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Os agressores misóginos aqui, ali, em todo lugar. Até diante do espelho

A violência de gênero repete o racismo: conhecemos milhares de vítimas e nenhum algoz; brutalidade endêmica contra as mulheres decifra charada

ODS 10ODS 16ODS 5 • Publicada em 3 de abril de 2026 - 21:19 • Atualizada em 7 de abril de 2026 - 09:10

O leniente reino do racismo embrulha-se em outro rótulo macabro, para se consolidar como a terra – também – da misoginia. O ódio selvagem às mulheres transforma-se em marca do Brasil, numa produção incessante de vítimas. Do assédio à agressão, da opressão ao abuso, da objetificação ao feminicídio, a violência de gênero multiplicou-se até se naturalizar no cotidiano. A brutalidade grassa, dia sim dia também, como o sol que nasce e se põe.

Leu essa? O mal que no Brasil é banal

As estatísticas se superam a cada aferição. Em 2025, 1.568 mulheres pereceram assassinadas pelo gênero, aumento de 4,7% em relação a 2024; no mesmo período, foram 12 agressões por dia, uma a cada duas horas; especificamente sobre estupro, houve um a cada seis minutos, mais de 83 mil vítimas, a população de Picos (PI), ou de São Bento do Sul (SC); sete em cada dez mulheres sofreram assédio, crime que feriu uma em cada quatro adolescentes.

Ato contra violência de gênero no Rio: redpill, incels, chans e outros termos de ódio contra mulheres se multiplicam na internet (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil – 08/03/2026)

É um massacre, que não dá sinais de arrefecer – na verdade, acentua-se na reação dos machos ofendidos pela simples tentativa de se impor os limites da mais elementar civilidade. Ex-marido e algoz da farmacêutica e ativista cearense Maria da Penha Maia Fernandes – que, de tanto agredi-la e tentar matá-la, a deixou paraplégica –, Marco Antonio Heredia Viveiros serve de exemplo da obsessão: virou réu mês passado, por participar de campanha de ódio na internet contra a ex-mulher. Nem a provável volta à cadeia decorrente da reincidência consegue freá-lo.

Pode parecer uma dimensão remota da barbárie humana, mas está aqui ao lado. Como constatou brilhantemente Fábio Porchat, em entrevista ao podcast InteligênciaLtda: “Toda mulher conhece alguma mulher que foi abusada; nenhum homem conhece um abusador. Mas a cada seis minutos, uma mulher é estuprada. Então, a verdade é que a gente conhece. É o cara da sua família, o seu amigo. É uma conversa que a gente tem que ter muito entre nós, homens. Com os filhos, os amigos. Os homens precisam parar de tratar a mulher como pedaço de carne, peguei, comi etc. É uma gente ruim, criminosa”.

Mais uma vez, a violência de gênero se encontra com o racismo. Basta lembrar a ampla pesquisa realizada no centenário da Abolição (1988), com duas perguntas básicas: em “você é racista?”, o “não” bateu 97%; em “você conhece alguém racista?”, o “sim” atingiu 98%. Ou seja, somos os brasileiros mentirosos – além de racistas e machistas.

A farmacêutica cearense Maria da Penha Fernandes, que dá nome a lei contra a violência de gênero: recrudescimento dos ataques. Foto José Cruz/Agência Brasil

Na terra que se acostumou a ser desigual, a misoginia produz, ainda, aterrorizante igualdade, ao se espraiar por todas as classes sociais, regiões, recortes étnicos e populacionais. Não escapa ninguém. O ódio de gênero está na música, na literatura, no entretenimento, no senso cotidiano, na covardia social, no mercado de trabalho, nas estruturas de poder, nas redes sociais. Um monstro que se retroalimenta e não para de crescer.

Camisa 10 do Equivocados Futebol Clube, Neymar ofereceu outro exemplo quinta-feira (2), após a vitória do Santos contra o Remo. O sucesso no placar não mitigou o estresse do insepulto boleiro (aliás, ele parece odiar jogar bola). Na entrevista ainda em campo, apelou ao machismo na crítica ao juiz Sávio Pereira Sampaio. “Ele acordou meio de chico”, mandou.

A expressão, numa abordagem preconceituosa, refere-se à menstruação, que seria suja e impediria relações sexuais. Chico, no português de Portugal, é sinônimo de “porco” (daí a palavra chiqueiro). Definir assim o processo metabólico feminino inclui-se no interminável índex misógino e escala os usuários da imagem na seleção brasileira da misoginia.

(Neymar vive melancólico inverno de uma carreira que prometeu o céu mas mal entregou purgatório. O time que deveria liderar jaz na periferia do futebol brasileiro e o atacante constrange, a cada rodada, os lobistas de sua convocação para a Copa do Mundo, num dos mais aborrecidos debates esportivos. Quando a bola rola, dá vergonha de ver.)

O exemplo boleiro do desprezo é apenas mais um em milhares, milhões – e trata-se, definitivamente, de mal exclusivo dos homens. Convocá-las para debater a violência significa apenas renovar a dor – a revitimização. Cansa, exaure, dói. De novo, como no racismo, doença dos brancos. Obrigar os negros a se debruçar sobre a patologia é somente crueldade. Mais uma.

A violência contra as mulheres passou a ser chamada de epidemia, mas, em verdade, se tornou endêmica. Assim, permita-se, você aí, um exame de consciência a partir da provocação de Porchat. Quantos misóginos, abusadores, agressores de mulheres estão por perto? Encontrei, numa primeira passada, quatro – um parente muito próximo, um colega de profissão, um namorado de amiga e o marido de outra, pai do casal de filhos deles. Assediadas e abusadas? A lista não termina!

Se sua “pesquisa” não der resultado semelhante, você não anda prestando atenção; ou se mudou para Nárnia; ou – pior – o agressor está diante dos seus olhos quando miram o espelho. Prest’enção.

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