Acordo de Paris pôs clima na pauta, mas Terra está fervendo

Protesto na Avenue de la Grande Armee, em Paris, durante a COP-21, denuncia os efeitos da mudança climática:. Foto de Alain Jocard (AFP)

Cinco anos depois do compromisso multilateral pelo planeta, medidas, que eram urgentes naquele momento, precisam se tornar mais ambiciosas imediatamente

Por Marina Grossi | ODS 13 • Publicada em 16 de dezembro de 2020 - 06:25 • Atualizada em 22 de dezembro de 2020 - 09:27

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Protesto na Avenue de la Grande Armee, em Paris, durante a COP-21, denuncia os efeitos da mudança climática:. Foto de Alain Jocard (AFP)

O maior tratado de governança global do clima a envolver países ricos e em desenvolvimento pôs definitivamente o tema na ordem do dia de empresas, investidores, governos e organismos internacionais. Não só isso: passou a direcionar a transição para uma economia de baixo carbono em todos os países. A participação do setor privado vem sendo essencial para avanços na redução de gases do eeito estufa (GEE), mas, olhando à frente, será preciso ainda mais engajamento de empresas e governos para corrigir o rumo e eliminar práticas não sustentáveis. O compromisso global assumido pelos países  por meio de suas contribuições nacionalmente determinadas, as NDCs, ainda não é capaz de limitar o aumento da temperatura a 1,5º C. Será necessário mais do que vem sendo feito ou, para resumir melhor ainda: a conta não fecha.

A questão climática virou assunto, mas não deslanchou como deveria. A ocorrência de eventos extremos e mais frequentes, altas temperaturas e impactos na biodiversidade foram mais sentidos em cenas difíceis nos últimos tempos: ursos polares passando fome durante o derretimento recorde do Ártico no verão; onças queimadas depois dos incêndios no Pantanal; a nuvem de fumaça de incêndios da Amazônia chegando a São Paulo; a nuvem de gafanhotos ameaçando lavouras no sul do país; e o embranquecimento de corais no Nordeste pelas altas temperaturas dos oceanos. Sem esquecer que estamos isolados há meses, enfrentando uma pandemia global.

Foi justamente a previsão de que assistiríamos a desequilíbrios climáticos mais intensos que uniu 195 países, inclusive o Brasil, há 1.827 dias na capital francesa, para assinatura do acordo. Pela primeira vez, os compromissos foram distribuídos entre os maiores emissores, os países desenvolvidos, e os emergentes, que estrearam no sistema de metas. A responsabilidade passou a ser de todos, com objetivo claro: impedir que o planeta aqueça 2ºC. Se o limite for ultrapassado, os danos serão irreversíveis, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU:  desaparecimento de 30% das espécies, além de eventos climáticos mais graves e trágicos.

Essa governança global do clima, instituída pelo Acordo de Paris, começou a pautar toda a agenda econômica e vem revolucionando as finanças globais. Grandes investidores e fundos institucionais têm modificado seus portfólios, para beneficiar iniciativas e empresas mais limpas, e retiram recursos de países e companhias não comprometidos com a causa. “Risco climático é risco de investimento”, resume Larry Fink, CEO da maior gestora de ativos do mundo, a BlackRock, que tem US$ 7 trilhões sob sua administração.

Ao mesmo tempo, corrigir o rumo e tornar a economia mais sustentável e regenerativa trazem mais oportunidades de negócio. Estudo recente do WRI Brasil mostrou que o Produto Interno Bruto pode crescer em R$ 2,8 trilhões e gerar 2 milhões de empregos até 2030 com políticas voltadas à economia verde. Na outra ponta, os grandes bancos nacionais anunciaram que pretendem financiar iniciativas sustentáveis e os maiores investidores globais também exigem que as empresas sigam critérios ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês).

As principais economias do mundo também dobraram a aposta em políticas e incentivos econômicos verdes, movimento influenciado pela necessidade de maior resiliência frente à crise causada pela pandemia e pela mudança do clima. Reino Unido, Japão, Coréia do Sul, China e União Europeia começaram a adotar políticas para incentivar mudanças na condução dos negócios. Esta é a trajetória indubitável do comércio internacional na corrida em curso – e que temos condições de liderar.

Com isso em mente, o CEBDS vem desenvolvendo proposta de Marco Regulatório para a criação de um mercado de carbono compulsório no Brasil. Passo que permitirá a nossas empresas minimizar gastos, com a liberdade de escolher tecnologias mais adequadas e tomar a decisão de pagar o preço pela emissão, de acordo com seus custos de controle e metas de produção e expansão. Estamos neste caminho: três em cada cinco empresas já atribuem preço ao carbono no Brasil.

Soluções econômicas baseadas na natureza têm o potencial de gerar até US$ 17 bilhões até 2030, segundo estudo recente do CEBDS. Já o Fórum Econômico Mundial estima que há um potencial de US$ 10 trilhões, com a criação de 395 milhões de empregos nos próximos dez anos, caso os negócios optem por soluções baseadas na natureza. O mercado financeiro monitora com lupa o comportamento das empresas, e novos critérios de divulgação de resultados (disclosure) incluem cada vez mais o risco ambiental na matriz de decisão dos investidores.

As ações das empresas e as mudanças nas finanças globais são resultados dos movimentos iniciados com o Acordo de Paris. É neste cenário que elaboramos um novo conceito de futuro, a Visão 2050, com o que esperamos dos negócios daqui a 30 anos no país. Nossos empresários apostam em uma economia circular e regenerativa, que recupere sistemas de apoio à vida para reduzir estragos já causados.

Vivemos uma corrida mundial por uma economia mais limpa, com o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e a China sinalizando o mesmo caminho. Os movimentos recentes dos dois países – maiores economias e principais emissores – eleva as expectativas para os próximos capítulos da governança climática. No fim de 2021, acontece a COP-26, em  Glasgow (Escócia), quando discutiremos novas metas para evitar impedir o aumento fatal da temperatura do planeta e a negociação do Artigo 6, essencial para dar a abrangência e alcance necessários para o setor privado alavancar esforços. Será um novo capítulo para o Acordo de Paris e o retorno às mesas de negociação. O setor empresarial estará presente, com sua visão de futuro e disposto a contribuir.

Chegou a hora de, com a cabeça fria, unirmos esforços para esfriar o planeta.

Marina Grossi

Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010. Foi negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre 1997 a 2001 e coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto.

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