Acordei de mau humor desejando não receber absolutamente nenhuma mensagem de “feliz dia internacional da mulher”. Não queremos apenas campanhas lançadas no dia 8 de março, não queremos likes e uso das hashtags #8M. Não queremos declarações públicas de amor para avós, mães, irmãs, filhas, tias, sobrinhas, primas, netas, esposas, namoradas e peguetes. Não queremos carro de mensagem, tampouco cesta de café da manhã e buquês em promoção.
Queremos ser ouvidas. Queremos parar de ser interrompidas. Queremos salários equiparados. Queremos ser promovidas à chefia. Queremos folga menstrual como direito trabalhista. Queremos parar de ter que nos esforçar o dobro para conseguir o mesmo que um homem medíocre no mercado de trabalho.
Leu essa? Mulheres são maioria da população mas seguem excluídas de espaços do poder
Queremos divisão justa de tarefas domésticas. Queremos licença-maternidade digna. Queremos cadeia, punição e multa para todos os que praticarem violência obstétrica. Queremos que mulheres no cárcere tenham o direito de parir com respeito e dignidade. Que mulheres em privação de liberdade tenham o direito de amamentar por mais tempo seus bebês, sem aquela ruptura brusca e traumática.

Queremos o fim do feminicídio e da cultura do estupro. Queremos mais representatividade no governo e todos os outros cargos de tomada de decisão. Que a próxima mulher presidente do Brasil não sofra impeachment. Queremos políticas públicas centradas em gênero e raça. Queremos o fim da taxação de produtos de higiene feminina. Queremos a ruptura de padrões estéticos nas propagandas e publicidades e o fim da gordofobia.
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Veja o que já enviamosQueremos ser lidas. Queremos que nenhuma mesa de debate seja feita sem mulheres. Queremos mais financiamento de pesquisas e mais mulheres na ciência. Queremos que nenhum homem diga sim a um convite se não houver, ao menos, uma mulher presente. Queremos que homens tenham a coragem de refutar comentários machistas e misóginos em uma mesa de bar. E que, se for necessário, se levantem e abandonem amizades e relações tóxicas.
Queremos educação sexual para meninas e mulheres, sobretudo nas favelas e periferias brasileiras. Mas leia-se aqui educação de qualidade, e não meia-boca (nada de cegonhas, nem esse papo de piu piu e rosa). Queremos mais acesso a todos os métodos contraceptivos, ainda que não tenhamos condição financeira para custeá-los. Queremos o fim da pobreza menstrual e mais absorventes, coletores e discos menstruais amplamente disponíveis. Queremos que mulheres tenham a autonomia de tomar decisão sobre seus próprios corpos. Queremos sigilo absoluto da mídia e do conselho tutelar quando uma mulher não se sente pronta para ser mãe e decide dar seu filho para adoção.
Queremos que mais mulheres sejam lideranças em todas as religiões. Queremos o fim do silenciamento diante da violência doméstica nos espaços religiosos. Queremos que mulheres tenham rede de apoio adequada quando decidirem pelo divórcio e fim de relacionamentos abusivos
Queremos proteção reforçada às defensoras ambientais. Queremos os territórios indígenas contem com políticas de proteção, especialmente às mulheres e meninas que sofrem violência sexual de garimpeiros, madeireiros e outros invasores. Queremos que as mulheres quilombolas vendam suas ervas medicinais pelo preço que acharem justo, que valorize seu conhecimento e sua ancestralidade.
Queremos o fim da discriminação às mulheres neurodivergentes. Queremos que mulheres com autismo, bipolaridade, déficit de atenção e hiperatividade e borderline sejam acolhidas, respeitadas e tenham suas realidades adaptadas no mercado de trabalho.
Queremos mais acesso aos preventivos e diagnósticos de miomas uterinos, endometriose, síndrome do ovário policístico, candidíase e HPV. Queremos redução na fila de espera do Sistema Único de Saúde (SUS) para as mulheres que estão há anos na fila, simplesmente esperando sua vez.
Queremos que mulheres trans tenham acesso à cirurgia de redesignação sexual quando se sentirem prontas. Queremos que elas sejam chamadas pelo nome social sem serem questionadas. Queremos banheiros inclusivos. Queremos vagas afirmativas para que haja mais mulheres trans no mercado de trabalho – e em todos os lugares que elas desejam estar!
Queremos que Daniel Alves e Robinho não escapem da justiça em detrimento dos seus privilégios.. Queremos que o médico anestesista que estuprou uma mulher durante o parto no Rio de Janeiro tenha sua pena dobrada. Queremos mais agilidade do poder público em denúncias e suspeitas de estupro e pedofilia.
A lista é interminável, afinal, são milênios de estruturação do patriarcado. Hoje é o Dia Internacional da Mulher e não queremos parabéns, nem palminhas e nem flores. Contudo, deixo aqui um recado para os homens: na dúvida do que e de como fazer, faça uma ação prática por reparação histórica, reconhecendo o machismo entranhado e reproduzido no seu dia a dia. Na dúvida, mandem um pix!
Artigo fantástico. Andréia Coutinho Louback expôs o mapa da mina. Parabéns!