Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Inclusão bancária no Espírito Santo

O Bem, de Vitória, o segundo maior banco comunitário da América Latina, fecha parceria inédita com financeira e aumenta os recursos para a economia solidária


E-dinheiro, moeda social eletronica. Foto de Gustavo Stephan
O Bem foi o primeiro banco comunitário do país a fechar parceria com uma financeira. O pagamento do crédito pode ser feito com moeda social eletrônica (Foto de Gustavo Stephan)

Segundo maior banco comunitário da América Latina, o Bem é inspirado e apoiado pelo Banco de Palmas, de Fortaleza, o único que o supera em número de clientes e movimentação. Mas a instituição capixaba é a primeira desse tipo no Brasil a fechar parceria com uma financeira, a DaCasa Financeira, braço varejista do Grupo Dadalto. A cooperação, com um aporte de R$ 300 mil, fez a fila andar para cerca de 200 correntistas, alguns esperando há mais de um ano por crédito. A maior demanda dos correntistas ainda é por crédito habitacional, mas a carteira de financiamento do Banco Bem/ DaCasa prevê também empréstimo produtivo para quem quer começar ou ampliar um pequeno negócio em uma das oito favelas que formam o território do Bem, onde moram 31 mil pessoas, no centro da capital do Espírito Santo.

Seguindo a premissa dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento (BCDs), o Bem, nascido há 13 anos, prefere cliente pobre e não pede garantias na hora de emprestar dinheiro. A DaCasa se adequou à lógica deste sistema financeiro alternativo sob controle da comunidade. Isso significa uma análise bastante heterodoxa do perfil dos correntistas do banco. A decisão da concessão de crédito continuará nas mãos do banco comunitário, ou seja,  alguém se candidata para receber um crédito, antes de concedê-lo ou não, a agente do Bem questiona os vizinhos sobre o candidato.

Temos recursos abundantes, mas escassez de conhecimento para lidar com clientes oriundos da base da pirâmide social brasileira. Vamos ficar de olho na performance da carteira, mas sabemos, de antemão, que o índice de inadimplência no Banco Bem é muito baixo, de 5%

Ricardo Albuquerque
Financeira Dacasa

“Temos recursos abundantes, mas escassez de conhecimento para lidar com clientes oriundos da base da pirâmide social brasileira”, admite Ricardo Albuquerque, superintendente Comercial, Produtos e Marketing da DaCasa. No território do Bem, mais de 80% dos moradores possuem renda familiar de até três salários mínimos. “Vamos ficar de olho na performance da carteira, mas sabemos, de antemão, que o índice de inadimplência no Banco Bem é muito baixo, de 5%”, comenta Albuquerque.

Credito do Banco Bem para barraca de frutas. Foto de Divulgacao
Com um crédito produtivo de R$ 2 mil, a dona de casa Jacimar Lima Nascimento, que vivia de Bolsa Família, montou barraca de verduras e frutas na porta da sua casa (Foto de divulgação)

De outubro de 2005, data de criação do Banco Bem, até fevereiro deste ano, o total de crédito concedido foi de R$ 1,5 milhão. Foram beneficiados 1.271 moradores do Território do Bem. O maior volume de recursos foi liberado para habitação (R$ 808,7 mil), seguido dos créditos produtivo (R$ 726,7 mil) e de consumo (R$ 43,9 mil). O desempregado Leonardo Santos Agostini, por exemplo, pediu um crédito para comprar um barco para pesca de sururu. Ele foi uma das 639 pessoas que, neste período, de 2005 a 2018, conseguiram crédito produtivo, ou capital de giro, junto ao banco.

Algumas pessoas estão procurando o banco para conseguir dinheiro para comer

Geisiele Cassilhas
agente de Crédito do Bem

A dona de casa Jacimar Lima Nascimento, que vivia com os recursos do Bolsa Família, foi outra. Ela montou uma barraca de verduras e frutas na porta da sua casa. Com a crise econômica e o desemprego recorde, um tipo de crédito que andava com baixa demanda ressurgiu: o crédito de consumo, aquele dinheiro para garantir à sobrevivência e colocar comida no prato. “Algumas pessoas estão procurando o banco para conseguir dinheiro para comer”, disse a agente de Crédito do Bem, Geisiele Cassilhas.

O Banco Bem é a prova de que o sistema financeiro não gosta mesmo de pobre. Tudo começou com um grupo de costureiras que saíram atrás de dinheiro para participar de uma feira no interior do estado, em 2002. Elas precisavam de R$ 300 para comprar material e confeccionar os produtos para vender. Percorreram cinco bancos e nada. Nenhum deles emprestou o dinheiro. A alegação era sempre a mesma: não cumpriam as exigências dos bancos e, sobretudo, não tinham condições de dar garantia do empréstimo. O grupo acabou sendo apoiado por uma senhora rica da capital capixaba, que frequentava a Paróquia Santa Rita de Cássia, e emprestou a quantia. Voltaram da feira com R$ 800.

“Depois de pagar o empréstimo, ficamos com R$ 500. Aí era um sofrimento, porque eram 60 mulheres que queriam cear um peru de Natal pela primeira vez, e o dinheiro não dava. E como eu ia mostrar para elas que aquele monte de nota de dez não era um dinheirão? E como dividir?”, lembra a psicóloga Leonora Mol, que, à época, fazia um trabalho comunitário com o grupo de mulheres. Coincidentemente, a prefeitura de Vitória convidou João Joaquim Neto, criador e coordenador do Banco Palmas, para fazer uma palestra na cidade. Leonora estava na plateia. Foi amor à primeira vista. Ao ouvir a experiência do Palmas, Leonora não largou mais Joaquim, até que ele se comprometesse a ajudá-las a montar um banco similar em Vitória.

Cooperativa de compra do Banco Bem. Foto de Divulgacao
Cooperativa de compra do Banco Bem é formada pelos pequenos comerciantes do Território do Bem. Foto de Divulgação

O Banco Bem nasceu com um caixa de R$ 9 mil disponíveis para empréstimo, recebidos da venda de um terreno que pertencia à Paróquia Santa Rita de Cássia e foi doado à associação. Para comprar a casa que seria a sede do Banco Bem, no alto do Morro São Benedito, Lenora e o grupo de mulheres usou R$ 10 mil doados por uma empresa da construção civil e outros R$ 15 mil emprestados pela igreja. Treze anos depois, o Bem é o núcleo de finanças solidárias do Ateliê de Ideias, que engloba ainda um Núcleo Habitacional, voltado para o apoio e avaliação técnica das construções beneficiadas com o crédito habitacional, e o Núcleo de Desenvolvimento Comunitário, que se incumbe de receber ideias da comunidade e colocá-las em prática, seja na área de formação de capital social, seja na criação de empreendimentos econômicos solidários.

Maria Magdalena Câneva, do Banco Sol. Foto de Liana Melo
Maria Magdalena Câneva, agente de crédito do Banco Sol. Foto de Liana Melo

Depois da criação do Banco Bem, outras cidades capixabas, como Cariacica, Vila Velha, Serra, Pedro Canário, foram ganhando seus bancos comunitários. Atualmente, são 12 em operação no Espírito Santo. Lenora passou a comandar a Rede de Bancos Comunitários no estado. Ela está convencida que “o maior problema de crédito entre os mais pobres é acesso”. É por isso que todos estes bancos lançam mão do “crédito como ferramenta para atingir o desenvolvimento social local”.

Bancos do Bem

 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *