Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Os órfãos da Aids

É preciso ir além do combate à doença para salvar as crianças africanas


Criança com Aids sendo atendida em centro médico no Togo
Criança com Aids sendo atendida em centro médico no Togo

Por Jennifer Beard* – O vírus HIV cobra um preço terrível das crianças da África Subsaariana. Dos 17,8 milhões de crianças que perderam um ou ambos os pais de Aids em todo o mundo, 15 milhões vivem na África. Outros 3 milhões estão infectados. A cada ano, grande número de menores se torna vulnerável quando seus pais ou membros da família ficam doentes e incapazes de trabalhar.

A comunidade internacional fez progresso significativo nos últimos 15 anos para entender como manter vivas crianças portadoras do HIV e prevenir novas infecções. Entre 1991 e 2003, as infeções pediátricas diminuíram 58%. E o número de crianças tomando antirretrovirais aumentou de 355 mil em 2009 para 740 mil em 2013.

No entanto, crianças e suas famílias – afetadas pelo HIV e que recebem assistência de doadores -, podem se tornar menos vulneráveis que outras não infectadas, mas vivendo em extrema pobreza. Por isto, a ação para reduzir a vulnerabilidade das crianças africanas precisa ir muito além dos 15 milhões infectados e/ou afetados pela doença.

A a ação para reduzir a vulnerabilidade das crianças africanas precisa ir muito além dos 15 milhões infectados e/ou afetados pela doença

A comunidade internacional e os EUA, em particular, através do Plano Presidencial de Emergência para Alívio da Aids, investiram bilhões de dólares em programas contra o HIV. Esse esforço é parte do plano global para assegurar uma geração livre da Aids por volta de 2015.

O plano se concentrou principalmente em fornecer drogas antirretrovirais para pessoas com o HIV e prevenir a transmissão da mãe para o bebê. Cerca de um terço de adultos e crianças com o vírus tem acesso ao tratamento capaz de salvar vidas. E mais da metade das mulheres grávidas infectadas conseguem remédios para proteger seus bebês do vírus.

Além de fornecer remédios que salvam vidas, os esforços de doadores internacionais reduziram o fardo econômico e social sobre famílias e crianças infectadas. HIV positivos que não recebem tratamento inevitavelmente ficarão doentes e não poderão trabalhar. Seus filhos deixarão de ir à escola para poder tomar conta dos pais ou dos irmãos mais novos. Muitos não poderão arcar com as mensalidades escolares. A saúde social e emocional e o desenvolvimento mental de órfãos ou de crianças afetados pelo HIV são mais difíceis de avaliar. A África abriga 85% dos órfãos da Aids em todo o mundo.

Mas ainda há muito o que fazer, como demonstramos em nosso estudo no jornal Pediatric Clinics of North America. O foco na doença é limitado demais. Num continente em que milhões de crianças vivem na pobreza, subalimentados ou lutando para continuar na escola, não é suficiente destinar a maior parte dos recursos da ajuda internacional aos afetados pela Aids. Uma estratégia alternativa e mais inclusiva seria focar nas experiências adversas da infância. É preciso uma perspectiva mais ampla para lidar com as variáveis que influenciam a saúde e o bem-estar delas.

Trabalhei na área rural do Sul do Quênia e não podia parar de pensar na pobreza extrema, sem relação com a Aids. Algumas famílias da grande comunidade Maasai, onde eu ficava, foram afetadas pelo HIV, mas a vasta maioria, não.

A maior causa de vulnerabilidade entre as crianças dessa comunidade é a profunda pobreza, exacerbada pela falta de alimentos e pela escassez de água

No Quênia, cerca de 6% da população adulta tem o vírus. Outros mais correm risco de infecção, mas ainda assim são uma minoria. A maior causa de vulnerabilidade entre as crianças dessa comunidade é a profunda pobreza, exacerbada pela falta de alimentos e pela escassez de água. Seis das 13 economias de mais rápido crescimento no mundo estão na África. O Quênia é uma delas. Ainda assim, 42% dos africanos vivem com menos de US$ 1,25 por dia.

A pobreza afeta a capacidade de as crianças frequentarem a escola. A maioria dos países da África Subsaariana oferece educação primária universal. Mas muitos não conseguem pagar uniformes e material escolar. Apenas 67% das crianças completam o fundamental no continente. Mais de 22 milhões estão fora das salas de aula.

Em vários países fortemente atingidos pelo HIV, como Camarões, Ruanda, África do Sul e Zâmbia, pelo menos 90% das crianças estão matriculados no ensino fundamental. O progresso resulta de expressivos investimentos dos governos e de doadores estrangeiros para universalizar a educação fundamental.

Um estudo que compara o comparecimento e o desempenho escolar de órfãos e não-órfãos em Lesoto, Malawi, Tanzânia, Uganda e Zâmbia concluiu que a pobreza está mais agudamente relacionada a dificuldades no aprendizado que a orfandade. O resultado vale tanto para o ensino fundamental quanto para o médio. E mostra que o foco nos órfãos está reduzindo sua vulnerabilidade. Mas também sugere que precisamos ampliar nossa abordagem.

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças, dos EUA, financiam pesquisas sobre experiências adversas na infância há alguns anos para avaliar o impacto da sobreposição de privações na vulnerabilidade infantil. Ao mesmo tempo, pesquisadores de saúde pública desenvolveram ferramentas para mensurar e entender as fontes de resiliência que ajudam algumas crianças a triunfar, apesar de todos os problemas. Essas fontes incluem tanto fatores internos, como esperança e auto-estima, quanto externos, como acesso à educação e recursos financeiros.

A Assembléia Geral da ONU ratificou 17 novas Metas Sustentáveis de Desenvolvimento para tomar o lugar das Metas de Desenvolvimento do Milênio. Os novos e impressionantes objetivos incluem “acabar com a pobreza em todas as suas formas e em todos os lugares” até 2030 e “assegurar vidas saudáveis e promover o bem-estar para todos em todas as idades”.

Às vezes, sou inspirado pela audácia dessas metas. Mas, na maior parte do tempo, penso nas crianças de Kimana, no Quênia. Vulneráveis? Sim. Afetados pelo HIV? A maioria, não. E imagino o que será necessário para incluí-las na agenda internacional de desenvolvimento.

* Jennifer Beard é professora assistente de Saúde Global da Universidade de Boston, EUA

(Tradução: Trajano de Moraes)


Escrito por The Conversation

The Conversation

The Conversation é uma fonte independente de notícias, opiniões e pesquisas da comunidade acadêmica internacional.

20 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *