
A não se que você more em uma cidade muito poluída, é possível que o ar que respira dentro de casa seja pior que o de fora dela. Estudos acumulam evidências de que, quando se trata da saúde, não devemos nos preocupar apenas com a fumaça que sai de escapamentos ou chaminés.
Um trabalho recente da Washington State University mostra em lares uma concentração surpreendentemente de substâncias tóxicas como o formaldeído, e mesmo mercúrio. Os efeitos neurotóxicos do mercúrio são há muito conhecidos, mas só agora começam a se entender as ligações entre o formaldeído e o câncer. Os níveis variam no correr do dia e aumentam quando a temperatura sobe. E causam impacto significativo na saúde das pessoas, afetando coração, pulmões e cérebro. E, diferentemente da poluição do ar no ambiente aberto, não há leis que regulem a quantidade de poluentes tóxicos em casa.
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Veja o que já enviamosEstas emissões saem de materiais de construção, móveis, produtos de limpeza e de atividades como cozinhar. Umas das soluções para o problema é ventilá-las para fora, mas com a preocupação crescente com a mudança do clima e com a redução do uso de energia, construções são cada vez mais isoladas do ar externo, o que apenas agrava a situação. “A exposição a estas substâncias impactam a habilidade das pessoas pensarem e aprenderem”, nota o estudo.
Outra pesquisa, feita em abril e maio deste ano pela Clean Air Day, da Inglaterra, mostra concentrações até três vezes mais altas. Os resultados mostraram que nível de partículas ultrafinas, chamadas de PM2.5, é excessivamente alto. Elas são particularmente perigosas e têm o poder de afetar mais a saúde que resíduos maiores, os PM10, por serem mais facilmente absorvidas pelo organismo. E se originavam, no caso do estudo, de lareiras e fogões. O governo britânico afirma que a partir de 2022 será proibido o uso de combustíveis mais poluentes nestas atividades. A fumaça gerada por eles, e ainda pelo fumo, têm longa duração de seu efeito tóxico quando absorvida por móveis e cortinas.
As partículas causam desordens da tireoide, problemas respiratórios e câncer. Estudo apresentado recentemente na conferência da Sociedade Americana para o Avanço da Ciência usou sensores avançados e câmeras para monitorar a qualidade do ar dentro de um espaço de 400 metros quadrados por um período de um mês.
Mesmo tarefas simples como ferver água, diz o trabalho, podem contribuir com níveis perigosamente altos de poluentes gasosos e partículas em suspensão. Substâncias químicas como materiais de limpeza, colas, revestimentos e objetos de uso pessoal se tornaram uma fonte importante de compostos orgânicos voláteis.
Com testes de urina e sangue dos participantes do experimento, cientistas usaram 44 biomarcadores para ver se as amostras indicavam exposição a toxinas. Quando um sofá que continha retardantes de chamas se encontrava no ambiente, crianças mostraram uma concentração seis vezes maior deles em seu sangue. No caso de pisos de vinil, a concentração de partículas tóxicas liberadas foi de 15 vezes maior na urina. Elas podem estar sujeitas a retardo de desenvolvimento neurológico, obesidade, disrupção endócrina e câncer, e ainda doenças respiratórias, irritações da pele, mieloma múltiplo e transtornos reprodutivos. “Devemos focar nossos esforços nestas fontes com a mesma atenção que damos aos combustíveis fósseis”, afirma o estudo.
Mas a situação é muito pior nos países mais pobres. Neles, quase três bilhões de pessoas ainda dependem de combustíveis sólidos como madeira, esterco, carvão e sobras de colheitas, queimados em fogões pouco eficientes e altamente poluentes, Isto leva a milhões de mortes prematuras por ano. A maioria delas morre por AVCs, doenças cardíacas isquêmicas e doenças pulmonares crônicas. Falecem também por pneumonia e câncer de pulmão. São mais vulneráveis mulheres e crianças, que passam a maior parte do tempo dentro de casa.