Estou em Cabo Verde, um país composto por um arquipélago de 10 ilhas e situado no ponto mais ocidental da África continental, onde ficarei por dez dias. Antes mesmo de desembarcar, já era possível perceber a cromoterapia de um país que está sedento e desesperado pelas águas da chuva. O marrom é predominante. Enquanto a pluviosidade é um fator de ansiedade e riscos nas favelas e periferias do Brasil, por aqui ela é um fenômeno escasso, cuja ausência traz muitos prejuízos à agricultura e à economia.
Nas estradas entre as ilhas que desenham o país, é triste perceber tanta vegetação morta e seca. Em alguns trechos mais, em outros menos. Ao conversar com o Ricardo Gomes, cabo-verdiano, ele destacou o pesadelo que a população vive à espera da chuva. São incontáveis perdas. Logo, ao compartilhar sobre a realidade de enchentes e inundações do Brasil, há um choque de perspectivas. É como se o próprio equilíbrio entre as injustiças climáticas fosse um risco às nações.
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Tenho me dedicado à escuta de depoimentos muito cruéis sobre a chuva, sobretudo nas periferias e favelas. O fato de as enchentes serem tão abusivas em territórios marginalizados torna a pluviosidade uma vilã, sobretudo para as famílias mais pobres. O ciclo do “chove-alaga-perde-tudo”, sobretudo na região Sudeste do Brasil, se repete em intervalos cada vez mais curtos. A ansiedade climática e a crise habitacional se juntam e se transformam em duas pandemias altamente letais e desproporcionais quando observamos o descaso do poder público frente às violações socioambientais.
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Veja o que já enviamosEm fevereiro, estive no quilombo do Kalunga, localizado no norte do estado de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. Fiquei encantadíssima quando soube que há uma dança cultural chamada “sussa kalunga” para agradecer e celebrar a chuva. Afinal, sua dicotomia entre as regiões, cidades, países e continentes tem múltiplos significados. Ao olhar para as minhas memórias de infância, a chuva nunca foi sinônimo de tragédia. O que é diferente da realidade da Ana Clara, adolescente do Morro da Providência, no centro Rio de Janeiro, que morre de medo de raios e chuvas. Afinal, os estragos da chuva custam dias de danos e prejuízos à sua família.

A última vez que choveu em Cabo Verde foi em outubro de 2022. A média de intervalo entre chuvas varia entre oito a dez meses. Mesmo assim, tudo o que é bom dura pouco: elas duram apenas uma semana. É tão injusto que não dá tempo de recuperar as perdas e danos da natureza. Devido ao clima árido, há pouca arborização no arquipélago de ilhas do país. Assim, quando as águas finalmente chegam, não são chuvas torrenciais e são efêmeras. As notícias não ilustrarão inundações, como vemos no Brasil. Muito pelo contrário: os rios e as ribeiras estão secos praticamente todo o ano. Por isso, cabe ao governo cabo-verdiano reforçar a resiliência das populações do país e adaptar as cidades, searas agrícolas e habitações de extrema vulnerabilidade climática.
A crise hídrica em Cabo Verde, porém, não se pauta apenas na ausência das chuvas. O ciclo de águas é muito lento no país, devido à lentidão do curso. Entre as soluções, o governo tem se dedicado à construção de barragens e à prática ancestral de reutilização de águas residuais. Embora não resolva a raiz estrutural do problema, é uma medida eficaz e ajuda o abastecimento de milhares de famílias. Uma das primeiras curiosidades que li sobre o país é que a obtenção de água potável se dá pelo processo de dessalinização. Ou seja: os dessalinizadores fazem a mágica de transformar água salgada em água doce. Mas não nos enganemos. Isso é muito caro e demanda um altíssimo gasto de energia, o que desencadeia a crise – e justiça – energética.
Talvez ainda seja cedo pra dizer, mas sinto uma conexão muito forte em Cabo Verde. Certamente, isso vem da ancestralidade. Há marcas indeléveis da nossa aqui, cujo tempo e espaço não podem apagar. E, a metáfora que faz sentido pra mim, é que a ausência de chuvas representa uma nação que alcançou tarde sua independência (5 de julho de 1975) e, tardiamente, chora pelas marcas da escravização abolida somente em 1876. O que não absolve a responsabilidade da crise climática no sul global, em especial, no inesquecível e lusófono Cabo Verde.