“Cucula” significa “fazer algo juntos” em hauçá, língua falada em países da África Ocidental como Mali e Níger, origem dos primeiros aprendizes do projeto. Seu trabalho tem como base o livro “Autoprogettazione?” (”Autoprojeto?”, sem tradução no Brasil), lançado em 1974 pelo designer italiano Enzo Mari com 19 modelos de móveis de madeira e um guia para sua construção, num ato crítico à massificação da produção e do consumo. A partir das instruções, e com autorização do autor, os refugiados produzem bancos, camas, cadeiras, mesas e estantes, supervisionados pelo arquiteto e designer Sebastian Däschle.
Fiquei um ano e meio na Itália, recebi um papel dizendo que podia sair e agora tenho que voltar. Não queria passar nem um dia lá. Aqui eu tenho o que fazer
[/g1_quote]Os aprendizes já começaram a criar para além dos modelos de Mari. Foi de Malik a ideia da cadeira “Embaixador”, em que um dos pedaços é feito com a madeira colorida e desgastada de um barco que chegou a Lampedusa com sobreviventes como ele. O material foi recolhido pelos quatro alemães responsáveis pela Cucula, já que os refugiados têm medo de voltar à Itália e serem impedidos de sair, porque legalmente devem pedir asilo no país de entrada na União Europeia. Depois de dois anos e meio em Berlim, com um ano de experiência em marcenaria e falando alemão, Malik acaba de receber uma notificação.
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Veja o que já enviamos– Fiquei um ano e meio na Itália, recebi um papel dizendo que podia sair e agora tenho que voltar. Não queria passar nem um dia lá. Aqui eu tenho o que fazer – diz ele, que continua com o destino incerto, quase uma década depois de fugir da rebelião tuaregue com o irmão mais velho.
No fim de 2013, quando chegou o inverno, uma casa de cultura para jovens em Berlim ofereceu uma sala para abrigar alguns dos refugiados que viviam num acampamento na Oranienplatz, praça em Kreuzberg, um dos bairros centrais da cidade. Foi ali que Malik, Moussa, Saidou, Maiga e Ali conheceram Däschle, que decidiu dar um workshop de marcenaria para que eles tivessem seus próprios móveis. Só quando as peças ficaram prontas é que ele se deu conta de que não serviam para nada: os refugiados não podiam usá-las, porque não tinham casa; não podiam vendê-las, porque não tinham permissão de trabalho.
Ali nasceu a ideia da Cucula, levada à Feira de Milão de 2014 apenas com alguns móveis, ainda sem um modelo de negócio ou estratégias. Hoje o projeto tem como “embaixadores” nomes como o artista plástico Olafur Eliasson, a coreógrafa Sasha Waltz e o diretor do Festival de Berlim, Dieter Kosslick. A ideia é dar um ano de bolsas de formação para cinco ou seis refugiados. Os atuais são homens jovens da África Ocidental, mas não haverá limitações de gênero, idade ou nacionalidade.
– Começamos de forma ingênua, apenas com a ideia de tirar os refugiados da passividade a que estavam obrigados – conta a designer Corinna Sy. – Fui fazendo o site do projeto no caminho para a Feira de Milão, e lá tivemos uma recepção extraordinária. Recebemos centenas de mensagens de apoio, e quando voltamos da Itália o acampamento da Oranienplatz tinha sido fechado. Fundamos a associação, alugamos um espaço para a oficina e fizemos uma campanha de crowdfunding para financiar as bolsas de formação no ano passado.
Como não podem receber dinheiro pelos móveis que produzem, os refugiados ganham ajuda financeira para itens relacionados à formação, como roupas de trabalho e transporte. Eles têm orientação jurídica e, junto a outros 15 requerentes de asilo, participam de um programa de educação com aulas de alemão e conhecimentos básicos, organizado pela Cucula com a venda de móveis, financiamento de fundações e doações de dinheiro e materiais. A esperança do projeto é que, com formação e integração social, torne-se mais difícil que eles sejam expulsos da Alemanha.