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[g1_quote author_name=” Flavio Carvalhaes” author_description=”Sociólogo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os alunos mais pobres buscam conexão mais visível com o mercado de trabalho, como as áreas que tenham contato com o ensino ou carreiras como Secretariado Executivo e Ciências Contábeis
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Veja o que já enviamosEm parceria com o professor Carlos Antonio Costa Ribeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Carvalhaes é autor de uma pesquisa que avalia de que maneira o fato de ser rico ou pobre, homem ou mulher, branco ou negro reflete no acesso a 34 cursos de ensino superior. O estudo foi feito baseado em informações do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de 2007 a 2009. Concluíram que a tardia expansão da oferta do ensino univesitário brasileiro para os grupos estudados não representou quebra significativa na desigualdade. A formação superior realmente representa um aumento de renda, mas esse acréscimo de salário é desproporcional entre os diferentes grupos. Dessa forma, o ensino recebido na universidade mantém as desigualdades, conclui a pesquisa.
Cursos “masculinos” e “femininos”
Há exemplos claros. Estudantes oriundos de classe social de maior poder aquisitivo têm quase 15 vezes mais chances de ter acesso ao curso de Medicina que aqueles de menor poder aquisitivo. Relações Internacionais e Odontologia são outros exemplos de carreiras que recebem em grande maioria alunos de famílias de maior renda. Do outro lado, Matemática, Geografia e Pedagogia são cursos com grande contingente de pessoas de menor renda. “Os alunos mais pobres buscam conexão mais visível com o mercado de trabalho, como as áreas que tenham contato com o ensino ou carreiras como Secretariado Executivo e Ciências Contábeis”, explica o professor da UFRJ.
Essa distribuição desigual também se verifica se observada pelo filtro de gênero e raça. Engenharia e Agronomia, por exemplo, são cursos “masculinos”, enquanto Pedagogia e Secretariado são cursos “femininos”. Na comparação entre brancos e negros, a característica não é tão marcante, mas há maior concentração de negros em áreas como Biblioteconomia e Serviço Social, enquanto os brancos estão mais presentes nos cursos de Medicina, Odontologia e Agronomia.
Prouni esvaziado
Uma das providências para solucionar essa estratificação, reforça Carvalhaes, é mesmo recorrer à ampliação ao acesso às universidades privadas, já que aparentemente não há dinheiro disponível no governo para multiplicar as vagas nas instituições públicas, que atualmente são insuficientes. “O desenho para uma iniciativa como essa pode ser o mesmo do Prouni. Tínhamos uma política redistributiva que foi desencorajada. O governo poderia seguir esse modelo, apenas aprimorando para termos mais controle sobre a qualidade da oferta educacional”, defende. “É preciso um sistema regulatório bem encaixado e o MEC já tem esse sistema instalado, que pode ser melhorado. No Prouni, as instituições de ensino recebem subsídio do governo federal, mas essa política foi reduzida em favor do Fundo de financiamento estudantil (Fies).”
[g1_quote author_name=” Flavio Carvalhaes ” author_description=”sociólogo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Se a gente não pensar em políticas públicas que aproveitem vagas no setor privado vamos deixar gerações não atendidas
[/g1_quote]Outra política pública possível, a partir das constatações do estudo, é a melhoria do ensino médio, que possibilitaria diminuir a desigualdade no acesso aos cursos “de rico”, onde praticamente só entra quem estudou nos melhores colégios preparatórios, quase sempre muito caros. “Parte da solução para aperfeiçoar o acesso ao ensino superior é melhorar o ensino médio. Mas se a gente virasse a Finlândia de hoje para amanhã ainda iríamos demorar muito tempo para ver isso fazer efeito”, acredita o sociólogo.
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Por isso, aumentar as possibilidades de acesso aos diversos cursos universitários com fortalecimento das instituições privadas é uma medida necessária. Desde que, diferentemente do que sugere o ministro da Educação, as particulares aprendam com as públicas a ampliar as possibilidades dos estudantes mais pobres, independentemente de gênero ou cor da pele. “Se a gente não pensar em políticas públicas que aproveitem vagas no setor privado vamos deixar gerações não atendidas”, reforça Carvalhaes. Ele alerta, porém, que é preciso reforçar os padrões de qualidade. É preciso que se compreenda que o ensino superior não é meramente aula, mas há outros componentes importantes, como a pesquisa. As particulares devem ser incentivadas, mas de modo a garantir a qualidade. Nenhum país do mundo trata o ensino superior como mercado desregulado como qualquer produto que se vende numa prateleira”.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]33/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil
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