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O poder cicatrizante da quixaba

Composto retirado das folhas da planta da caatinga desenvolvido em pesquisa da UFC apresentou efeito antioxidante, anti-inflamatório e cicatrizante


Quixaba, planta da Caatinga, teve suas cicatrizantes e anti-inflatórias mapeadas em pesquisa da Universidade Federal do Ceará (Foto: Pedro Everson de Aquino)
Quixaba, planta da Caatinga, teve suas cicatrizantes e anti-inflatórias mapeadas em pesquisa da Universidade Federal do Ceará (Foto: Pedro Everson de Aquino)

(Por Síria Mapurunga/Agência UFC) – Estudar uma planta para conhecer seu poder cicatrizante e, ao mesmo tempo, ajudar a protegê-la do risco de extinção. A Sideroxylon obtusifolium, popularmente conhecida como quixaba, é uma árvore nativa do semiárido brasileiro, muito usada em doenças inflamatórias na medicina popular. Pesquisa desenvolvida no Laboratório de Farmacologia Bioquímica da Universidade Federal do Ceará acaba de dar um passo adiante na validação do uso de suas folhas para indicações terapêuticas semelhantes às da casca e entrecasca, mais especificamente em queimaduras, com resultados promissores.

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“Nós queríamos investigar algo comum na sociedade, que são as queimaduras, um agravo à saúde muito sério no âmbito do SUS”, explica Tamiris Goebel, que acaba de defender tese sobre o assunto, sob a orientação da professora Nylane Nunes, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia. O diferencial da pesquisa é investigar a aplicação do composto extraído das folhas da quixaba (a chamada fração metanólica ou DFSO-M) nesses processos inflamatórios mais agudos, que podem ser agravados se não forem amenizados no início. A fração, de acordo com a pesquisadora, atenua a inflamação promovendo uma cicatrização do ferimento mais adequada. O trabalho foi realizado no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC.

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O primeiro passo da pesquisa foi a investigação em protocolos in vitro (cultivo celular em ambiente controlado em laboratório) em células isoladas, presentes na pele, permitindo simular um processo de cicatrização. Depois de uma triagem, aplicou-se o composto em macrófagos (responsáveis pela defesa do organismo contra infecções e processos inflamatórios) e fibroblastos (atuantes na regeneração) oriundos de camundongos.

Se houvesse um investimento maior nesse tipo de projeto, o SUS economizaria muito. Porque as pessoas, dependendo das lesões, ficam internadas, e a internação proporciona altos custos para o hospital e para o sistema público

Tamiris Goebel
Pesquisadora da Universidade Federal do Ceará

O teste também aconteceu em queratinócitos humanos. “Nós tivemos excelentes resultados nos queratinócitos, pois essa fração estimulou a reepitelização, a partir da multiplicação e migração dessas células, indispensáveis à reconstrução da barreira de proteção da pele contra as agressões do meio ambiente a fim de proteger o ferimento.”

Em seguida, realizou-se um modelo experimental de queimadura superficial em camundongos, a chamada parte pré-clínica da cadeia de produção de medicamentos. Nesse tecido, o composto, aplicado em forma de creme dermatológico, apresentou efeito modulador, ou seja, atenuante da inflamação, estimulando uma cicatrização mais eficiente e mais rápida e impedindo o agravamento da queimadura. A sulfadiazina de prata, um antibiótico de referência do SUS para tratamento de queimaduras, foi usada como grupo de controle para avaliar o efeito do composto. Esse antimicrobiano, apesar da facilidade do acesso, pode causar resistência bacteriana, baixa penetração e atraso na cicatrização da lesão. “O resultado obtido com a fração foi benéfico. No entanto, mais estudos devem ser realizados, como a investigação de seu efeito antibacteriano e antifúngico, que pode ser ainda mais favorável para a aplicação em queimaduras”, adianta Tamiris.

A pesquisadora ressalta que os protocolos de pesquisa com animais receberam aprovação da Comissão de Ética no Uso de Animais da UFC, e os cremes dermatológicos foram produzidos por uma farmácia de manipulação veterinária de acordo com as Boas Práticas de Manipulação.

A quixaba pode alcançar até 18 metros de altura e, apesar de natural da caatinga. é encontrada no Pantanal e até no Rio Grande do Sul (Foto: Pedro Everson de Aquino)
A quixaba pode alcançar até 18 metros de altura e, apesar de natural da caatinga. é encontrada no Pantanal e até no Rio Grande do Sul (Foto: Pedro Everson de Aquino)

Vantagens para a preservação da espécie

A próxima etapa é isolar o composto e realizar testes clínicos em pacientes, com o objetivo de desenvolver futuramente um produto fitoterápico para o tratamento de feridas e queimaduras, aproveitando o potencial antioxidante, anti-inflamatório e cicatrizante da quixaba. Atualmente a casca e a entrecasca são bastante utilizadas pela comunidade, elevando o risco de extinção da planta. De acordo com Tamiris, o uso da folha tem vantagens com relação a essas partes: além de ser uma estratégia benéfica para a preservação da espécie vegetal, também apresenta um processamento mais fácil. “Estamos em processo de escrita e de submissão de artigos para que a comunidade científica tome conhecimento da quixaba, já que ela é pouco estudada. Acreditamos que essas publicações irão chamar a atenção a fim de validar outros usos não só pela medicina popular na cicatrização de injúrias, mas em processos dolorosos, infecções e doenças inflamatórias”, explica.

A vantagem de um creme à base de plantas, como a quixaba, para finalidades terapêuticas, é o baixo custo, o fácil acesso e a grande biodiversidade brasileira. “É bem simples de ser introduzido, por exemplo, nas Farmácias Vivas, sem envolvimento da indústria”, defende Nylane Nunes, orientadora da pesquisa. Os pacientes podem, ainda, receber as recomendações de um profissional da saúde treinado e produzir uma solução para ser utilizada na pele, já que a quixaba é comercializada em feiras de pequenas e grandes cidades. “É importante esse conhecimento para a população que não tem acesso a consultas e a remédios da medicina tradicional”, destaca Tamiris.

As queimaduras correspondem a 38% dos principais agravos atendidos pelo SUS no Brasil. Apesar das novas estratégias terapêuticas, os custos do tratamento de queimaduras ainda são bastante elevados. “Se houvesse um investimento maior nesse tipo de projeto, o SUS economizaria muito. Porque as pessoas, dependendo das lesões, ficam internadas, e a internação proporciona altos custos para o hospital e para o sistema público”, afirma Tamiris.

A orientadora da pesquisa, professora Nylane Nunes, com Tamiris Goebel: (Foto: Ribamar Neto/UFC)
A orientadora da pesquisa, professora Nylane Nunes, com Tamiris Goebel: objetivo é desenvolver produto fitoterápico para o tratamento de feridas e queimaduras (Foto: Ribamar Neto/UFC)

O estudo contou com a colaboração do Laboratório de Análise Fitoquímica de Plantas Medicinais, do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC, através do professor Edilberto Silveira, que forneceu a fração metanólica das folhas da planta. “Ele extraiu, fez todo o processo de fracionamento e conseguiu identificar um aminoácido, que é derivado da L-Prolina, precursor de fibras de colágeno, o NMP”, detalha a pesquisadora. Dessa maneira, buscou-se investigar seu potencial cicatrizante, primeiro, em feridas abertas (as chamadas lesões excisionais) induzidas em camundongos, em parceria com o Laboratório de Neurofarmacologia, através da professora Glauce Viana e um de seus alunos, Pedro Everson de Aquino.

Outro produto utilizado no tratamento de queimaduras  também fruto de pesquisa realizada no NPDM, da qual Tamiris Goebel participa atualmente em seu pós-doutorado  é a pele da tilápia. Esse biomaterial serve de curativo biológico e auxilia na cicatrização de pacientes com queimaduras, podendo diminuir a dor, evitar a perda de líquidos dos tecidos, prevenir contaminações e trazer maior comodidade, sem a necessidade da troca constante de curativos.

Da caatinga ao Rio Grande do Sul

Sideroxylon obtusifolium é conhecida popularmente por quixaba, quixabeira e rompe-gibão no Nordeste; coronilha e sombra-de-touro no Rio Grande do Sul; sapotiquiaba no Rio de Janeiro; laranjinha no Pantanal; e, em outros lugares do Brasil, por sacutiaba, maçaranduba-da-praia e miri. É característica do bioma da Caatinga e do cerrado, mas se estende até o Rio Grande do Sul e está presente também no Pantanal do Mato Grosso e no vale do São Francisco.

Pode alcançar até 18 metros de altura, com a casca do caule rugosa e fissurada. Apresenta uma copa densa e baixa, de folhas assimétricas, com flores pequenas amarelo-esbranquiçadas e perfumadas. Os frutos são pequenos, de tipo liso e polpa doce, com coloração de roxa-brilhante a preta quando maduros, geralmente a partir de março, durante o período chuvoso no Nordeste. A quixaba está entre as espécies da Caatinga ameaçadas de extinção.

*Agência UFC

82/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil

 

 

 

 

 


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