Paraíso tropical no Pacífico sofre com derramamento catastrófico de óleo

Mancha de óleo sobre os recifes na costa das Ilhas Maurício: ameaça à diversidade no Oceano Pacífico (Foto: AFP)

Moradores das Ilhas Maurício protestam contra demora na reação do governo e voluntários agem para tentar minimizar desastre ambiental

Por The Conversation | ODS 14ODS 15 • Publicada em 14 de agosto de 2020 - 09:04 • Atualizada em 19 de agosto de 2020 - 08:50

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Mancha de óleo sobre os recifes na costa das Ilhas Maurício: ameaça à diversidade no Oceano Pacífico (Foto: AFP)

*Adam Moolna

Na noite de sábado, 25 de julho, o MV (Merchant Vessel) Wakashio encalhou em recifes de coral no sudeste das Ilhas Maurício, país formado por ilhas no Oceano Índico, e conhecido pelas praias, pelas lagoas e pelos recifes. O navio – um graneleiro de propriedade japonesa, mas registrado no Panamá – projetado para transportar mercadorias não embaladas, como carvão ou grãos, estava sem carga, mas tinha cerca de 200 toneladas de diesel e 3.800 toneladas de óleo combustível pesado a bordo. O navio ficou encalhado por mais de uma semana antes que rachaduras surgissem em seu casco.

O óleo combustível começou a vazar na extensa lagoa azul turquesa fora da vila costeira de Mahébourg. Imagens de satélite impressionantes mostram o derramamento de óleo resultante tecendo uma mancha negra entre o continente em Pointe D’Esny e a ilha redonda de Ile-aux-Aigrettes. Os impactos vistos de perto são horríveis. Em 7 de agosto, quase duas semanas após o naufrágio, o governo declarou o incidente como uma emergência nacional. Depois de, pelo menos, mil toneladas de óleo combustível já terem sido despejadas na lagoa, dois navios foram acionados para transferir o combustível restante, em uma corrida contra o tempo, enquanto o navio ameaçava se partir em dois.

Eu sou um mauriciano que mora no Reino Unido e visito a casa do meu pai em Mahébourg uma ou duas vezes por ano. O litoral afetado é a orla marítima no final da nossa rua e as praias onde nadamos e fazemos piquenique. É assustador e estranho escrever isso a 10 mil quilômetros de distância, mas é inspirador ver as pessoas locais agindo e se unindo.

O MV Wakashio encalhado em recifes de coral: mais de mil toneladas de óleo derramados em paraíso tropical (Beekash Roopun /L'Express Maurice/AFP)
O MV Wakashio encalhado em recifes de coral: mais de mil toneladas de óleo derramados em paraíso tropical (Beekash Roopun /L’Express Maurice/AFP)

Derramamentos como esse prejudicam a vida marinha porque os produtos químicos que compõem o petróleo são tóxicos para plantas e animais, incluindo florestas de mangue e corais que constroem os recifes. Embora os óleos pesados ​​pretos e pegajosos usados ​​para abastecer navios sejam menos tóxicos do que os óleos leves como diesel ou petróleo, eles persistem por mais tempo e sufocam a vida no mar e na costa. Os efeitos ecológicos se propagam pelos ecossistemas marinhos e terrestres interconectados.

É muito difícil prever quão severos serão os impactos nas Ilhas Maurício – e quando e como o ambiente pode se recuperar – mesmo a partir de análises detalhadas de estudos de caso e ecologia de manguezais e recifes de coral. Existem muitas variáveis, incluindo a complexidade dos ecossistemas, que mistura de óleo foi derramada e como a limpeza foi tentada, o que também pode ter impactos ambientais negativos.

Biodiversidade ameaçada

Os 22 hectares de mangue do Pointe D’Esny Wetlands (aproximadamente a área de 22 campos de futebol) são considerados área Ramsar –  zona úmida classificada como local de importância ecológica internacional para pântanos. Os manguezais abrigam espécies e habitats de importância para a conservação e viveiros de peixes que apoiam a pesca costeira. Ao longo da estrada costeira ao sul está o Blue Bay Marine Park, outro local Ramsar, com 353 hectares de recifes de coral, prados de ervas marinhas e mais manguezais. É o lar de tartarugas, 72 espécies de peixes e uma diversidade excepcional de corais de 38 espécies de 15 famílias.

A Ile-aux-Aigrettes, uma ilhota na costa sudeste do país, em frente a Pointe D’Esny, tem a última floresta costeira de ébano remanescente nas Ilhas Maurício: passei três meses vivendo como voluntário na ilha durante a minha juventude. A espécie costeira de ébano é uma das 11 espécies endêmicas de ébano remanescentes no país; uma décima segunda está extinta. Esta reserva natural insular de 27 hectares deve o seu nome às garças: várias espécies de patas compridas e penas brancas da família das garças pescam nestas costas.

Esforços de conservação bem-sucedidos restauraram o número de Pink Pigeon, uma das aves mais raras do mundo em 1990, em Ile-aux-Aigrettes. Foi trazido para a ilha pela Fundação da Vida Selvagem das Ilhas Maurício, a instituição de caridade de conservação que restaurou meticulosamente os seus ecossistemas. Os conservacionistas foram ajudados pela reintrodução de tartarugas gigantes soltas que atuam como engenheiros ecológicos na restauração de várias ilhas costeiras.

Os pescadores locais dependem da lagoa agora poluída por óleo para seu sustento e a população local depende dela para a maioria dos peixes que comem. Muitos pequenos negócios locais, muitas vezes familiares, como pousadas, agências de turismo, restaurantes e lojas de souvernirs são voltados para os turistas atraídos pelo belo mar, praias e natureza que os mauricianos desfrutam todos os dias.

Voluntários trabalham para recolher óleo nas praias das Ilhas Maurício: moradores reclama da falta de ação das autoridades (Beekash Roopun /L'Express Maurice/AFP)
Voluntários trabalham para recolher óleo nas praias das Ilhas Maurício: moradores reclama da falta de ação das autoridades (Beekash Roopun /L’Express Maurice/AFP)

E parece que o derramamento de óleo pode devastar a maior parte da costa leste das Ilhas Maurício. Isso inclui trechos mais ao norte que hospedam uma grande parte dos hotéis costeiros de luxo. O coronavírus fechou o turismo internacional desde março. Teria sido uma recuperação lenta mesmo sem a degradação ambiental.

Voluntários em ação

O MV Wakashio naufragou quase no mesmo local onde um veleiro britânico de casco de aço, o Dalblair, naufragou carregando carvão para as Ilhas Maurício em 1902. Os restos irregulares de seu casco em decomposição aparecem até hoje como um marco acima das ondas – o que ironicamente, à luz do dia, devia servir como um aviso para outros navios.

Após o derramamento de óleo da embarcação japonesa, a visão habitual de famílias passeando à beira-mar foi rapidamente substituída por voluntários trabalhando duro em um esforço popular para proteger sua costa. Com palha dos campos de cana-de-açúcar transformada em barragens flutuantes caseiras, grupos auto-organizados de pessoas locais e ativistas implantaram esses dispositivos improvisados por quilômetros de costa com sucesso evidente, interrompendo a expansão da mancha e absorvendo o petróleo.

O governo disse aos voluntários para pararem e deixarem os esforços para as autoridades. Mas as pessoas e as organizações locais estão continuando sua criação e implantação de barragens, que é a única ação aparente para lidar com o petróleo que flutua no mar. Para os voluntários, parece melhor arriscar uma multa ou prisão do que parar. E o sentimento local parece ser unanimemente negativo sobre a resposta lenta do governo e a falta de ação visando barrar a mancha.

Moradores acompanham operação para retirar o resto do óleo do navio encalhado: impacto no meio ambiente, na pesca e no turismo (Beekash Roopun /L'Express Maurice/AFP)
Moradores acompanham operação para retirar o resto do óleo do navio encalhado: impacto no meio ambiente, na pesca e no turismo (Beekash Roopun /L’Express Maurice/AFP)

Por que a desconfiança? Há apenas quatro anos, em 17 de junho de 2016, outro graneleiro, o MV Benita, encalhou em Grand Port, a apenas 7 km ao longo da costa ao sul. Eu estava nas ilhas quando isso aconteceu e olhei para o MV Benita (que tinha um quinto da capacidade de carga do MV Wakashio) da praia de Blue Bay.

Teria havido uma luta a bordo e o navio havia perdido força, antes de ser levado para as Ilhas Maurício – sem chamar a atenção da guarda costeira nacional. A embarcação ficou lá por cinco semanas antes de ser finalmente conseguir voltar a navegar – felizmente, o óleo foi retirado sem grande derramamento ou ruptura do tanque. Ele estava sendo rebocado para ser sucateado na Índia quando afundou 90 quilômetros da costa das Ilhas Maurício.

Evidências de satélite sugerem que, em julho de 2020, o MV Wakashio estava em rota de colisão direta com as Ilhas Maurício por vários dias e atingiu os recifes em Pointe D’Esny com velocidade de cruzeiro oceânica mantida, o que significa que o governo provavelmente foi novamente pego de surpresa. A mesma evidência sugere que demorou seis dias para que o governo enviasse um rebocador para tentar fazer o navio flutuar.

A recente tragédia de Beirute – uma explosão mortal de nitrato de amônio em armazenamento portuário de longo prazo – e agora este incidente nas Ilhas Maurício levanta questões sobre governança e segurança no transporte marítimo internacional. Os navios podem ser registrados (sinalizados) em qualquer país, o que significa que os proprietários podem encontrar jurisdições com menos regulamentações. Como um artigo da Forbes sugeriu: “Não está claro o quão eficazes os reguladores das nações de bandeira foram em garantir a segurança do navio, porto, tripulação e locais por onde o navio viajou”. Isso precisará ser investigado.

As Ilhas Maurício são talvez mais conhecidas pelo pássaro que não voa – o dodô, pássaro extinto que se tornou um símbolo da ilha e também da ameaça humana a outras espécies. O trágico caso do dodô se tornou uma lição para os ambientalmente conscientes que desenvolveram o movimento conservacionista moderno. Se o encalhe do MV Wakashio e a consequente destruição do meio ambiente e dos meios de subsistência do lugar servir como  lição para os líderes mundiais capazes de promover mudanças, talvez possamos finalmente ter a navegação internacional adequada para o mundo moderno.

*Professor de Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Keele (Grâ=Bretanha)

(Tradução de Oscar Valporto)

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