Voz que não se cala, Ivanir dos Santos é um dos líderes que soube unir ativismo e a presença na Academia. Assim, tornou-se, junto ao seu trabalho, uma espécie de ‘’pontífice’’ para discussões que atravessam gerações, e que nos últimos anos foram primordiais dentro da grande ‘ágora’ que se estabeleceu na cena dentro e fora das redes sociais.
Precisamos investir em uma educação construída com base na equidade e na luta antirracista. Ações efetivas que possam mudar a mentalidade e a cultura do ódio, da intolerância e da exclusão
Mas não basta. É preciso agir, unindo mobilização e engajamento, como no último domingo (17/9), quando o professor. doutor em História, e babalawô esteve junto de milhares de pessoas para a realização da 16ª edição da Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, que, todos os anos, reúne praticantes dos mais diferentes credos na Praia de Copacabana por um só objetivo: clamar por dias de paz e, ao mesmo tempo, denunciar casos de intolerância e de racismo.
Leu essa? Mostra de arte de rua e vídeo reforçam campanha por mulher negra no STF
Orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ), Ivanir acena para o fato de que, se o desejo é a mudança, que ela aconteça efetivamente ao aprender com nossos próprios erros – e por meio da ancestralidade. Na ação que possibilita novos amanhãs, enxergar os avanços e também retrocessos, que fazem ressignificar, dentro da religião, aquilo que precisa ser feito. Afinal, ‘’a liberdade religiosa existe para todas as pessoas ou é uma condição?’’.
Receba as colunas de Edu Carvalho no seu e-mail
Veja o que já enviamosSegue a entrevista:

Edu Carvalho/#Colabora: Até que ponto existe liberdade religiosa no Brasil?
Ivanir dos Santos: Bom, acredito que a pergunta que devemos fazer é “a liberdade religiosa é uma liberdade para qual grupo/segmentos?”. Digo isso pois, mesmo vivendo em um estado laico e democrático, os dados estatísticos nos mostram que a liberdade religiosa, e de culto, não é uma realidade para todas as pessoas que professam alguma fé. Por isso, precisamos nos perguntar se a liberdade religiosa existe para todas as pessoas ou é uma condição.
Edu/#Colabora: No início do ano, uma lei tornou mais severas as penas para crimes de intolerância religiosa, que só em 2022, contabilizou 1.200 ataques – um aumento de 45% em relação a 2020. Recentemente, tivemos o episódio do assassinato de Mãe Bernadete. Falta efetividade no cumprimento das políticas públicas?
Para não cometermos erros, voltar os nossos olhos para as pessoas que aprenderam com os nossos antepassados é fundamental para que possamos fortalecer as nossas resistências
Ivanir dos Santos: Sim, infelizmente. A naturalização da intolerância religiosa, principalmente sobre os adeptos das religiões de matrizes africanas, é histórica e está associada ao desenvolvimento e transformações sociais, econômicas e políticas no Brasil. Assim, a falta de efetividade no cumprimento das políticas públicas está associada aos processos de desumanização que coloca as religiões de matrizes africanas e seus adeptos fora dos projetos e ações voltadas para a garantia de direitos e cidadania.
Edu/#Colabora: Como o senhor avalia a nova lei que proíbe, na Prefeitura do Rio, a contratação de quem cometer intolerância religiosa?
Ivanir: Compreendo que possivelmente pode vir a ser uma medida plausível, mas que não resolve todas as questões. Precisamos investir em ações tais como elaboramos no Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, precisamos investir em uma educação construída com base na equidade e na luta antirracista. Ações efetivas que possam mudar a mentalidade e a cultura do ódio, da intolerância e da exclusão.
Edu/#Colabora: Com as redes sociais e também o compartilhamento sobre ensinamentos, explicações a respeito – sobretudo no Candomblé e na Umbanda – o senhor acredita que avançamos no debate?
Ivanir: Acredito que as redes sociais têm contribuído, mas precisamos pontuar que é importar buscarmos referências, fontes e a sabedorias dos/as nossos/as mais velhos/as sobre as religiões de matrizes africanas, pois estamos falando de um saber que não é “academizado” e ainda hoje sobrevive com base na pedagogia da história oral, é a pedagogia do chão do terreiro. Então, para não cometermos erros, voltar os nossos olhos para as pessoas que aprenderam com os nossos antepassados é fundamental para que possamos fortalecer as nossas resistências.
Edu/Colabora: O senhor idealizou uma série sobre a história da resistência negra no Brasil. O que o público pode esperar na obra?
Ivanir: Ainda não posso falar muito coisa, mas posso pontuar que é a primeira série que tem como tema a história do movimento negro pelos direitos civis do Brasil. É um trabalho coletivo que buscar tirar o movimento negro da margem e levar para o centro dos debates políticos no Brasil. É uma série que tem roteirista e diretor que buscam evidenciar as nossas resistências históricas e cotidianas contras todas ações de violência, intolerância e racismo.