Colégios dE Amazonas, Bahia, Pará, Paraíba e Sergipe mostram como driblar o ciclo vicioso do baixo desempenho educacional

 

Reportagem
Fernanda Baldioti, do #Colabora, e Fernanda Lima, do jornal “Correio da Bahia”

Infográficos
Fernando Alvarus

Colégio Estadual Democrático Quitéria Maria de Jesus

41
IDEB 2017

4,1

 

36
META 2017

3,6

 

10
IDEB 2007

1,0

De longe, o Colégio Estadual Democrático Quitéria Maria de Jesus mais parece um enorme depósito. Ocupa uma área de terra e árvores secas no bairro Tancredo Neves I, o mais populoso de Paulo Afonso, município no nordeste da Bahia, com 40 mil moradores. Em 2010, quase deixou de fazer parte da paisagem. As condições de funcionamento eram inviáveis, os alunos começavam se distanciar, tudo indicava para o fim da história do espaço. É quando tem início a reinvenção da unidade, que hoje celebra um dos três maiores crescimentos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da Bahia, levando-se em consideração a avaliação das escolas públicas nos anos finais (8ª série / 9º ano) do ensino fundamental. A escola saltou da nota 1, em 2007, para 4.1, em 2017, superando a meta, que era de 3.6. Uma exceção na Bahia, cuja média de 3.4, atingida no ano passado, pôs o estado, junto ao Rio Grande do Norte e ao Sergipe, na liderança dos piores desempenhos no indicador, que revela a qualidade da educação básica.

Para contar histórias vitoriosas de colégios como o Quitéria Maria, que, apesar de estarem nos estados que amargam as piores colocações em determinados índices educacionais do país, conseguem bons resultados nos rankings de avaliação, o #Colabora inicia aqui a série “Remando contra a maré: o segredo das escolas campeãs em superação”, em parceria com a agência “Amazônia Real” e com o jornal “Correio”.

Com base em alguns indicadores divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), como as notas do Ideb, as taxas de Distorção Idade-Série e de Abandono, e a Infraestrutura das escolas (avaliadas a partir de dados do Censo escolar), vamos mostrar como algumas escolas do Amazonas, da Bahia, do Pará, da Paraíba e do Sergipe conseguiram evoluir, mesmo diante do cenário adverso.

Coordenadora de projetos da ONG Todos pela Educação, Thaiane Pereira lembra que o Brasil venceu, de modo geral, a questão do acesso à escola, mas agora precisa lutar para superar o desafio da aprendizagem, como mostram algumas tristes estatísticas reveladas por esses indicadores. No Pará, por exemplo, 51,2% dos alunos que cursam ensino médio nas escolas públicas estão com dois ou mais anos de atraso escolar. Na Paraíba, a taxa de abandono dos estudantes de escolas públicas do ensino fundamental chega a 4,6%, a maior do país.

“Apesar de as crianças e jovens estarem na escola, eles não estão aprendendo o necessário. Por isso é preciso, muitas vezes, repensar a proposta pedagógica, criar um novo modelo que seja mais atrativo, especialmente para o jovem, que dialogue com o que ele está vivendo na adolescência. Daí a importância de analisarmos o que escolas têm feito para superar o abandono escolar, como cresceram no Ideb…”

Integrar escola com a comunidade foi uma das estratégias do Quitéria Maria de Jesus (Foto: acervo da escola)

No colégio Quitéria Maria de Jesus, por exemplo, os estudantes, ou trabalhavam para ajudar no sustento da casa ou iam para a aula desmotivados. A escolha era óbvia. E a uma filha de semianalfabetos, nascida em Custódia, Pernambuco, empossada diretora em 2008, coube a liderança do desafio de inverter a lógica da equação. A nova diretora, Maria Edinalva Freitas de Siqueira, e os 25 professores, seis deles nascidos e criados na região, perceberam no elo entre o bairro e a escola boa parte da solução dos problemas. A mudança nas notas começou, em parte, fora das salas de aulas.

A apatia dos alunos era muito causada pela falta de percepção da utilidade dos estudos para a vida naquela região pobre. Enquanto estudavam matemática, muitos pais sequer tinham pisado numa sala de aula. O colégio começou, então, a pensar formas de integrar ao máximo o bairro à vida escolar. Durante o São João, os vizinhos da Rua Treze de Maio foram responsáveis, por exemplo, por escolher o casal do casamento junino. A festa do dia 24 de junho passou, então, a ser realizada no pátio do colégio, com a presença de visitantes. As mães e os pais também começaram a ser chamados para participar de cursos oferecidos no final de cada dia letivo e uma nova rotina de palestras e debates foi instituída.

“Os pais começam a se sentir mais próximos, os filhos mais encorajados”, acredita a coordenadora, Maria Neide Targino.

Quando chegou ao colégio, o hoje professor de história Geraldo Flor, 51, ainda era um jovem de não mais que 12 anos. Estudou na primeira sede da unidade, improvisada numa lavanderia, acompanhou a mudança para o antigo cinema da cidade e, depois, para uma sala emprestada em outra escola, até que, finalmente, chegou à atual sede, em 1983. Foi dele uma das iniciativas de agregar a comunidade para transformar desânimo em empolgação.

A integração com a comunidade precisou ser acompanhada de projetos mais específicos dentro das salas de aula. O primeiro plano chegou ainda em 2008, numa ação do governo federal, o Mais Educação, para reforçar o aprendizado. Depois, já em 2010, o Gestar, criado pelo governo do estado, foi implantado. A ideia era estimular aulas mais dinâmicas. Foi aí que os alunos passaram a falar em faculdade, cursos, profissões, e até começaram a frequentar universidades próximas, onde aprenderam conceitos como empreendedorismo. Pouco era o espaço para o desânimo.

“A gente começou a trilhar caminhos definitivamente integradores”, acredita a diretora.

Os números comprovam a eficácia da estratégia. Se comparada ao Ideb de estados como Goiás (5.1) e Santa Catarina (5), a nota 4.1 do colégio Quitéria Maria pode parecer baixa. Mas o crescimento em dez anos evidencia o trabalho que tem sido feito ali. Para a pedagoga e mestre em Educação Maíra Gallotti Frantz, ao se trabalhar com indicadores, é fundamental fazermos esta avaliação da série histórica para entendermos como se deu uma evolução significativa e constante de determinada instituição de ensino. Ela alerta ainda que o tratamento destinado às escolas com menores ou maiores avanços precisa ser observado à luz do contexto em que o colégio se insere:

“O Ideb, por exemplo, é um importante instrumento para avaliação das políticas públicas educacionais. Porém, ele pode acabar imputando às escolas um peso negativo sobre o trabalho docente. Por isso, acredito que, mais do que olhar quais as que estão no topo ou em posições inferiores, é interessante observarmos a evolução de determinada escola ao longo dos anos. Assim é possível inferir os esforços coletivos dos profissionais da educação”.

Ernesto Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências do Debate Educacional (Iede), entidade que trabalha com dados educacionais, defende que as “escolas modelos” sirvam de parâmetro para instituições de ensino com contextos semelhantes, como mesmo perfil socioeconômico, o que permite uma troca de experiências com aspectos comuns.

“Melhores ou piores resultados podem ter a ver com contextos mais ou menos complexos, até mesmo de gestão escolar, em termos de quantas etapas e turnos são oferecidos. De qualquer forma, precisamos pensar em um modelo que não dependa tanto do esforço particular. Não dá para todas as escolas terem professores excepcionais, que, além de dar aula, tenham que pensar em como resolver outros problemas. O processo de escala deve passar por uma liderança das diretorias regionais”.

Alunos do Quitéria Maria de Jesus: colégio conseguiu superar a meta do Ideb para os anos finais do Ensino Médio (Foto: acervo da escola)

Até porque, como ressalta Thaiane, para superarmos o desafio do aprendizado, precisamos adotar uma série de medidas que, muitas vezes, não dependem apenas da escola, como a valorização da carreira do professor e a efetivação da base curricular comum, instrumento, para ela, capaz de garantir que os estudantes de todo o país possam adquirir as mesmas competências e habilidades.

Coordenador do Laboratório de Dados Educacionais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Thiago Alves, enfatiza que, apesar de valorizarmos e vermos como casos de sucesso o bom desempenho de escolas públicas em cenários adversos, não podemos tratar as exceções como exemplos que devam virar regra, especialmente ao avaliarmos indicadores que dependem diretamente do repasse dos governos, como é o caso da infraestrutura.

“Por meio de iniciativas próprias, é possível fazer uma escola diferenciada em um ou outro quesito. Mas não é obrigação da escola transformar uma realidade que depende de uma estrutura de rede. Não é com quermesse que o diretor vai conseguir fazer uma reforma geral ou aumentar o salário dos professores. Já a distorção idade/série, em geral, está associada ao indicador socioeconômico da região, mas também a escolas que reprovam muito porque não dão reforço”.

Foi vendo o que poderia ser feito com a ajuda apenas da comunidade escolar e do entorno que instituições do Pará conseguiram reduzir mais de 50% a distorção idade-série, mesmo estando em regiões em que as crianças eram submetidas ao tráfico e à prostituição infantil. Na Paraíba, o WhatsApp virou a estratégia de uma professora para acompanhar de perto a rotina dos alunos e evitar o abandono. No Sergipe, uma geladeira ganhou status biblioteca de uma escola que garantiu uma dos maiores saltos no Ideb no estado. Na Bahia, estudantes têm aulas de literatura na praça. E no Amazonas, mesmo um colégio considerado de referência, aluga a quadra de esportes para garantir verbas para o conserto do bebedouro.

“A educação brasileira precisa de políticas que amenizem as desigualdades nas escolas para que não seja necessário mais fazer esforços como este de identificar ‘o melhor do pior’. O grande desafio é garantir uma educação em condições de qualidade para todas as crianças. Quando chegarmos neste momento, não teremos mais que esperar que as escolas sejam heroínas, como acontece hoje”, conclui Alves.

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Equipe responsável

 

Jornalista, com mestrado em Comunicação pela Uerj, trabalhou nos jornais “O Globo” e “Extra” e foi estagiária da rádio “CBN”. Há dez anos, trabalha com foco em internet. Foi editora-assistente do site da “Revista Ela”, onde se especializou nas áreas de moda, beleza, gastronomia, decoração e comportamento. Também atuou em outras editorias cobrindo política, economia, esportes e cidade.

Bacharel em Jornalismo e licenciada em Letras, é sergipana do interior. Trabalha como revisora e flerta com a fotografia. Curiosa vocacional, apaixonou-se pela literatura ao se deparar com o cínico anti-herói de Confissões de Narciso. Desde então, está para a escrita como o sábado, para a feira e o domingo, para a praia.

Formada pela Universidade da Amazônia (Unama), tem experiência em rádio, tv, impresso e jornalismo online. Trabalhou no jornal Diário do Pará, G1 Pará e na TV Liberal, afiliada da Rede Globo. Atualmente é repórter da agência de jornalismo independente Amazônia Real. Em 2017 ganhou o Prêmio INEP de Jornalismo (2º lugar) por uma reportagem sobre a evasão escolar.

Jornalista formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), trabalha como repórter em veículos impressos de João Pessoa desde 2011. Pautas nas áreas de Direitos Humanos, Saúde e Educação são seus focos de interesse.

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), com pós-graduação em Análise do Espaço Geográfico e em Comunicação e Marketing em Redes Sociais. É repórter do jornal Correio da Bahia e colaborador da Folha de S. Paulo, UOL e BBC News Brasil.

É estudante de jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Acredita que todo bom jornalismo deve prezar pelas histórias.

É jornalista e cofundadora da agência de jornalismo independente Amazônia Real, com sede em Manaus. Além de ter trabalhado em veículos como “O Estado”, “A Gazeta”, “Amazonas Em Tempo”, na “TV Cultura”, “TV Educativa” e de ter sido correspondente de “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, foi uma das fundadoras do Sindicato dos Jornalistas de Roraima. Em 1991, ganhou o Prêmio Esso Regional Norte com a reportagem “Bandeira do Brasil Hasteada na Fronteira”. Feminista, foi um das fundadoras do coletivo partidAmazonas, que defende os direitos das mulheres na política institucional.

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