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A menina com estrela

Lutando contra um câncer na tireóide, jovem do interior do Espírito Santo realiza, por um dia, o sonho de ser modelo


Lorrayne, sendo preparada para as fotos: 'Não sei quais serão as dificuldades, mas, se for para dizer uma, talvez seja o preconceito' Foto: Studio Faya
Lorrayne, sendo preparada para as fotos, em seu dia de modelo: “Não sei quais serão as dificuldades, mas, se for para dizer uma, talvez seja o preconceito” .Foto: Studio Faya

Quando Lorrayne do Nascimento chegou ao estúdio na Lapa, no Centro do Rio, se deparou com um cenário dos sonhos, pelo menos, dos seus sonhos: luzes, câmeras, fotógrafo, maquiador, stylist. Todos à sua espera para fotografar uma campanha de moda. Moradora da pequena cidade de Itaguaçu (Espírito Santo), que tem apenas 15 mil habitantes e uma população basicamente rural, ela foi descoberta não por um olheiro interessado em lançar para o mundo a próxima Gisele Bündchen, mas por uma marca que buscava fotografar mais do que uma coleção de roupas com as tendências para a próxima estação.

O sorriso tímido do pai dela, acompanhando as fotos, vendo a alegria da filha, também foi muito comovente

Andre Lucian
Diretor criativo da ESC

Tudo começou com o tema que inspirou as peças do inverno 2018 da grife de beachwear ESC: a música “We are all made of stars”, que é um manifesto de esperança. Foi daí que surgiu a ideia de realizar o sonho de alguém, como se aquela pessoa tivesse feito um pedido para as estrelas. Depois de fazerem contato com algumas instituições buscando uma menina que tivesse como objetivo ser modelo, eles chegaram até Lorrayne, uma jovem de 17 anos que sofre de câncer na tireoide, e, desde janeiro, está hospedada na Casa Ronald McDonald, no Maracanã.

– Acreditamos que a marca, além de vender moda praia, tem o propósito de promover impacto positivo na sociedade. Dizemos que tudo que sai da ESC tem que provocar sorrisos. E, com certeza, o da Lorrayne foi o mais importante até hoje. E claro, o sorriso tímido do pai dela, acompanhando as fotos, vendo a alegria da filha, também foi muito comovente – diz o diretor-criativo da ESC, Andre Lucian.

Ele lembra que Lorrayne chegou a dizer, durante a sessão, que não sabia se era capaz de sorrir novamente.

Onde eu moro, é roça. Lá, a realidade é estudar para conseguir um emprego para sair daquele lugar e tentar uma vida melhor

Lorrayne do Nascimento
Modelo da campanha de inverno da ESC

– Eu não dormi de tão nervosa e ansiosa. Fiquei em choque! Com uma felicidade que não sei explicar… Só falava nisso – afirma ela, que está prestes a fazer mais uma cirurgia.

Lorrayne conta que o desejo de ser modelo ou artista começou ainda na infância, quando ela morava em Brasília, mas acabou deixando de lado o sonho ao se mudar para Itaguaçu, com 6 anos:

– Isso se tornou quase impossível, porque onde eu moro é roça. Lá, a realidade é estudar para conseguir um emprego para sair daquele lugar e tentar uma vida melhor – diz ela, revelando ser fã de Gloria Pires, Taís Araújo, Bruna Marquezine, Juliana Paes e Marina Rui Barbosa. – Durante muito tempo, a TV era a única coisa que eu tinha de entretenimento. Quando ganhei um celular, comecei a acompanhar mais o mundo da moda e passei a admirar o trabalho e a história da Giovanna Ewbank e da Gisele Bündchen

Lorrayne e Laura Fernandes. Foto: Studio Faya
Lorrayne posa ao lado da experiente Laura Fernandes, que ficou encantada com a jovem: “Foi um presente para mim”.  Foto: Studio Faya

A equipe de profissionais envolvidos na produção do ensaio foi a mesma que fotografou a experiente modelo Laura Fernandes – que além de ter uma carreira consolidada é conhecida por ser nora de Preta Gil – para a campanha de inverno 2018. As duas posaram juntas com algumas peças da coleção e com uma camiseta cujo lucro da venda será doado para a Casa Ronald.

– Ela é muito nova para ter que amadurecer tão rápido e entender todo esse processo. Foi um presente para mim ver toda a alegria dela, mesmo vivendo uma situação tão delicada. Aquilo me contagiou e me mostrou um outro lado da vida – define Laura.

Além do dia de modelo, a marca resolveu presentear Lorrayne com um composite – uma espécie de portfólio – para que ela possa se apresentar às agências.

– Entendemos que estávamos realizando o sonho de uma menina. Daí, surgiu a ideia de criar uma camiseta exclusiva para ajudar a Casa Ronald a cuidar de outras crianças com o sonho de viver – conta André, que, como pessoa física, já ajudava a instituição com doações de suprimentos, roupas e brinquedos para as crianças.

Muitas marcas usam, em suas mídias sociais, blogueiras e influenciadoras, que seriam “mulheres reais” e não modelos, mas elas mesmas, em geral, seguem um padrão idealizado de vida perfeita, de beleza, usam filtros de tratamento nas suas fotos

Faya
Fotógrafo

A iniciativa da marca vai ao encontro de uma fase em que as grifes, especialmente as grandes, estão buscando promover maior diversidade e inclusão no que diz respeito às modelos escolhidas para as suas campanhas. Há dez anos seria difícil imaginar que uma plus size como Ashley Graham e uma jovem com vitiligo como Winnie Harlow estariam faturando milhões.

– Muitas marcas usam, em suas mídias sociais, blogueiras e influenciadoras, que seriam “mulheres reais” e não modelos, mas elas mesmas, em geral, seguem um padrão idealizado de vida perfeita, de beleza, usam filtros de tratamento nas suas fotos. Mas, de alguma forma, mesmo timidamente, já vemos um progresso na última década no que diz respeito à diversidade e ao empoderamento feminino na moda, ainda que sejam iniciativas isoladas – avalia o renomado fotógrafo Faya, que clicou a campanha e contou ter se emocionado durante a sessão.

– Não é que a mulher branca e magra não “venda” mais. É que a consciência da sociedade está mudando, está evoluindo. A moda tem o dever de passar uma imagem relevante, e a responsabilidade de fazer a diferença – defende Andre, que, a partir dessa primeira iniciativa, decidiu a cada nova coleção da ESC lançar também um projeto social.

Para a presidente da Casa Ronald McDonald-RJ, Sonia Neves, realizar o sonho da Lorrayne foi como um sopro de esperança na vida para todas as crianças da instituição. A psicóloga responsável pela casa, Keila Pires, ressalta que as vivências que trazem satisfação e alegria, enlaçadas a um desejo, contribuem para o fortalecimento do organismo:

– Melhor ainda se essas vivências são de possibilidades que remetem a um futuro, onde se gostaria de chegar. Ter um objetivo a alcançar leva o paciente a querer continuar a lutar pela vida, a enfrentar melhor as dores que, inevitavelmente, acontecem no tratamento de um câncer. Isso pode aumentar as chances de cura. Nesse sentido, a experiência que a Lorrayne viveu foi única e transformadora.

Para o futuro, a jovem tem consciência das barreiras que pode enfrentar para construir de fato uma carreira no mundo da moda:

– Eu não sei quais serão as dificuldades, mas, se for para dizer uma, talvez seja o preconceito.

Mas ela não se intimida. E faz outros planos:

– Eu penso em ser tudo que possa me levar a ajudar alguém: médica, professora, dona de projetos sociais… Meu sonho maior é ajudar pessoas que são desacreditadas pela sociedade.

Que as estrelas a ajudem novamente.


Escrito por Fernanda Baldioti

Fernanda Baldioti

Jornalista, com mestrado em Comunicação pela Uerj, trabalhou nos jornais "O Globo" e "Extra" e foi estagiária da rádio "CBN". Há dez anos, trabalha com foco em internet. Foi editora-assistente do site da "Revista Ela", onde se especializou nas áreas de moda, beleza, gastronomia, decoração e comportamento. Também atuou em outras editorias cobrindo política, economia, esportes e cidade.

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