Expectativa de vida na Europa cresce mais lentamente

Causas da desaceleração incluem doenças cardiovasculares, dietas inadequadas, obesidade e inatividade física

Por José Eustáquio Diniz Alves | ArtigoODS 3 • Publicada em 24 de fevereiro de 2025 - 09:45 • Atualizada em 25 de fevereiro de 2025 - 09:08

Casal de idosos observa a paisagem na cidade de Fussen, na Alemanha. A variação da expectativa de vida na Europa, que já foi de 9,8% na década de 60, hoje gira em torno de 2%. Foto Michael Nguyen/NurPhoto via AFP

A história da humanidade é a história da luta pela sobrevivência e pela busca de uma vida mais longa. Por mais de 200 mil anos, desde o surgimento do Homo sapiens, as taxas de mortalidade eram elevadas, o padrão de vida da população mundial era muito precário e a expectativa de vida ao nascer girava em torno de 25 anos. Até o início do século XIX, grande parte das crianças não chegava a completar cinco anos de idade e a mortalidade materna era muito alta.

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O impacto da alta mortalidade, tanto no plano individual quanto no social e econômico, é imensurável. A perda precoce de vidas comprometia o desenvolvimento humano, uma vez que o progresso econômico depende de uma população longeva, capaz de acumular conhecimento, compartilhar experiências e exercer plenamente sua cidadania — seja na saúde, na educação ou no trabalho. Em outras palavras, a prosperidade e o bem-estar estão diretamente ligados ao aumento da longevidade.

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A velha história demográfica começou a mudar a partir da Revolução Industrial e Energética que iniciou a exploração em larga escala da natureza e passou a produzir bens e serviços em massa, utilizando energia extrassomática vinda dos hidrocarbonetos acumulados na Terra durante milhões de anos.

Com a maior disponibilidade de bens e serviços, a expectativa de vida ao nascer começou a subir na Europa, América do Norte e Oceania ainda no século XIX e subiu no restante do mundo no século XX. O gráfico abaixo mostra que, em 1900, a expectativa de vida ao nascer estava em 42,7 anos na Europa, 32 anos no mundo e 29 anos no Brasil. No século XX os ganhos foram espetaculares. Em 2019, a expectativa de vida chegou a 78,8 anos na Europa, 75,8 anos no Brasil e a 72,6 anos no mundo. Houve uma queda geral em decorrência da pandemia da covid-19, mas o patamar pré pandêmico foi superado em 2023.

 

Nota-se que a expectativa de vida ao nascer do Brasil, em 1900, estava abaixo da média mundial e representava apenas 68% do patamar alcançado pela Europa. Mas a expectativa de vida da população brasileira ultrapassou a média mundial em meados do século XX e atingiu 96% do patamar europeu em 2023. Portanto, a expectativa de vida no Brasil, que era bastante baixa, acelerou após a Segunda Guerra, enquanto houve desaceleração dos ganhos da expectativa de vida europeia.

Sem dúvida, a expectativa de vida ao nascer avançou muito desde 1900 e a Europa é um exemplo de continente com elevada longevidade. Mas, inquestionavelmente, o ritmo de avanço tem desacelerado ao longo do tempo, desmistificando a ideia de que a expectativa de vida ao nascer poderia crescer indefinidamente, por exemplo, superando os 150 anos.

O artigo “Implausibility of radical life extension in humans in the twenty-first century”, publicado na revista Nature Ageing (Olshansky et al, outubro de 2024) analisa as tendências recentes na expectativa de vida humana e avalia a possibilidade de uma extensão radical da longevidade neste século. Os autores examinaram dados de mortalidade e expectativa de vida de 1990 a 2019 em oito países com as populações mais longevas—Austrália, França, Itália, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Suécia e Suíça—além de Hong Kong e Estados Unidos.

Os principais achados do estudo indicam que, desde 1990, as melhorias na expectativa de vida têm desacelerado nesses países. Embora no século XX a expectativa de vida ao nascer tenha aumentado aproximadamente 30 anos nos países de alta renda, impulsionada por avanços em saúde pública e medicina, essa tendência não se manteve no ritmo nas últimas décadas.

A análise revelou que a resistência a melhorias na expectativa de vida aumentou, enquanto a desigualdade na longevidade diminuiu e a mortalidade se concentrou em idades mais avançadas. Esses fatores sugerem que, sem intervenções significativas que retardem o processo biológico de envelhecimento, é improvável que a extensão radical da vida humana ocorra neste século. Especificamente, a probabilidade de sobrevivência até os 100 anos não deve ultrapassar 15% para mulheres e 5% para homens.

Esses resultados reforçam a necessidade de focar em estratégias que promovam um envelhecimento saudável e melhorem a qualidade de vida na terceira idade, em vez de buscar apenas prolongar a longevidade. A pesquisa destaca que, a menos que processos biológicos fundamentais do envelhecimento possam ser significativamente retardados, a expectativa de vida humana não deverá aumentar de forma drástica nas próximas décadas.

Nesta mesma linha de análise, um outro artigo “Progress Stalled? The Uncertain Future of Mortality in High-Income Countries”, publicado na prestigiosa revista Population and Development Review (Dowd, novembro de 2024) mostra que o ritmo de avanço da expectativa de vida nos países mais ricos está caminhando para a estabilidade. Os autores dizem: “Embora os limites biológicos para o aumento da expectativa de vida possam eventualmente dominar as tendências de longo prazo, fatores sociais criados pelo ser humano estão atualmente impedindo muitos países de atingir as melhores práticas de expectativa de vida já alcançáveis, pois são essenciais para melhorias no curto prazo”.

O gráfico abaixo, com dados da Divisão de População da ONU (revisão 2024), mostra que a expectativa de vida ao nascer (Eo) na Europa era de 62 anos em 1950 e passou para 68,7 anos em 1960, um crescimento de 9,8% na década. Nos anos 1960 a Eo continuou aumentando, mas em ritmo menor. Na primeira década do século XXI o ritmo de aumento da Eo voltou a subir, mas desacelerou na década seguinte. Pelas projeções da ONU a expectativa de vida ao nascer na Europa deve atingir 80,3 anos em 2030 e, mesmo com uma desaceleração do ritmo de avanço, estima-se um valor de 89,4 anos em 2100.

Sem dúvida, o aumento da expectativa de vida ao nascer nos últimos 125 anos foi notável e impulsionou o desenvolvimento humano. No entanto, isso não significa que a longevidade continuará crescendo indefinidamente. A Europa, um dos continentes com maior expectativa de vida, enfrenta desafios cada vez maiores para reduzir a incidência de doenças crônicas que afetam a população idosa.

No dia 18 de fevereiro de 2025, foi publicado na revista The Lancet, o artigo “Changing life expectancy in European countries 1990–2021: a subanalysis of causes and risk factors from the Global Burden of Disease Study 2021” (Nicholas Steel et al, 2025) analisando as mudanças na expectativa de vida em 16 países do Espaço Econômico Europeu e no Reino Unido entre 1990 e 2021. Os pesquisadores identificaram que, após décadas de aumento constante, a melhoria na expectativa de vida desacelerou a partir de 2011, antes mesmo da pandemia de COVID-19.

Entre 1990 e 2011, a expectativa de vida aumentou em média 0,23 anos por ano. No entanto, de 2011 a 2019, esse crescimento reduziu para 0,15 anos anuais. A Inglaterra apresentou a maior desaceleração, com o incremento anual diminuindo de 0,25 anos para 0,07 anos.

As principais causas apontadas para essa desaceleração incluem doenças cardiovasculares e câncer, associadas a fatores de risco como dietas inadequadas, inatividade física e aumento da obesidade. Países que mantiveram políticas eficazes de saúde pública, como Noruega, Islândia, Suécia, Dinamarca e Bélgica, conseguiram sustentar melhorias na expectativa de vida, mesmo durante a pandemia. Isso sugere que políticas governamentais focadas na redução de fatores de risco e na promoção de estilos de vida saudáveis são essenciais para o avanço da expectativa de vida.

As projeções populacionais da Divisão de População da ONU, em geral, apresentam uma visão otimista sobre a elevação da expectativa de vida ao nascer na Europa e nos demais continentes do mundo no decorrer das próximas décadas. Mas os três estudos acadêmicos, apresentados acima e, publicados nos últimos 6 meses, mostram que os países e regiões que já atingiram expectativa de vida em torno de 80 anos estão tendo dificuldades para reduzir as taxas de mortalidade e ampliar a longevidade.

Todavia, países como Japão, Coreia do Sul e Austrália continuam registrando expectativas de vida acima da média europeia, indicando que ainda há margem para avanços no velho continente. Novas tecnologias médicas, terapias genéticas e progressos na prevenção de doenças poderão impulsionar um novo ciclo de aumento da longevidade, mas esse processo será complexo e desafiador.

Algumas evidências indicam que a expectativa de vida na Europa pode ter atingido um platô. No entanto, esse cenário parece estar mais relacionado a fatores sociais, econômicos e de saúde pública do que a um limite biológico absoluto. Assim, com políticas eficazes para reduzir fatores de risco, integrar novas tecnologias médicas e fortalecer as conexões sociais e intergeracionais, as taxas de mortalidade podem continuar diminuindo, permitindo novos avanços na expectativa de vida.

Referências:

Olshansky et al. Implausibility of radical life extension in humans in the twenty-first century, Nature, 07/10/2024 https://www.nature.com/articles/s43587-024-00702-3

Jennifer Beam Dowd, Antonino Polizzi, Andrea M. Tilstra. Progress Stalled? The Uncertain Future of Mortality in High-Income Countries, Population and Development Review, 04 November 2024

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/padr.12687

Nicholas Steel et al. Changing life expectancy in European countries 1990–2021: a subanalysis of causes and risk factors from the Global Burden of Disease Study 2021. The Lancet Public Health, 2025

https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2468-2667%2825%2900009-X

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

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