
Quando eu era criança em Laranjeiras, o Largo do Boticário, no vizinho Cosme Velho, era um lugar onde os adultos gostavam de passear – mas meninos e meninas não viam grande graça. Mais tarde, na adolescência, descobri que o largo tinha seu charme: alguns amigos gostavam de ir lá fotografar, outros tocar violão, os mais românticos, namorar. Lá na virada dos 70 para os 80, era um contraste gigante: você entrava em uma ruazinha mínima, entre a saída do Túnel Rebouças e um terminal rodoviário que servia de ponto final para uma dezena de linhas de ônibus, e chegava no Largo do Boticário com sua arquitetura da primeira metade do século e seu clima de praça de cidade do interior.
Anos depois, os adultos da minha infância costumavam dizer que foi a abertura do túnel que começou o processo de decadência do largo que ganhou o nome por conta do boticário Joaquim José da Silva Souto, dono de uma botica na Rua Direita (hoje Primeiro de Março), que comprou as terras no século ainda no século XVIII e ergueu as primeiras casas. As residências do Largo do Boticário foram passando por mudanças durante o século seguinte, mas ganhou a aparência atual no começo do Século XX, quando os casarões foram reformados com o uso de materiais retirados das demolições ocorridas no Centro do Rio, durante as obras de modernização do centro cidade, com a abertura da Avenida Central, hoje Rio Branco, e outras obras.
Moravam, então, no Largo do Boticário, Edmundo Bittencourt, proprietário do jornal Correio da Manhã, e o diplomata e colecionador de arte Rodolfo (Ruddy) da Siqueira, que começaram a transformar o lugar num ponto chique, palco de festas da alta sociedade carioca. Emprestavam um charme extra àquele canto do Cosme Velho o cenário verde de um trecho de Mata Atlântica, cercado de árvores por todos os lados, o tratamento paisagístico de Burle Marx, e uma das poucas partes visíveis do Rio Carioca, que batiza os nativos da nossa cidade, e separa o Beco do Boticário, a ruazinha de entrada, do largo onde, nesta época de festas, ganhou também uma fonte no seu centro. Os Bittencourt continuaram proprietários das casas no largo mas também viveu ali a botânica Magu Leão, que trabalhou com Lotta de Macedo Soares no Parque do Flamengo e o empresário e colecionador de arte Paulo Eduardo Klabin; a crítica teatral Bárbara Heliodora e o artista plástico Augusto Rodrigues moraram nas casas do beco.
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Veja o que já enviamosNão sei se estão certos aqueles que atribuem a decadência do Largo do Boticário à abertura do Túnel Rebouças, em 1966, e a transformação da Cosme Velho numa rua de trânsito intenso e engarrafamentos frequentes a partir de então. Nos últimos anos do século passado, parte das casas – a maioria ainda de propriedade da família Bittencourt – já estava vazia. O conjunto arquitetônico havia sido tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural em 1990. Em 2006, alguns casarões chegaram a ser invadidos. A deterioração fez com que vizinhos e instituições especializadas em patrimônio e arquitetura temessem até pelo desabamento do casario.
Neste começo de outono, a visita ao Largo do Boticário é menos animadora do que imaginei ao saber, em meados do ano passado, que a rede Accor havia comprado seis casas da família Bittencourt que passariam por reforma para virar um hostel, com centro de convivência e espaço de coworking. O futuro ainda não chegou: os antigos casarões continuam com ar abandonado – a única diferença é que grades protegem a entrada e não há invasores aparentes. As casas em melhor estado ainda são as do beco – uma delas, onde morou Augusto Rodrigues, está para alugar. Mas, ao olhar para o verde em volta e a placa anunciando o Rio Carioca e aproveitar a sombra e um pouco da brisa do outono, dá para imaginar a área ocupada por turistas, saindo a pé para conhecer o Corcovado – a estação do bondinho fica a menos de 200 metros – e sonhar que os novos projetos tragam dias melhores para o velho Largo do Boticário.
#RioéRua
Morou também ali na década de 70 e 80 o escossês John Sommer, famoso pelas peças de estanho que colecionava e fabricava (acho que hoje, após sua morte, seu acervo encontra-se no Museu da cidade mineira) e que mantinha na sua casa um antiquário. Era casado com uma ex´tica inglesa que frequentava a vida noturna cariosa e que apareceu morta na banheira da casa em que moravam. Suspeitaram inicialmente do Sommer, pelas brigas que o casal tinha, e o caso foi objeto de grande sensação na época. John Sommer mudou-se depois para São João del Rey onde abriu uma fundição de peças de estanho, assim como uma loja no Shopping da Gávea. Conheci-o no final da década de 80, em sua casa na histórica cidade mineira, época em que meus pais, que também ali residiam, possuíam um antiquário em Tiradentes. Em meio alguns tragos de uísque, recordo-me haver ele comentado sobre o episódio e chegado mesmo a produzir um recorte de jornal da época. John Sommer, outro famoso morador do Largo do Boticário.