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Polícia em alta na França pós-atentados

Procura por cargos ligados à segurança cresce quase 50%. Maioria dos candidatos tem curso superior


Concursos abertos para integrar a polícia francesa bateram recorde de inscrições: 47% a mais do que ano anterior. Ou seja, 24.700 candidatos para 3.700 novos postos
Concursos abertos para integrar a polícia francesa bateram recorde de inscrições: 47% a mais do que ano anterior. Ou seja, 24.700 candidatos para 3.700 novos postos

Quem foi no show da Maria Gadu em Paris no domingo, dia 13 de março, exatos 5 meses após os atentatos, percebeu que já não se vai mais à concertos como se ía antigamente…. Quatro controles diferentes na entrada que não ficam nada a dever aos controles mais severos de aeroportos… Bolsas e casacos passaram por uma revista minuciosa e detalhada. Depois, homens de um lado e mulheres de outro para uma “apalpação” em busca de armas ou cinturões de explosivos.  O New Morning estava lotado de estrangeiros – a grande parte da platéia era composta de patrícios, como eu, matando a saudade da terrinha – e talvez isso fizesse dele um alvo de atentados… pelo sim pelo não, tratei de me posicionar perto de uma saída de emergência e relembrei o passo-a-passo fartamente espalhado pela cidade para se defender no caso de um atentado.

A última vez em que a população gritou “viva os policiais” foi em 24 e 25 de agosto de 1944 quando um desfile celebrou a liberação de Paris.

Mas Paris não é só festa, ao contrário do que escreveu Ernest Hemingway, e os atentados obrigaram os parisienses a viver e se divertir de uma forma mais prudente. Quem fala em prudência e segurança pensa no poder público e na polícia. E aí vem mais uma revelação do que é viver no estado de alerta. Antes dos atentados de Paris, ninguém imaginaria a população saudando os policias. Pois bem, o policial aqui alcançou o nível de ídolo, herói nacional. A última vez em que a população gritou “viva os policiais” foi em 24 e 25 de agosto de 1944 quando um desfile celebrou a liberação de Paris. Esse mesmo processo de “heroificação” aconteceu com os bombeiros de Nova York, logo apos os atentados às torres gêmeas.

Desde as passeatas de 11 de janeiro 2015, quando a população aplaudiu os policiais e alguns chegaram mesmo a receber flores e beijos, já dava para notar que a imagem da polícia tinha mudado.

O assassinato de um policial no ataque ao Charlie Hebdo, as cenas da polícia especial invadindo o Bataclan para liberar os reféns e todas aquelas cenas que se seguiram, criaram uma verdadeira revolução cultural nos jovens que passaram a considerar seriamente seguir uma carreira como policial: uma profissão útil e reconhecida. Numa recente feira destinada à estudantes em busca de uma oportunidade para começar sua vida profissional, o stand da Polícia Nacional atraiu pela primeira vez enorme fluxo de jovens estudantes. Depois dos atentados, eles ficaram menos críticos com relação ao papel da poícia e mais interessados na proteção do país e da população.

Bom, isso talvez explique o enorme interesse e o recorde de inscrições para os próximos concursos abertos para integrar a polícia francesa: 47% a mais de candidatos em um ano, ou seja, 24.700 candidatos para 3.700 novos postos. 13.500 visitas por dia nos sites de recrutamento da polícia contra 4.700 antes dos atentados.  O perfil dos candidatos também mudou: hoje praticamente a metade tem nível superior enquanto nos anos 70, o índice era de apenas 1%.

Se a população, e os jovens em particular, estão revendo seus conceitos com relação à polícia, algumas vozes começam a denunciar os abusos cometidos, e admitidos, enquanto vigorar o estado de alerta. Cerca de 400 mandatos de prisão domiciliar, realização de busca e apreensão a qualquer hora do dia ou da noite, sem autorização judicial, afrontam a liberdade individual prevista na Declaração dos Direitos do Homem e que é a base da constituição francesa. Essa afronta levou cinco ex-condenados à prisão domiciliar a entrar com uma ação contra o ministro do Interior Bernard Cazeneuve por privação de liberdade indivuidual, discriminação religiosa, danos materiais – eles perderam seus empregos – e danos morais.  Eles se enquadram no perfil estereotipado do terrorista: homens, entre 30 e 50 anos e de religião muçulmana. Segundo um dos advogados, seu cliente ficou em prisão domiciliar pois foi encontrado embaixo do prédio do Charlie Hebdo tirando fotos quando, na verdade, ele estava ligando para a mãe…

Lei é lei, mas elas se adaptam

Fumar ainda faz parte dos arraigados hábitos da cultura francesa e basta passar em frente a um colégio para se assustar com o número de adolescentes que fumam na porta da escola. Fumam na porta porque uma lei em vigor desde 1991, proibia o fumo no interior das escolas. Proibia até novembro pois graças aos atentados, cabe ao diretor de cada escola avaliar o risco e liberar o fumo no interior das escolas. A alegação de alguns diretores é que com tanta gente saindo para fumar na mesma hora – os intervalos das aulas – os fumantes virariam um alvo fácil para novos ataques. Há controvérsias. Segundo Dr Alain Rigaud, presidente da Associação Nacional de Prevenção ao Alcool e Tabagismo, a medida é suicida e um verdadeiro “tiro no pé”: “A longo prazo, o fumo mata um em cada dois fumantes. Isso significa que, nos próximos 30 anos, 125 mil desses que hoje são estudantes morrerão de causa associada ao fumo. Isso é muito mais do que qualquer atentado terrorista”.

Ainda na área da saúde, um outro dado alarmante diz respeito às vítimas diretas e indiretas dos atentados. Além dos 130 mortos e mais de 300 feridos, há ainda uma população calculada em 4.000 pessoas que são consideradas vítimas – mesmo tendo sobrevivido aos ataques e sem ferimentos visíveis, elas carregam traumas que precisam ser tratados. O governo francês rapidamente mandou instalar postos em hospitais que oferecem tratamento psicoterapêutico à essas vitimas. Uma delas, que sobreviveu ao Bataclan, procurou ajuda para enfrentar o trauma e voltar a ter uma vida normal. Normal, mas sem casa própria. A seguradora, que deveria aprovar o pedido de crédito imobiliário que ela tinha feito antes dos atentados, simplesmente negou o crédito pois não acredita que ela possa ser capaz de pagar seu empréstimo no futuro. Diante da pressão da opinião publica, a seguradora prometeu reestudar o caso. Será?


Escrito por Marlene Oliveira

Jornalista e profissional de comunicação, vive em Paris e conhece bem a ebulição do ambiente corporativo. Acredita que a queda do império romano "é pouco" perto das transformações que a sociedade está vivendo mas, otimista até a raiz dos cabelos, acredita que dias melhores virão. Inxalá!

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