Indígenas do Alasca na luta contra o derretimento de geleiras e o negacionismo climático

Na COP30, Aakaluk e outras lideranças de povos indígenas do Norte Global questionam soluções de geoengenharia e lobby da indústria de energia nuclear

Por Micael Olegário | ODS 13
Publicada em 13 de novembro de 2025 - 09:39  -  Atualizada em 28 de dezembro de 2025 - 22:44
Tempo de leitura: 8 min

Ao lado de Talia Boyd, da Rede Ambiental Indígena, Aakaluk, ao microfone, denuncia impactos socioambientais da crise climática nas comunidades costeiras do Alasca em painel na COP30 (Foto: Micael Olegário)

(De Belém, Pará) – “Estamos assistindo a erosão costeira e ao afundamento das nossas terras e florestas”. O depoimento de Aakaluk, nome nativo de Adrienne La-Ree Blatchford, 44 anos, evidencia como a crise climática é uma ameaça concreta à existência em vários locais do planeta. Indígena dos povos Inupiaq e Yup’ik, Aakaluk vive em Unalakleet, pequena cidade costeira do distrito de Nome, no Alasca, Estados Unidos.

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O Alasca é um dos locais do planeta mais ameaçados pelo derretimento acelerado de geleiras, consequência direta do aumento médio da temperatura global e da exploração da natureza pelo capitalismo. A perda da camada congelada chamada de permafrost libera gases de efeito estufa na atmosfera, causando inundações e afetando diretamente o bem-viver em locais como Unalakleet.

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A comunidade é acessível apenas por avião e fica às margens do Mar de Bering, perto do Oceano Ártico, com uma população estimada em cerca de 748 pessoas. A pesca de salmão e de caranguejo real estão entre as principais atividades no local, que abriga comunidades dos povos Athabascan e Inupiaq.

Os impactos se retroalimentam e incluem também a mudança nos padrões meteorológicos. “Temos visto tempestades às vezes precoces ou tardias e também ausência de gelo marinho na costa, que protegia nossas orlas e nossas terras dessas inundações e da erosão que ocorre devido ao aumento da intensidade das tempestades”, descreve Aakaluk. 

Outro elemento dessa equação do caos climático na região é a contaminação gerada pelas indústrias petroquímicas e extrativistas. “Quando esses poluentes são emitidos pela industrialização, eles são levados para o norte, ficam retidos lá e se acumulam. Eles se bioacumulam em nossos alimentos e recursos. Estamos vendo mercúrio se infiltrar em nossas águas por causa do derretimento do permafrost”, explica ela.

Em Belém, Aakaluk participa da COP30 (30° Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) pela Rede Ambiental Indígena (IEN, na sigla em inglês). A organização, chamada também de Rede Educacional Indígena da Ilha da Tartaruga, atua na defesa de povos indígenas e tradicionais ao redor do mundo. 

Derretimento de geleiras tem causado inundações na cidade de Unalakleet: “Temos visto tempestades às vezes precoces ou tardias” (Foto: Arquivo Pessoal)

Trump e o negacionismo

Principal emissor histórico de combustíveis fósseis e, consequentemente, principal nação responsável pelas mudanças climáticas, os Estados Unidos passam por uma guinada negacionista sob o governo de Donald Trump. Além disso, o presidente estadunidense já afirmou que pretende incentivar a expansão da exploração de petróleo no país.

Aakaluk não esconde a frustração com a situação dos Estados Unidos, apesar disso, ela enfatiza a importância de combater essas narrativas. Ela também critica as propostas baseadas em geoengenharia como um novo modo de colonialismo e algo que desconsidera a relação simbiótica que os povos tradicionais possuem com os territórios. 

Se os humanos fossem embora hoje, a Terra prosperaria. Mas, com isso, também sentiria falta da nossa presença. Os nossos parentes no céu, na água e na terra sentiriam falta da nossa presença

Aakaluk - Adrienne La-Ree Blatchford
Indígena Inupiaq e Yup’ik

“Nós, como povos indígenas, sabemos que a manipulação só causará mais danos e mais destruição. As nossas dietas tradicionais são a forma como equilibramos e mantemos a nossa saúde mental, física e espiritual e, sem eles, somos verdadeiramente deslocados, não só das nossas casas, mas também dos nossos modos de vida”, disse Aakaluk

A líder comunitária e ativista também alerta para a importância de combinar ações de adaptação, sem deixar de cobrar que indústrias continuem a poluir e a lucrar como sempre costumam fazer. “Nossa expectativa na COP é continuar a mostrar resistência de uma forma que impulsione uma transição justa liderada pelos indígenas”. Para isso, ela menciona a recepção calorosa e as alianças com as populações indígenas brasileiras.

Aakaluk, do Alasca, ao lado de Petuuche Gilbert, do Novo México (EUA): indígenas do norte Global se opõe à falsas soluções verdes (Foto: Micael Olegário)

Energia nuclear

Indígena do Povo Acoma, Petuuche Gilbert é outro representante dos povos indígenas do Norte Global na COP30. Os Acomas habitam territórios no sudoeste estadunidense, no Novo México, Estados Unidos. O estado foi o primeiro lugar do mundo onde foram realizados testes nucleares, em julho de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.

“As pessoas, 75 anos depois, ainda são afetadas pela primeira bomba testada. Elas ainda são vítimas da radiação”, aponta o líder Acoma, contestando as mentiras do lobby nuclear. Petuuche denunciou o greenwashing da indústria de energia nuclear que tenta se vender como carbono zero, ou seja, constrói narrativas de que seus impactos no planeta podem ser compensados.

Petuuche também citou a preocupação com as possibilidades de expansão da energia no Brasil. Para ele, a justificativa de usos pacíficos da energia nuclear não se sustenta. “É preciso perceber que, quando se constrói um reator nuclear, pode-se usar o plutónio desse reator nuclear para fabricar bombas atômicas”, recorda.

Durante a Guerra Fria, a energia nuclear despertou temores sobre a sobrevivência da humanidade. Agora, a crise climática expõe a insuficiência dos modelos ocidentais e modernos de civilização, como um risco real à existência humana e às relações dela com os seres mais-que-humanos (rios, animais, plantas e florestas).

“Se os humanos fossem embora hoje, a Terra prosperaria. Mas, com isso, também sentiria falta da nossa presença. Os nossos parentes no céu, na água e na terra sentiriam falta da nossa presença”, afirma Aakaluk, ao lembrar que a resposta para a crise climática já é conhecida e praticada há milhares de anos pelos povos indígenas.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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