Exteriores, Marco Rubio e da Guerra, Pete Hegseth, na Casa Branca e 2026 começa com Estados Unidos invadindo a Venezuela: que ano é hoje? (Foto: Daniel Torok / White House – 27/12/2025)

Até o dia em que Trump deu o salto para a política – e virou presidente dos Estados Unidos. Passou a comandar a maior economia da Terra, o segundo maior poluidor do planeta e o maior complexo militar entre todos os países. Tudo na mão de um desvairado, cercado de negacionistas, terraplanistas e fanáticos, numa estrutura de poder totalmente atravessada por conflitos de interesses dos mais constrangedores.

Desemboca no absoluto desprezo por valores como democracia, multilateralismo, autodeterminação dos povos, soberania dos países, direito internacional e muitos outros etceteras civilizatórios. Trump se move com obscena transparência, sem meneios verbais nem meias palavras comuns na geopolítica. Seus cúmplices invadiram a Venezuela e sequestraram o casal presidencial para viabilizar o assalto à maior reserva mundial de petróleo. Assumido, de cara limpa.

Aqui, também precisa ser desnaturalizada instituição longeva na bandalheira transnacional: a CIA. A tal Central de Inteligência estadunidense na verdade é uma milícia glamourizada maciçamente por Hollywood, com seus agentes inoxidáveis e sua pretensa defesa do “mundo livre”. Há generosa filmografia a respeito (maior do que a de Donald). Na vida real, a CIA mata muito, invade países, patrocina conspirações, derruba governantes eleitos e instala capachos dos EUA no lugar, em nome de interesses normalmente econômicos – em suma, sugar riquezas naturais ou assumir posições estratégicas naquelas regiões.

Uma semana depois do sequestro, a naturalização impôs-se novamente. A indignação se esvaiu num átimo e passou-se a tratar a iniquidade perpetrada na Venezuela como algo administrativo. As exceções confirmam a regra. O incansável Jon Stewart, por exemplo, destacou a ausência de pudor do mandatário ianque. Ao longo da história, atrocidades como as bombas de Hiroshima e Nagazaki, a guerra do Vietnã, as invasões de Iraque e Afeganistão, o bloqueio econômico a Cuba tiveram a companhia de pretextos nobres – a democracia, na maioria dos casos. Agora? “Queremos o petróleo”, assume Trump, provando que o constrangimento saiu de moda.

E a sanha não dá sinais de estancar. Renee Nicole Good, 37 anos, mãe de três crianças, poetisa e, sobretudo, cidadã americana, foi fuzilada por um agente da patrulha anti-imigração de Trump enquanto dirigia seu carro por uma avenida de Minneapolis. Diante da barbárie, o presidente falseou que o assassino agiu em “legítima defesa” contra a jovem senhora.

Na mesma semana, o inquilino da Casa Branca ameaçou o governo da Colômbia – que nem petróleo tem, é só porque o presidente, Gustavo Petro, está entre os poucos progressistas da América Latina – e avisou que em breve anexará a Groenlândia, “de um jeito fácil ou difícil”. Inventa que a região precisa ser tratada como “prioridade de segurança nacional”. Balela. Os motivos são os de sempre. A ilha permanentemente coberta de neve e gelo guarda abundantes jazidas de zinco, chumbo, minério de ferro, carvão, molibdênio, ouro, platina e urânio. Estima-se ainda uma reserva de 50 bilhões de barris de petróleo.

Como se diz hoje em dia, não vai prestar. Quando tal manobra se materializar, o multilateralismo terá novo desafio, este entre os ricos do mundo. A Groenlândia é um território autônomo do Reino da Dinamarca que, como os EUA, integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. Reza o artigo 5 do estatuto da aliança que qualquer ataque a um integrante do grupo representa agressão a todas as nações participantes do pacto. Assim, os EUA teria que sofrer retaliações. Alerta de #richpeopleproblem

Não dá para enxergar até onde vai o pesadelo Donald Trump. As ações dele deveriam servir de lição para se votar racionalmente, medindo todas as consequências dos valores, convicções e propostas dos candidatos. Mas as pessoas, no Brasil, nos EUA e em toda parte, seguem tratando as eleições com o fígado. Para ajudar os votantes, não dá mais para tratar com naturalidade figuras como Trump, Bolsonaro e seus congêneres. Contra a barbárie, só o radicalismo.

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