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Um dia isso vai acabar

As eternas dúvidas das quentes noites de sábado


Mais dúvidas: Calabresa? Marguerita? Pepperoni? Tem que ir na boa. Na boa!, afinal é sábado à noite.
Mais dúvidas: Calabresa? Marguerita? Pepperoni? Tem que ir na boa. Na boa!, afinal é sábado à noite.

1991, sábado à noite:

Acabo de acordar. Que horas? Onde deixei o relógio? Vamos ao que importa: qual é a boa? Sábado é o dia, não dá pra embarcar em furada. Tem que ir na boa. Na boa! Tem festa? Onde? Tem show? De quem? Tem bar? Da moda? E, principalmente, quem vai estar nesses lugares? Fulana? Beltrana? E se uma delas for a mulher da minha vida, estiver na festa, e eu for no show?

Ô confusão dos diabos.

Ligo pra um, ligo pra outro,  avalio as possiblidades, calculo probabilidades. Se for em uma não dá pra ir na outra, é óbvio. Tenho que decidir. O problema da vida adulta é que exige muitas decisões

Preciso amadurecer.

Decido, após muita elocubração, ir na festa de fulana, pra ver se encontro beltrana. Que aparece com um outro cara. Maldita beltrana. E agora? Fulana nem olha para minha cara, outra insensível. Sou apresentado à sicrana. Agora vai.

Às seis da manhã de domingo estou voltando para casa. Sicrana é incrível. Será que ligo amanhã para ela? Vou parecer um pateta ansioso, melhor esperar, me fazer de difícil. Sério? A quem quero enganar? Sei que vou ligar já falando de filhos. Fulana, que não deu a menor condição, que se dane, sicrana é bem melhor. Será mesmo? E a beltrana, quem era aquele mané com ela? Fulana, beltrana, sicrana, a vida afetiva tomou conta da minha existência. Todo fim de semana é essa confusão, só mudam os nomes. Tenho que dar um jeito nisso, não posso passar o resto da minha em crise às seis da manhã de domingo.

Um dia isso vai acabar.

2016, sábado à noite

Acabo de chegar de uma festa infantil. Quatro horas entre brigadeiros, Coca-Cola e cachorro-quente. Agora é que o meu colesterol vai pras cucuias de vez. Tem um jantar para ir mas não tenho condições, a galinha pintadinha continua cacarejando na minha cabeça. Só me resta a TV. Como é sábado à noite, dia de loucuras e excessos desde sempre, lá vou eu para o telefone atrás de comida. Pizza? Mega trash burguer? Chinês gorduroso? Vou enfiar o pé na jaca, meia-idade style. Hummm, olha a promoção! Levando a pizza ultra giga premium ganho um refrigerante dois litros. Diet, pro sarcasmo vir de brinde. Como perder isso? Mais dúvidas: Calabresa? Marguerita? Pepperoni? Tem que ir na boa. Na boa!, afinal é sábado à noite. Também por ser sábado à noite a entrega demora e, quando aparece, filho e mulher já estão dormindo. E agora? Como tudo ou deixo algo para amanhã? Malditas decisões, essa vida adulta não acaba nunca!

Preciso amadurecer.

Descubro um seriado novo no Netflix e eu, glutão, como a pizza toda. Uns cinco milhões de calorias, sem contar os dois litros de refrigerante. E nem vou falar do colesterol que veio junto com a calabresa.

Às seis da manhã de domingo estou acordando, tenho que levar o filho para o jogo. Não devia ter comido aquela pizza, muito menos toda. Agora tenho milhões de calorias para queimar e um colesterol para baixar, terei que passar o resto da vida na academia. Tudo isso pelo olho grande de comer a pizza inteira. Devia ter comido só uma fatia, não aprendo. E pra quê tanto refrigerante? Essa briga entre calorias e academia tomou conta da minha existência, todo fim de semana é isso. Tenho que dar um jeito na situação, não posso passar o resto da minha vida com crise às seis da manhã de domingo.

Um dia isso vai acabar.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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