
De 1932 a 2017, a coleção de 86 desfiles das escolas de samba cariocas apresenta muito mais celebração do que crítica, muito mais adesão do que oposição, muito mais exaltação do que denúncia. Assim, a maratona que começa na noite deste domingo garante um recorde – quatro das 13 escolas que vão passar na Sapucaí abordarão aspectos lamentáveis do cotidiano. Será uma festa de tocar nas feridas, numa alegria que ambiciona fazer pensar.
[g1_quote author_name=”Trecho do samba da Mangueira/2018″ author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]O morro desnudo e sem vaidade
Sambando na cara da sociedade
Levanta o tapete e sacode a poeira
Pois ninguém vai calar a estação primeira
Se faltar fantasia alegria há de sobrar
Bate na lata pro povo sambar
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Veja o que já enviamosEu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o carnaval!
Para sobreviver nas frestas de uma sociedade que as criminalizou no início, e jamais se dispôs a olhá-las sem preconceito, as grifes da folia mantiveram-se, no mais das vezes, distantes da política. Mas a saga octogenária registra exceções – de todos os matizes ideológicos.
Na ditadura militar inaugurada em 1964, várias escolas encenaram celebrações ao regime, mas a conta ficou para a Beija-Flor. No triênio 1973/1975, a turma de Nilópolis saudou facetas do milagre econômico (por mais que seja doloroso lembrar, de governos populares); um deles, de 1974, ganhou a eternidade sob o enredo “Brasil do ano 2000” e o samba (de Walter de Oliveira e João Rosa) “É estrada cortando/ A mata em pleno sertão/ É petróleo jorrando/ Com afluência do chão/ Sim, chegou a hora/ Da passarela conhecer/ A ideia do artista/ Imaginando o que vai acontecer/ No Brasil do ano dois mil…”
No ocaso do autoritarismo, a Caprichosos de Pilares, em 1985, fez história na Passarela inaugurada um ano antes com “… E por falar em saudade” e o samba (de Almir Araújo, Marquinhos Lessa, Hércules Corrêa, Balinha e Carlinhos de Pilares) dos versos “Diretamente, o povo escolhia o presidente/ Se comia mais feijão,/ Vovó botava a poupança no colchão/ Hoje está tudo mudado,/ Tem muita gente no lugar errado”. O Carnaval embarcava na maré democrática.
A Beija-Flor fez a volta em sua própria história, exaltando o recém-eleito Lula em 2003, com o enredo “O povo conta a sua história: saco vazio não para em pé, a mão que faz a guerra, faz a paz”, de aguda crítica social. (O samba começa com Neguinho da Beija-Flor anunciando “Agora sim, o povo está feliz”.) Foi campeã do Carnaval – como a Vila Isabel em 2006 com “Soy loco por ti, América: a Vila canta a latinidade”, que levou escultura imensa de Hugo Chávez Sapucaí afora.
Mas no quesito crítica, nenhum Carnaval se compara ao de 2018. Conheça os quatro enredos em que o pau vai quebrar para cima de quem merece:
1 – Paraíso do Tuiuti, “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”: Desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos a partir dos 130 anos da Abolição, o tema da escola de São Cristóvão é pau puro. Bate no racismo, na reforma trabalhista e traz, no último carro, um vampiro. Adivinha quem é… Para dar ritmo nisso tudo, um samba de antologia:
2 – Mangueira, “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco”: Inventora do babado, a verde e rosa transformou a crise em folia. De autoria do artista mais importante da festa – o carnavalesco Leandro Vieira –, o enredo lembra que o Carnaval sempre existiu, bem antes da era multimilionária da Sapucaí. Assim, a escola apresentará arlequins, pierrôs, colombinas, botecos, o povo de rua, os blocos, as drag queens, o baile todo para criticar quem conspira contra a festa maior. Não ligou o nome à pessoa? Não seja por isso: preste atenção na última alegoria. No alto, haverá uma bunda gigante, com celulite e a tatuagem de um coração. Bem no meio dela, estará o nome: Crivella. Enquanto isso, ouça o samba:
3 – Portela, “De repente de lá pra cá e dirrepente daqui pra lá”: A inteligência de Rosa Magalhães – a Professora, maior campeã em atividade na festa – parte da história dos judeus pernambucanos expulsos na invasão holandesa para construir um libelo contra a xenofobia. Uma crítica sutil a intolerância dos anos Trump. O samba:
4 – Beija-Flor, “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”: Ninguém será tão carnavalescamente radical como a azul e branco nilopolitana. A efeméride dos 200 anos de lançamento do romance “Frankestein”, de Mary Shelley é a metáfora inicial para a apresentação de uma sortida salada de mazelas sociais brasileiras. Corrupção, racismo, intolerâncias variadas, poluição ambiental – para terminar na vitória do Carnaval, na celebração dos 70 anos da escola. Deu num dos mais aclamados sambas da temporada: