
Posto de Gasolina, Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro. Manhã extenuante de verão. A motorista chega e estaciona. O frentista de meia idade, óculos ‘fundo de garrafa’, vem mancando em direção a ela, suando em bicas.
– Bom dia, madame, vai abastecer? – pergunta, polidamente.
– Bom dia. Sim, por favor, pode completar com gasolina comum.
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Veja o que já enviamosO tempo anda seco, sem chuva. Até onde eu moro o pessoal tá economizando, porque lá falta mesmo. É uma piscininha de plástico pras crianças, no dia de domingo, e olhe lá.
[/g1_quote]– Alguma coisa a mais?
– Calibrar os pneus. E colocar água para limpar os vidros, por favor.
– Pois não.
Ele sai mancando, pesadamente, como se uma das pernas não funcionasse. Incomodada, a ‘madame’ sai do carro.
– Desculpe, mas o que houve com a sua perna? – pergunta, penalizada.
– Ah, isso aqui tá feio, madame. Tá cartilagem no osso. Só botando prótese.
– Verdade? E quando vai ser isso?
– Só Jesus. Tô na fila de dois hospitais. Num deles, sou o número 500 e poucos. Deve sair mais rápido no Hospital de Ipanema.
– Mais rápido, quando?
– Só Jesus…
– Puxa… E o senhor tá aguentando trabalhar assim?
– A gente dá um jeito, né?
Enquanto abastece, ele volta à conversa.
– A senhora sabe que, mesmo assim, eu danço um forrozinho?
– Verdade? Como o senhor consegue?
– Ah, a gente dá um jeito. A senhora gosta de forró?
– Gosto, mas não costumo dançar.
– Tem que ir na Feira de São Cristóvão. No sábado. Melhor dia. Encontra o Nordeste lá. Come de tudo.
– Ih, mas eu tô de dieta…
– Desgasta tudo lá mesmo.
– No forró?
– É. Mas tem que ser no dia de sábado. Não tem coisa melhor.
– Não deixa a gasolina transbordar, tá, senhor…?
– Nílson. Mas não precisa me chamar de senhor. Só Nílson.
– Ué, mas o senhor tá me chamando de madame o tempo todo.
– Mas eu sou empregado.
– Eu também sou. De vários patrões. Trabalho por conta própria.
– É que tem gente que não gosta que a gente trate pelo nome, sabe?
– Gosta de ser chamada de doutor, de doutora, né?
– Hehehe… O tanque tá cheio. Quanto vai na calibragem?
Ele arrasta a perna até o calibrador, com dificuldade, e volta com a mangueira de borracha na mão. Madame não se contém.
– Será que vai dar para o senhor calibrar?
– Dá sim, madame. Sabe que já tomei tudo quanto é remédio, né? Outro dia um cliente me disse pra comprar um remédio que vende nos Estados Unidos.
– Hã?
– Ele falou como se fosse logo ali, em Nova Iguaçu – diz, rindo. – A senhora vai precisar de óleo?
– Não! Sempre me oferecem óleo. Será que tenho cara de madame sem noção?
– Não, que isso! A senhora é muito simpática.
– Obrigada.
– Gostei da escova – diz ele, enquanto calibra um pneu.
– Hã?
– Gostei da escova!
– Como?
– Tá bonito.
– Escova? No cabelo? – replica ela, em dúvida.
– É, ficou bom.
– Mas o senhor sabe que eu não fiz escova?
– Verdade?
– Verdade. Sequei com a mão mesmo.
– Mas, olha, ficou muito bom.
– E o cabelo tá precisando de um corte.
– Mas tá bonito – arremata ele.
– Obrigada!
Ele termina a calibragem do último pneu e tenta empinar o corpo, a duras penas, para pegar a máquina de pagamento.
– No crédito, por favor. Será que dá para o senhor jogar uma aguinha no vidro?
– Dá, sim, mas…
– Ah, não, a mangueira é pesada.
– Quando a cliente pede assim, com jeito, a gente faz.
– É? Como, assim?
– Tem gente que quer lavar o carro todo e às vezes não dá, sabe?
– Mas, lavar o carro todo, aqui, na bomba?
– O dono diz que o atendimento tem que ser pra gasolina, calibragem, essas coisas – diz ele, devolvendo o cartão.
– E a água? Ele controla?
– Ele até que já falou, mas… hehe.
– O que foi?
– É que teve um dia que um cliente antigo me pediu, comecei a lavar o carro dele, e aí outra cliente chegou e deu uma bronca.
– No senhor?
– Em todo mundo, hehe… Ela disse que não era pra gastar água assim, que era desperdício, e falou nessa coisa de economizar, sabe?
– E o que o senhor fez?
– Ah, fiquei sem graça e terminei logo o serviço. Mas ela até que tinha razão.
– O senhor acha?
– O tempo anda seco, sem chuva. Até onde eu moro o pessoal tá economizando, porque lá falta mesmo. É uma piscininha de plástico pras crianças, no dia de domingo, e olhe lá.
– E o seu cliente, não reagiu?
– Nada, fez que nem era com ele… hehe.
– Bom, obrigada, uma boa semana para o senhor.
– Ah, pra senhora também. Da próxima, pelo menos os vidros eu lavo, tá bom?