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A esperança de Ítalo

Italiano que trabalhou na fábrica da Eternit no Rio ainda sonha com indenização


O italiano Ítalo, que trabalho na Eternit no Rio, ainda sonha com a indenização. Foto Janaína Cesar
O italiano Ítalo, que trabalho na Eternit no Rio, ainda sonha com a indenização. Foto Janaína Cesar

Ítalo Ferrero é um senhor de 77 anos de Casale Monferrato que carrega em seu corpo a asbestose, uma doença provocada pelo amianto.  Mas por ter trabalhado em uma fábrica da Eternit no exterior, não foi reconhecido como vítima pelo governo italiano. Sua história começa quando, em 1949, com 8 anos de idade, deixa o país em direção ao Rio de Janeiro. Sua família fazia parte de um seleto grupo de italianos encarregados de “levar o progresso” para o Brasil. Todos trabalhavam para a Eternit de Casale e se mudaram com as respectivas famílias para a cidade do Cristo Redentor que os acolheu de braços abertos. Mal sabia o Cristo e os italianos que o progresso chamado amianto se transformaria em doença, dor e morte.

Foi na cidade maravilhosa que Ítalo frequentou a escola e fez amigos. Cresceu vendo o pai imerso na poeira branca mesmo quando chegava em casa. Aliás, a casa era quase uma continuação da fábrica. Apenas um pequeno muro as separava. “Era tudo branco como o talco”, conta Ítalo. Ao terminar a escola, o pequeno italiano seguiu o caminho traçado pelo pai e foi trabalhar como eletricista no pedaço de sonho concreto na terra. “Trabalhei oito anos na fábrica e por oito anos engoli amianto. O contato era direto, na pele, na mão, na boca, no nariz, nos cabelos, na roupa. Tinha amianto para tudo que era lado. Não existia separação entre os setores, então quando o amianto era processado voava tudo.”

A estação de trem de Casale Monferrato, uma das sedes da Eternit na Itália. Foto Janaína Cesar
A estação de trem de Casale Monferrato, cidade de Ìtalo e uma das sedes da Eternit na Itália. Foto Janaína Cesar

O italiano conta que durante o dia o sol refletia nas grandes janelas e iluminava a parte interna da fábrica. “A gente via aquelas estrelinhas brancas que pareciam plumas voando por tudo o que é canto lá dentro”, diz.  “Naquela época não existia nenhuma proteção, nem máscara, nem nada.”

Ítalo voltou para a Itália em 1963 e viu, ano após ano, uma série de parentes morrerem de doenças provocadas pelo amianto. O  cunhado adoeceu de mesotelioma e, em 1989, deu o último respiro; em seguida viu a irmã morrer de câncer no intestino e o pai de tumor no fígado.  Anos mais tarde veio a saber que amigos italianos que haviam ficado no Rio também morreram de mesotelioma.  “Sou o único italiano que trabalhou na Eternit do Rio ainda vivo para contar a história”, diz Ítalo.

Em agosto de 2017, Ítalo esteve no Brasil porque no país existe a possibilidade de processar os fabricantes de amianto para haver uma indenização. “Estive na Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz – fazendo uma série de exames e o resultado foi que encontraram células de asbestose. Agora está tudo nas mãos dos meus advogados no Rio”, diz.  “Sei que a vida tem um princípio e um fim, mas não quero esse fim horrível. Sei o que significa morrer de mesotelioma, com dores horríveis, a base a morfina… Eu lembro o meu cunhado que dizia: é como se um cachorro me arrancasse o pulmão do peito”.


Escrito por Janaína Cesar

Janaína Cesar

Formada pela Universidade São Judas Tadeu, trabalha há 17 anos como jornalista e vive há 10 na Itália, onde fez mestrado em imigração, na Universidade de Veneza. Escreve para o Estadão, Opera Mundi, IstoÉ e alguns veículos italianos como GQ, Linkiesta e il Giornale di Vicenza. Foi gerente de projetos da associação Il Quarto Ponte, uma ONG que trabalha com imigração.

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