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Um futuro sem fumaça

Do fim do cigarro ao ocaso do petróleo, os rascunhos de uma sociedade um pouco mais sustentável


A China está entre os sete países do mundo que já anunciaram a proibição, para os próximos anos, da circulação de carros com motores a combustão. Foto Ding dong / Imaginechina
A China está entre os sete países do mundo que já anunciaram a proibição, para os próximos anos, da circulação de carros com motores a combustão. Foto Ding dong / Imaginechina

Imagine se você pudesse indicar três grandes setores industriais para desaparecerem de uma vez por todas do mundo? Segmentos da economia que, se deixassem de existir, tornariam a nossa vida no planeta um pouco melhor? Pensou? Não tenho dúvidas de que o cigarro está nessa lista. As perguntas provocativas e a resposta incisiva não são minhas e nem foram feitas por um ativista ambiental ou por uma inflamada liderança do movimento antitabagismo. Nada disso. Elas vieram da vice-presidente de Assuntos Corporativos da Philip Morris International, Gabriela Wurcel, para surpresa das cerca de 400 pessoas que lotavam o Teatro Santander durante o Congresso Sustentável 2018, promovido pelo CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável).

A melhor coisa que um fumante pode fazer, sem dúvida, é parar de fumar

Gabriela Wurcel
Vice-presidente de Assuntos Corporativos da Philip Morris International

Gabriela ainda foi mais longe e advertiu: “A melhor coisa que um fumante pode fazer, sem dúvida, é parar de fumar”. Em seguida ela começou a explicar o novo projeto da Philip Morris, que recebeu o sugestivo nome de “Futuro Sem Fumaça”. O objetivo da multinacional é deixar de fabricar e comercializar cigarros e oferecer aos fumantes, pelo menos aos que não querem ou não conseguem parar de fumar, um portfólio de produtos que evitam a queima do tabaco e reduzem os riscos para a saúde. A executiva não foi clara com relação aos prazos, mas disse que foram investidos cerca de US$ 4,5 bilhões em pesquisas e US$ 120 milhões na construção de um centro científico na Suíça.

Gabriela Wurcel, vice-presidente de Assuntos Corporativos da Philip Morris International, fala sobre o futuro sem cigarro. Foto Ulisses Matandos
Gabriela Wurcel, vice-presidente de Assuntos Corporativos da Philip Morris International, fala sobre o futuro sem cigarro. Foto Ulisses Matandos

A vice-presidente da Philip Morris também evitou dizer quais seriam as duas outras indústrias que ela expulsaria do planeta, tornando a Terra um pouco mais habitável. No entanto, uma das mais fortes candidatas a este posto também estava representada no Congresso do CEBDS: a indústria do petróleo. O presidente da Shell Brasil, André Lopes de Araújo, disse que o pico do setor vai, no máximo, até 2020, daí em diante é só ladeira abaixo. Ele defendeu claramente, para espanto de alguns, a taxação do carbono para que o dinheiro seja investido em energia renovável. Lembrou que a Shell vem investindo fortemente em Etanol e em biocombustíveis de segunda geração.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), a frota de veículos elétricos saltará de 3 milhões para cerca de 300 milhões nos próximos 20 anos. Pelo menos sete países do mundo já anunciaram que vão proibir a circulação de automóveis com motor a combustão nas suas ruas. O que varia é o prazo. A Noruega promete fazer isso até 2025, a Alemanha e a Índia até 2030, a França e o Reino Unido até 2040. A China e a Holanda também anunciaram, mas não estabeleceram uma data. O mesmo vale para montadoras como a Toyota e a BMW, que estão direcionando os seus recursos humanos e financeiros para a produção de carros elétricos e híbridos. No Congresso Sustentável 2018, em São Paulo, o presidente executivo da Ambev, Bernardo Paiva, garantiu que vai substituir toda a sua frota de caminhões, com 1.600 unidades, por veículos elétricos.

Cigarros e petróleo são, sem dúvida, boas escolhas. Mas qual seria o terceiro segmento da economia que, desaparecendo, poderia tornar o nosso mundo mais sustentável? O meu voto, em primeiro e segundo turnos, vai para a indústria das armas. Até para manter o slogan “Um futuro sem fumaça”. O tema voltou a ter espaço na campanha presidencial brasileira. E ainda há quem acredita que ter uma arma em casa é a solução para vários problemas. Não é. No início dos anos 80, após o assassinado de John Lennon, adesivos com a frase “Imagine um mundo sem armas” eram muito comuns nos automóveis. A campanha fez sucesso, mas deu poucos resultados.

André Lopes de Araújo, presidente da Shell Brasil, prevê que o pico do setor de petróleo irá até 2020, no máximo. Foto Ulisses Matandos
André Lopes de Araújo, presidente da Shell Brasil, prevê que o pico do setor de petróleo irá até 2020, no máximo. Foto Ulisses Matandos

As armas de fogo continuam provocando, todos os anos, cerca de 500 mil mortes no mundo. Nos Estados Unidos, onde os cidadãos têm entre 300 e 350 milhões de armas em suas mãos, o número de mortes é 25 vezes maior do que a média mundial. Os acidentes domésticos com armas e os suicídios estão entre as principais causas. Na Austrália, em 1996, uma tragédia no Port Arthur causou uma comoção nacional. Um homem atirou nos visitantes, matando 35 pessoas e deixando 23 feridos. Em questão de dias, uma coalizão de vários partidos aprovou o banimento das armas semiautomáticas e dos rifles no país. Com isso, o estoque de armas nas mãos de civis caiu 30% e o risco de morrer por tiros na Austrália foi reduzido em mais de 50%.

Difícil dizer se esses movimentos nas indústrias do cigarro e do petróleo representam o desenho de um futuro mais sustentável. Estão mais para rascunhos ou mesmo garatujas de formato duvidoso. Mais difícil ainda é pensar em um mundo sem armas. Entretanto, a simples ideia de poder escolher ou opinar sobre esse futuro já é um ótimo exercício. E você, o que faria? Quais indústrias você mandaria para o lixo da história?


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