
Com apenas cinco pães e dois peixes, conta a famosa passagem bíblica que Jesus alimentou uma multidão. Dizem os especialistas, em tom de brincadeira, que o “milagre da multiplicação” só foi possível porque o peixe em questão era uma tilápia. Além de se reproduzir facilmente, cresce rapidamente. Não à toa alimenta uma indústria de pesca milionária que cresce no mundo todo. Estados Unidos, União Europeia e China são grandes consumidores de tilápias. E o Brasil, depois que a espécie foi introduzida em águas brasileiras nos anos 70, é um grande produtor. Ao lado da carpa, outra espécie exótica, a tilápia representa mais da metade do cultivo de pescados em viveiro no país. O peixe é original da África.
Interesses econômicos se encaixam sob medida nos motivos por trás da aprovação pelo governador do Amazonas, José Melo (Pros), do projeto de lei estadual que libera a introdução de espécies não-nativas nos rios e igarapés da maior floresta tropical do mundo. Sancionada às vésperas do Dia do Meio Ambiente, no último dia 30 de maio, a decisão vai na contramão da proteção ambiental do bioma amazônico. Ambientalistas enumeram um conjunto de consequências desastrosas para a Bacia Amazônica, identificada como a maior biodiversidade aquática do planeta, onde vivem mais de três mil espécies de peixes.
Espécies exóticas introduzidas neste habitat levarão a uma degradação em cadeia e, segundo Nurit Bensusan, coordenadora adjunta do Programa de Política e Direito do Instituto Socioambiental e especialista em Biodiversidade, “não há volta para a introdução de peixes não-nativos, o que significa que, uma vez introduzidos, o dano é irreversível”.
Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosNão há volta para a introdução de peixes não-nativos, o que significa que, uma vez introduzidos, o dano é irreversível
[/g1_quote]Uma das ameaças para a Bacia Amazônica é a tilápia. O peixe disputa espaço, alimentos e local para desova. É apontado como um adversário agressivo, do tipo que não entra em briga para perder, o que leva ao desaparecimento de outras espécies de peixes. É por isso que os ambientalistas não gostam de tilápias e chamam atenção para o fato de que a espécie nadando pelos rios amazônicos é um risco para peixes nativos como urimatãs, pirarucus, filhotes, aruanãs, gurijubas e até para mamíferos aquáticos, como botos, peixes-boi e golfinhos.
Pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Ibama e Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM) assinaram uma moção de repúdio ao projeto de lei. Citaram como exemplo o surubim-pintado – hoje uma espécie em declínio populacional. Seu algoz foi justamente à liberação de animais híbridos na natureza, que, ao cruzar com outras espécies, impactou negativamente seu habitat. Os protestos contra o projeto de lei chegaram na internet, onde circulou, nas últimas semanas, um abaixo-assinado.
Até o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, classificou a decisão como um “complexo processo de degradação dos ecossistemas, de forma comprovada, com vários exemplos ao redor do mundo”. Após a polêmica, o Governo do Amazonas informou que a proposta de alteração de quatro artigos da Lei nº 4.330 deve ser encaminhada à Assembleia Legislativa até o final desta semana. Ou seja, hoje. Preventivamente, MPF/AM recomendou ao Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam) que não licencie nenhum empreendimento de aquicultura em rios do Amazonas. Se a lei não for alterada, como promete fazer os deputados amazonenses, seu poder de destruição será incalculável.