Carnaval: ameaças ao planeta e genocídio indígena na Passarela do Samba

O planeta ameaçado pelos homens: enredo da Acadêmicos do Sossego inspirado por livro do xamã indígena Davi Kopenawa (Foto: Fábio Motta / Riotur)

Acadêmicos do Sossego, escola de samba de Niterói, apresenta enredo baseado em livro do xamã yanomâmi Davi Kopenawa

Por Oscar Valporto | ODS 14ODS 15 • Publicada em 21 de abril de 2022 - 12:26 • Atualizada em 3 de maio de 2022 - 09:14

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O planeta ameaçado pelos homens: enredo da Acadêmicos do Sossego inspirado por livro do xamã indígena Davi Kopenawa (Foto: Fábio Motta / Riotur)

“A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Em seu livro ‘A queda do céu’, escrito em parceria com o antropólogo e etnólogo Bruce Albert, o xamã yanomâmi Davi Kopenawa alerta para o futuro do planeta com a destruição da natureza. O livro deu samba: foi inspirado nele que a Acadêmicos do Sossego encerrou o primeiro dia de desfiles na Passarela do Samba, do carnaval 2022.

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A quinta-feira já tinha clareado quando a escola de samba de Niterói entrou na Marquês de Sapucaí para encerrar a noite da Série Ouro, o grupo de acesso do Carnaval, com o enredo Visões Xamânicas, inspirado exatamente pelo livro de Davi Kopenawa, que o carnavalesco André Rodrigues leu durante a pandemia. O xamã – líder espiritual indígena, com capacidade de conectar-se com a natureza, os seres humanos e espíritos – da Acadêmicos do Sossego é fictício, mas as visões demonstradas no desfile são inspiradas em Kopenawa e seu livro, em que lembra as ameaças aos indígenas. “Esta terra nunca foi vazia no passado. Muito antes dos brancos chegarem, nossos ancestrais e os de todos os habitantes da floresta já viviam aqui. Antes de serem dizimados pela fumaça da epidemia, os nossos eram muito numerosos. Naqueles tempos antigos, não havia motores, nem aviões, nem carros. Não havia óleo nem gasolina. Os homens, a floresta e o céu ainda não estavam doentes de todas as coisas”, escreveu o xamã em A Queda do Céu.

O desfile da Acadêmicos do Sossego no Carnaval 2022 começou com a apresentação, feita pela comissão de frente, do encontro do xamã da Sossego com os Xapiris (espíritos ancestrais), responsáveis, no enredo, por concederem as visões, que conduziram o desfile. Os componentes interagiam com um tripé representando Urihi, o lugar onde vivemos, a Terra. A primeira parte do desfile tinha como tema “A Primeira Visão: O que nós fizemos de Urihi?” para mostrar as ameaças ao planeta: o abre-alas ‘Devoração do mundo’ representou a primeira visão apresentada pelos xapiris ao xamã, a Terra em processo de destruição.

Xamã, líder espiritual indígena, representado no desfile da Acadêmicos do Sossego: visões das ameaças ao planeta e aos indígenas, inspiradas por Davi Kopenawa (Foto: Fábio Motta / Riotur)

O livro de Davi Kopenawa é bastante alarmista ao descrever o impacto dos homens brancos na natureza. “Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë! Multidões desses forasteiros bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru – ouro. Começaram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários. Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos”, escreveu Davi Kopenawa em ‘A Queda do Céu’.

O enredo da escola de samba para o carnaval desenvolveu-se de forma mais amena. Depois da destruição do planeta da abertura do desfile, o Sossego mostrou a segunda visão, a Pajelança Universal, demonstrando a conexão espiritual com os xamãs de diferentes origens e culturas – pajé é a palavra em tupi-guarani para o xamã de outras línguas indígenas. A terceira visão do enredo – Descerá de uma estrela um índio guerreiro – apresentou este xamã que recebeu a missão de não deixar o céu cair – as fantasias indígenas, tradicionais no Carnaval da Passarela do Sampa – tomaram conta desta parte do desfile da Acadêmicos do Sossego. O encerramento do desfile, marcado pelo carro-alegórico ‘Um novo mundo vai renascer’, teve a mensagem otimista de que a Terra pode ser recuperada; “É o renascer de algo que nunca morreu, pois podemos ainda preservar”, nas palavras do carnavalesco André Rodrigues.

Indígenas representados no desfile da Acadêmicos do Sossego: visão otimista com mensagem de preservação da natureza (Foto: Fábio Motta / Riotur)

Em ‘A Queda do Céu’, a visão de Kopenawa é bem mais alarmista – ou realista – sobre o futuro ameaçado pela destruição da natureza. “Os espíritos xapiri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar”.

Na Marquês de Sapucaí, o céu estava azul e claro quando a Acadêmicos do Sossego começou a desfilar – com atraso de mais de quatro horas, provocado por problemas de organização, dificuldades das próprias escolas anteriores, e um horrível acidente com um carro alegórico depois do desfile que deixou uma criança de 11 anos em estado grave. O desfile inspirado pelas palavras do xamã não enfrentou problemas e os componentes deixaram a avenida animados com o futuro da escola de samba – que ficou em sexto lugar entre as 15 escolas da Série Ouro. Mas, sobre o futuro do planeta, é melhor ler o livro de Davi Kopenawa.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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