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Na Austrália, mineradoras enfrentam alarmante índice de suicídios

País vislumbra crescimento do mercado com o desastre de Brumadinho, mas também enfrenta problemas


Minério de ferro sendo transportado por trem em Dampier, na Austrália (Foto: PAUL MAYALL / PICTURE ALLIANCE / DPA PICTURE-ALLIANCE / AFP)
Minério de ferro sendo transportado por trem em Dampier, na Austrália (Foto: PAUL MAYALL / PICTURE ALLIANCE / DPA PICTURE-ALLIANCE / AFP)

SYDNEY – A tragédia do rompimento da barragem em Brumadinho e a posterior decisão da Vale de paralisar a operação de cerca de 10% de sua produção abriu espaço para que a Austrália busque suprir a demanda global por minério de ferro. Mas como nem tudo que reluz é ouro, o país também enfrenta ao longo dos anos uma série de desastres, muitos relacionados a explosões, além de um alarmante índice de suicídios (que, em um intervalo de três anos, se equipara ao número de desaparecidos em Brumadinho) e de abuso de álcool por parte dos mineradores.

Só no estado de New South Wales (NSW), a mineração emprega mais de 40 mil pessoas em diversas funções, segundo dados de janeiro, o que representa mais de AUD$ 10 bilhões (R$ 26 bilhões) em salários anuais, segundo Stephen Galilee, chefe-executivo do NSW Mineral Council. Financeiramente, o retorno para o trabalhador pode ser tentador: é possível ganhar mais de AUD$ 3 mil por semana, trabalhando-se uma média de 12 horas por dia, por duas semanas ininterruptas, num esquema chamado de FIFO (fly in, fly out), algo como um trabalho embarcado. Entretanto, o custo emocional também é alto para muitos. Além do isolamento geográfico dos locais de exploração, sobram reclamações sobre as condições de alojamentos, considerados apertados, com vista para o pó e com um péssimo sinal de internet; impedindo trabalhadores de falar com familiares. Em algumas regiões, há minas consideradas insalubres em função de altas temperaturas e até pela incidência de ciclones.

A mineração é uma área muito depressiva, ainda mais ficando 15 dias longe da família e da civilização

Raphael Remigio
Engenheiro brasileiro que trabalha na mineração australiana

Esses fatores podem explicar o fato de a profissão liderar o ranking de suicídios entre homens no país, que reportou 239 mortes só entre 2011 e 2014. É quase o número de mortos e desaparecidos em Brumadinho, que até o fechamento desta reportagem, somavam 348 pessoas. Além disso, o desenfreado abuso de substâncias como o álcool e drogas ilícitas é outra questão a ser enfrentada pelas empresas.

Com nove anos de experiência em mineração na Austrália, o brasileiro Thiago Laranjeiro, atualmente técnico de pesquisas, já sentiu na pele o lado mais difícil desse trabalho: “A questão do álcool é bem séria tanto no campo da pesquisa quanto na exploração. Em algumas minas, há uma restrição da quantidade de álcool que você pode beber por dia. Houve uma época muito difícil para mim, quando trabalhei com caminhões, em função do isolamento e de uma separação. Cheguei a dormir com um segurança da empresa na porta do quarto, pois eles acharam que estava com tendências suicidas. Tive todo o suporte da empresa, não posso reclamar, mas chegou um ponto em que não tive mais condições de trabalhar 12 horas por dia”, confessa o técnico de pesquisas.

Há dois anos na Austrália e atualmente estagiando numa empresa terceirizada que dá suporte a uma grande mineradora, o engenheiro Raphael Remigio reforça os riscos da profissão: “Se a cabeça ficar ociosa, é um perigo. A mineração é uma área muito depressiva, ainda mais ficando 15 dias longe da família e da civilização”, diz ele. Já as acomodações, pela sua experiência, são satisfatórias. “Tem restaurante, academia, quarto individual com ar-condicionado e banheiro, lavanderia… É bom porque não gera gasto”, revela ele, que atua como blast crew, responsável por carregar o solo com explosivos e transporte do material para a usina.

Thiago pondera que a realidade varia muito de acordo com o tempo de exploração da mina e o orçamento do projeto: “Trabalhei numa mina de ouro com mais de 100 anos de exploração, então a infraestrutura era bem precária. Na pesquisa, ou você dorme numa barraca, ou numa cama em uma tenda. Só que a pesquisa é isso, você fica lá no meio do mato, 600 km longe da civilização. Por outro lado, não tem miséria em relação à comida. A empresa te dá um cartão para ir ao mercado e se você gastar 800 dólares, ninguém vai reclamar”, relata.

Um mercado fechado, mas com muitas oportunidades 

De 2016 a 2017, as vendas de minério de ferro no país bateram recorde de 790 milhões de toneladas, montante avaliado em AUD$ 36,6 bilhões (cerca de US$ 97 bilhões). A expectativa de desabastecimento pela brasileira leva especialistas internacionais a acreditar que a Rio Tinto vá ocupar a liderança mundial. Outras australianas como BHP Bilinton e a Fortescue Metals Group (FMG) também podem se beneficiar. Na quinta-feira, dia 31, o preço do minério de ferro também atingiu sua maior alta mundial desde março de 2017.

A legislação no Brasil não é muito rígida, o que incentiva a empresa a optar por esse modelo de barragem

Nomafa Mac Intosch
mestre em Engenharia da Mineração pela University of New South Wales (UNSW Sydney)

Há cinco anos, a Austália protagonizou um novo boom mineiro, impulsionado em parte pelo aumento da demanda no setor de infraestrutura em NSW. No ano passado, havia cerca de mil postos de trabalho em aberto. Isso porque os australianos não querem fazer este tipo de trabalho, ainda mais com a economia aquecida do país. A questão levou a um projeto de inclusão da profissão na lista de profissionais requisitados pela Austrália, com o objetivo de atrair mais imigrantes para as vagas. O aumento recente já é visível, o que incitou os australianos a protestarem nas redes sociais: muitos acusaram as empresas de substituir os nativos com experiência por estrangeiros para reduzir custos, ao mesmo tempo em que a remuneração começou a se deteriorar. O salário que costumava ser de AUD$ 40 por hora, passando para AUD$ 60 após oito horas consecutivas e dobrando para AUD$ 80 aos fins de semana, passou em média para AUD$ 55, independentemente do número de horas trabalhadas. Muitos também passaram a acusar os imigrantes de “aceitarem tudo”, aquecendo ainda a fogueira anti-imigração.

“Esse mercado é um pouco fechado, sim. Vejo que a maior parte da mão de obra ainda é australiana, neo-zelandesa e aborígene. Só no último ano, comecei a ver mecânicos indianos e de outras nacionalidades. Os brasileiros começaram a aparecer mais agora”, conta Thiago, atribuindo isso ao fato de as vagas serem muito divulgadas no boca a boca. “Mesmo com a graduação em Engenharia de Minas, levei um tempo para conseguir alguma coisa por aqui e conheço outros na mesma situação, que só conseguiram trabalho com muita dificuldade”, completa Raphael.

Mina em Pilbara, na Austrália (Foto: PAUL MAYALL / PICTURE ALLIANCE / DPA PICTURE-ALLIANCE / AFP)
Mina em Pilbara, na Austrália (Foto: PAUL MAYALL / PICTURE ALLIANCE / DPA PICTURE-ALLIANCE / AFP)

Apesar da dificuldade relatada pelo engenheiro, as relações entre as empresas brasileiras e australianas são de longa data. A BHP Billinton, atualmente a maior da Austrália, é parceira comercial da Vale e dona de 50% das ações da Samarco, sendo diretamente ligada ao desastre em Mariana. Após o rompimento da barragem em 2015, as duas empresas criaram a Fundação Renova com o objetivo de “implementar um conjunto de programas de remediação e compensação para lidar com os impactos causados pelo rompimento da barragem de Fundão”. Mas até hoje, nada saiu do papel. Segundo o site do braço brasileiro da BHP, só em 1º de agosto de 2018, a Secretaria Estadual de Cidades e de Integração Regional (Secir) deu a concessão das duas últimas licenças para a construção de um reassentamento, a “nova Bento Rodrigues”, para acomodar 225 famílias afetadas pela tragédia.

O lobby das mineradoras, que sempre financiaram a eleição de políticos, é apontado como um dos motivos de as propostas de mudanças na Lei Ambiental brasileira terem sido paralisadas na Câmara. A questão da legislação, cujo afrouxamento é discutido pelo governo Bolsonaro, é apontada por Nomafa Mac Intosch, mestre em Engenharia da Mineração pela University of New South Wales (UNSW Sydney), como uma das causas do desastre em Brumadinho:

“A legislação no Brasil não é muito rígida, o que incentiva a empresa a optar por esse modelo de barragem, muito mais barato. Se a área onde ela for construída tiver um clima mais seco – como é aqui na Austrália, que tem barragens como as de Brumadinho -, é mais seguro, pois o material se solidifica com o tempo. Entretanto, se a barragem estiver num local de floresta tropical ou com muitas chuvas, ela pode se liquefazer, causando deslizamento de lama. Qualquer um da área sabe disso, é o básico”, explica.

Não que na Austrália também não tenha tido acidentes. Ao analisar a história da mineração na Austrália, que já foi responsável pela produção de 40% do ouro consumido mundialmente, nos anos 1850, também encontramos uma sequência de desastres, muitos relacionados a explosões. Um dos mais recentes ocorreu em 2006, com o desmoronamento de uma mina na Tasmânia, no qual um homem morreu soterrado e dois só foram resgatados com vida após duas semanas. Em março de 2018, uma barragem de rejeitos também se rompeu em Cadia, mas o material foi contido por outra barragem e não causou vítimas.


Escrito por Rafaela Prado

Rafaela Prado

Jornalista com especialização em Marketing pela FGV, atuou em revistas e sites, tendo passado por publicações das editoras Abril e Escala e pela Globo.com. Trabalhou com Comunicação Empresarial e Sustentabilidade, dedicando muitos anos também à assessoria de imprensa nas áreas de negócios, gastronomia, educação, saúde e beleza. Também atuou em investigação de fraude, projetos infantis e cobertura policial.

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Um Comentário

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  1. Há um elevado índice de suicídios nas cidades mineradoras em MG, sendo Itabira uma delas contudo, não há um protocolo adequado de controle desse tipo de problema pelos órgãos públicos de segurança e saúde do Trabalho.

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