A fé também é trans: como pessoas trans criam templos religiosos inclusivos

Expulsas de religiões e das escrituras conservadoras, pessoas trans reconstroem sua relação com o sagrado e criam comunidades onde fé e identidade caminham juntas

Por Revista AzMina | ODS 10
Publicada em 7 de abril de 2026 - 09:43  -  Atualizada em 7 de abril de 2026 - 09:44
Tempo de leitura: 15 min

Pastoras, reverendas e lideranças de matriz africana reinterpretam textos sagrados e ritos para construir teologias inclusivas e acolhedoras para pessoas trans (Arte; Revista AzMina)

(Mariana Rosetti* e Paola Churchill**) – A palavra “acolher”, em letras garrafais, estampa a parede laranja de uma sala na República, região central de São Paulo. O escrito é promessa: todos que frequentam espaços coordenados pela pastora Jacque Chanel são acolhidos. Jacque é uma mulher alta, de 61 anos, com cabelos loiros alinhados, e carrega no pescoço um crucifixo com as cores da bandeira trans.

Com a voz suave, a pastora vai conversando com cada um que chega. Aos que já conhecem o local e que frequentam o culto há anos, ela pede ajuda para servir a mesa, enquanto conversa animadamente perguntando como foi a semana da pessoa. Os visitantes de primeira viagem também são acolhidos como amigos íntimos.

Suzy frequenta os cultos há um ano (Foto: Mariana Rosetti)

O culto começa às 19h, toda segunda-feira. Na noite em que a reportagem esteve presente, mulheres trans eram a maioria — havia também um homem homossexual em situação de rua. Nós, duas jornalistas cis, fomos chamadas para integrar a roda onde todos falam sobre o próprio dia, vivências e indagações. Na sequência, de mãos dadas e regidos por Jacque, oramos.

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Jacque é um exemplo de como pessoas trans têm reconstruído sua relação com a religião, criando espaços inclusivos e novas leituras teológicas. Segundo o IBGE, aproximadamente 184 milhões de brasileiros declararam ter alguma religião em 2022. Os dados possuem recortes geográficos, de raça, escolaridade, mas não sobre identidade de gênero, então não sabemos quantas são pessoas trans e travestis.

O apagamento ultrapassa os dados e atinge também os ritos, as passagens bíblicas e os contos religiosos. Especialistas ouvidos pela AzMina reforçam que as manifestações de fé não escaparam da herança colonizadora do Brasil. O machismo, o racismo, a xenofobia e, sobretudo, a transfobia levaram homens e mulheres trans a criar o seu próprio espaço religioso de acolhida, reivindicando: a fé também é trans.

Exclusão nos templos e na família

Aos 13 anos, Jacque Chanel foi entregue pela mãe a um pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, que deveria “curar sua transexualidade”. O religioso fez o contrário: a enxergou. Ela se batizou nas águas, em um ritual de imersão que marca publicamente a entrada na fé cristã e no Espírito Santo. “Um dos momentos mais lindos”, lembra Jacque, hoje pastora.

Quando o pastor morreu, Jacque perdeu não só um ente querido, mas acesso a um espaço sagrado, seguro e íntimo. Aos 16 anos, se viu em busca de lugares que a permitissem manifestar sua fé. Cada porta fechada transmitia uma mensagem: sua identidade de gênero não combinava com a igreja.

Para Jeferson Batista, jornalista e doutorando em Antropologia Social pela Universidade de Campinas, embora existam divisões entre catolicismo e protestantismo, as correntes hegemônicas cristãs convergem na condenação de identidades que fogem à norma heterocisgênera.

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A exclusão é também documental: “institucionalmente, você não vai ter tantos documentos ou passagens bíblicas que serão lidas especificamente para pessoas trans”. Conforme Jeferson, até os textos bíblicos utilizados para condenação focam na homossexualidade, então, esses religiosos tratam identidade de gênero e orientação sexual como a mesma coisa.

Mesmo nas denominações que aceitam sexualidades dissidentes, a hierarquia de aceitação funciona como uma “escadinha” moral ainda muito pautada pela comparação com os homossexuais. Desses, os cisgêneros com parceiros fixos estariam mais próximos do que seria a heterossexualidade. “As pessoas trans estariam cada vez mais baixo nessa escada”, pontua o doutorando em Antropologia.

A igreja Católica, por exemplo, só autorizou pessoas transexuais a receberem o batismo em novembro de 2023. Ainda assim, com uma ressalva: “se não houver situações em que haja risco de gerar escândalo público ou desorientação entre os fiéis.” Esse tipo de pensamento faz com que, muitas vezes, pessoas trans e travestis não consigam reconhecer suas próprias necessidades e vivam em uma situação constante de inadequação.

Alexya Salvador: primeira mulher transgênero a ocupar a posição de reverenda na América Latina (Foto: Arquivo Pessoal)

Reverenda propõe nova leitura de passagem bíblica

A reverenda Alexya Salvador, de 45 anos, propõe uma leitura radicalmente oposta à interpretação tradicional da Bíblia, que afirma que Deus criou “homem e mulher” (Gênesis 1:27). Ela defende uma visão mais inclusiva e contemporânea das identidades de gênero.

Quando o Evangelho de João afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14), Alexya Salvador interpreta o trecho a partir de uma leitura própria: “é Deus abandonando o gênero divino para assumir o gênero humano, uma transição de gênero.”.

O argumento gerou reiteradas ameaças da comunidade religiosa a ela, mas hoje é tema de seu mestrado em Teologia. A ideia parte do pressuposto de que Deus nunca esteve sozinho — Pai, Filho e Espírito Santo já coexistiam. Para que o Filho pudesse nascer entre os humanos, ele teve que deixar para trás o que era original e assumir outra forma.

Para Alexya é exatamente o que uma pessoa trans faz. “Ela transforma aquilo que veio de ‘fábrica’ para se adequar à sua natureza”, sendo toda pessoa trans “a imagem e semelhança de Deus.”

Ela cresceu na igreja católica e se lembra da noite em que viu travestis em um ponto de prostituição ao voltar de um simpósio na PUC Campinas, onde cursava o seminário. Primeiro pensou nelas como “imundas, sujas, pecadoras, vergonhosas”, mas lembra: “lá dentro, eu me reconheci naquelas meninas”.

Sua transição e nova jornada ministerial aconteceram na Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM) de São Paulo. A primeira ICM foi fundada nos Estados Unidos em 1968 por Troy Perry, como a primeira denominação cristã voltada especificamente ao público LGBTQIAPN+.

Ao chegar ao Brasil, em 2000, a instituição abriu caminhos para que, em 26 de janeiro de 2020, Alexya Salvador fosse ordenada, tornando-se a primeira mulher transgênero a ocupar a posição de reverenda na América Latina. E para que Jacque Chanel, que chegou na ICM em 2006, fosse ordenada pastora em 2021 e fundasse a primeira igreja trans do Brasil: a Séforas.

Pastor Heliano: fundador da Igreja Apostólica Kaléus em Ribeirão Preto (Foto: Arquivo Pessoal)

“Fiquei chapado sem beber”

A trajetória de mulheres trans como Alexya e Jacque é moldada pela resistência. O antropólogo Jeferson destaca que a chegada da ICM abriu portas para a construção de igrejas inclusivas. Hoje, a literatura acadêmica classifica os espaços religiosos para a população LGBTQIAPN+ em três grandes categorias, que variam conforme o nível de autonomia e aceitação plena da identidade de gênero.

Foi em um desses espaços que Heliano Ferreira da Silva, de 46 anos, encontrou seu lugar. Fundador da Igreja Apostólica Kaléus em Ribeirão Preto (SP), Heliano cresceu vendo a mãe rezar, mas nunca se encaixou no catolicismo dela: frequentou terreiros, maçonaria, participou de rituais independentes e acreditou no misticismo dos cristais, mas algo continuava errado.

No meio de sua busca solitária, encontrou o que acreditava ser acolhimento no álcool. Foi quando uma amiga o convenceu a ir a um culto em uma igreja inclusiva de Campinas (SP). Lá, sentiu como se estivesse sendo abraçado sem que ninguém o abraçasse. “Fiquei chapado sem beber”. Na sessão seguinte, “aceitou Jesus”.

Ali ele realizou sua transição de gênero e encontrou forças para o autocuidado: em maio de 2026 completa dez anos de sobriedade.

A chegada de Maria Navalha, a pombagira de Mãe Luyza, durante a gira (Foto: Mariana Rosetti)

Um terreiro transcentrado

Ao tocarmos a campainha de um sobrado cinza em Mauá (SP), somos recebidas por uma pessoa que veste um colar de contas coloridas. Chamado de guia, o adereço representa as entidades e proteção espiritual para quem usa. É o dia da primeira gira de portas abertas da Aldeia dos Malungos, um terreiro transcentrado.

Na garagem, uma imagem de Exu, uma tenda de palha e o atabaque aguardam o início dos trabalhos. Para a umbanda e o candomblé, Exus e Pombagiras são espíritos que tiveram vidas marcadas por dificuldades. Após a morte, atuam como guardiões, mensageiros e agentes de equilíbrio.

Mãe Luyza desce as escadas vestindo uma roupa branca com flores douradas e brincos cor de ouro. O cumprimento é amistoso, mas o riso é econômico; ela está concentrada no rito que se inicia. “Exu é paz, exu é prosperidade”, diz, enquanto dança em círculo com outros médiuns, pessoas cis e trans.

É nesse transe coletivo que Luyza dá passagem à entidade: o semblante concentrado sai de cena para a chegada de Maria Navalha. Ao trocar a roupa branca por um traje vermelho, solto e rodado, se impõe ainda mais mística e sensual, sorrindo de orelha a orelha. O nome de Maria Navalha estampa uma tatuagem nas costas de Luyza, a mãe da casa.

Ela foi iniciada no candomblé aos 13 anos, mas encontrou acolhimento mesmo na umbanda. Luyza ainda não se identificava como travesti quando a mãe de santo perguntou: “Por que você não bota a saia?” O motivo era medo, ela já que em outra casa teve o cabelo cortado ao aparecer com tranças.

À frente da Aldeia dos Malungos, Luyza define o espaço como “um quilombo atuante dentro da cidade”. Ali, já abrigou mulheres em situação de violência, crianças e pessoas trans expulsas de casa pela família ou pela religião. Por isso, o espaço é fechado e seleciona os visitantes.

Ialorixá vê essência acolhedora no candomblé

Fernanda Silva é mulher trans, ialorixá de candomblé, teóloga e assistente social, com pós-graduação em Direitos Humanos e Sexualidade. Para ela, o candomblé, em sua essência, busca acolher cada pessoa como ela se apresenta socialmente.

Ela fundamenta essa visão na própria cosmologia da religião. “A fé preconiza que a cabeça (Òrí) é quem comanda e carrega o corpo (Árá)”, afirma. E questiona: “Como podemos exigir que uma pessoa que nasceu com o sexo incongruente com seu gênero, mas o adequou à sua identidade, se comporte e se vista nos rituais conforme uma determinação biologizante e reducionista?”

Fernanda conta que encontrou acolhimento no candomblé desde cedo, mas reconhece que essa não é a realidade de todas as suas irmãs de axé. Ela já presenciou muitos casos de mulheres transexuais e travestis que não podiam ser iniciadas, ou mesmo  proibidas de incorporar entidades e vestir saias, ou, no caso de homens trans, deixar de vesti-las.

Diante disso, ela transformou sua trajetória religiosa em posicionamento político. Passou a estudar práticas e interpretações que excluíam pessoas trans e, a partir dessas pesquisas, escreveu livros. Para ela, não há separação possível entre pauta social e pauta política: “o terreiro que não se posiciona diante da violência sofrida fora dele não é um quilombo, é apenas um endereço.”

Maioria dos terreiros sofre racismo religioso

Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa no Brasil. As religiões de matriz africana concentram mais casos: só a umbanda soma 228 registros, seguida pelo candomblé, com 161.

O relatório “Respeite Meu Terreiro”, publicado pelo Ministério dos Direitos Humanos em novembro de 2025, mapeou 255 terreiros de todo o país: 76% afirmaram já ter sofrido racismo religioso e 80% relataram que membros de suas comunidades foram vítimas diretas.

Para quem é trans e de matriz africana, as vulnerabilidades se somam. Para o babalorixá Alan de Ogun (Ogundeje), não podemos ignorar que “o próprio candomblé foi colonizado, como todas as religiões judaicas e cristãs.” As rendas dos trajes rituais, por exemplo, têm origem europeia, mostrando que a religião herdou uma estrutura que apagou identidades.

Pai Alan brinca: Thor, o deus nórdico do trovão, loiro e de nariz afilado, é super-herói; Xangô, orixá do trovão, com o nariz amassado e a pele preta, é o diabo. “A gente subalterna a cultura africana. Porque ela é preta.”

Qual Deus disse isso?

Se a religião se mobiliza “para dizer que as pessoas trans são do demônio”, não  “pode mobilizar as pessoas para defenderem os direitos das pessoas trans?”, questiona Jeferson Batista, doutor em Antropologia.

Ainda que se negue a fé, a existência de algo superior, o fenômeno social da religião existe, explica Jeferson. “As pessoas estão enchendo igrejas e praças para louvar”, comenta. Ele ressalta que a religião muitas vezes afeta de forma negativa coisas que são importantes para a sociedade, como  a democracia, os direitos civis e os direitos humanos.

Sempre que utilizam o nome de Deus para cometer transfobia, Pai Alan questiona qual Deus disse isso. “O Deus europeu ou o Deus do mundo todo?” Ele esclarece que  há o Deus do colonizador e o Deus que a minoria acredita.

É por isso que, desde a fundação da primeira igreja trans brasileira, a Séforas, a pastora Jacque Chanel abre as portas do seu culto para quem precisar. Naquela noite, quando pediu para todos darem as mãos, pessoas como Suzi, que tinha um terreiro antes de fazer a transição de gênero, fechou os olhos. E Gabi, que havia sido expulsa da Igreja Universal por não poder usar nem o banheiro feminino nem o masculino, abaixou a cabeça. “Pai amado”, começou Jacque, “abençoa cada vida, cada alma que aqui está.”

Depois da oração, vieram os pratos. Comida feita por Jacque, como toda semana. Naquele dia, o prato era macarrão ao alho e óleo com salsicha. “Na comida também está a energia de Deus”, Jacque afirma. Suzi concorda: foi pela comida que chegou, mas não é pela comida que volta.

Do lado de fora, o barulho da cidade grande. Dentro, no silêncio confortável, um grupo de pessoas consideradas à margem jantavam juntas — e ouviam uma pastora trans dizer que Deus não faz acepção de pessoas.

Link original: Como pessoas trans estão criando templos religiosos inclusivos no Brasil

*Mariana Rosetti, formada em Comunicação Social e Jornalismo e pós-graduada em Direito Penal e Processo Penal, escreve e pesquisa sobre violência de gênero, segurança pública, direitos humanos e cidades. Tem mais de seis anos de experiência em jornalismo televisivo e hardnew e fundou o Marias&Anas, um podcast de entrevistas que conta a história de mulheres com diferentes vivências. 

**Paola Churchill, jornalista freelancer, escreve sobre gênero e cultura em diversos veículos e acredita que o jornalismo pode ser uma ferramenta para revelar desigualdades e abrir espaço para vozes que muitas vezes ficam de fora. 

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