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Jogo duro contra o preconceito

Fifa cria esquema especial para combater o racismo e a homofobia nos estádios da Copa


O craque francês Paul Pogba, ao centro, foi uma das vítimas de racismo no jogo contra a Rússia, em março deste ano. Foto Elyxandro Cegarra (NurPhoto)
O craque francês Paul Pogba, ao centro, foi uma das vítimas de racismo no jogo contra a Rússia, em março deste ano. Foto Elyxandro Cegarra (NurPhoto)

Vai ser um jogo duro. Daqueles que só se decidem mesmo no finalzinho. Mas a Fifa já sabe qual deverá ser seu maior adversário na Copa do Mundo da Rússia, entre os dias 14 de junho e 15 de julho: o preconceito sob diversas formas, em especial os de raça e de orientação sexual. E para vencer este confronto decisivo, a federação internacional do esporte mais popular do planeta já traçou sua estratégia, principalmente levando em conta o fato de que o país-sede do Mundial é frequentemente acusado de protagonizar inúmeros atos ofensivos aos negros e aos gays. Mas, se nas partidas quem decide são os craques, nestes clássicos contra o preconceito, quem terá papel fundamental serão os árbitros.

O objetivo é o de tolerância zero ao preconceito na Copa. Para isso, a entidade máxima do futebol anunciou no começo do mês de que os juízes terão poder até de interromper qualquer jogo, mesmo os mais importantes, se constatarem recorrentes ofensas por parte das torcidas. De acordo com o que a Fifa anunciou, em cada um dos 12 estádios do Mundial haverá nas tribunas três observadores. Auxiliados por câmeras, eles poderão constatar a ação de indivíduos ou grupos responsáveis por atos preconceituosos, solicitando a intervenção dos seguranças da arena. Tais observadores serão capazes de entender os idiomas dos torcedores envolvidos num jogo, bem como gestos e outras atitudes preconceituosas.

No gramado, os árbitros estarão instruídos a adotar o denominado “sistema de três passos”. Primeiro, poderão interromper um jogo e pedir que seja feito pelo sistema de som do estádio um anúncio formal contra palavras e gestos preconceituosos. Caso os gestos, palavras ou cânticos preconceituosos persistam, caberá ao juiz suspender temporariamente a partida e solicitar nova mensagem oficial contra atos preconceituosos. Por fim, a terceira e mais importante atitude da equipe de arbitragem será a de encerrar o jogo com qualquer tempo, retirando-se do campo.

Manifestante protesta contra o racismo nos campos de futebol ingleses. Foto Rui Vieira/Anadolu Agency
Manifestante protesta contra o racismo nos campos de futebol ingleses. Foto Rui Vieira/Anadolu Agency

Tais procedimentos foram elaborados a partir  da colaboração da Football Against Racism in Europe (Futebol contra o Racismo na Europa) Network (Fare Network), entidade fundada na Áustria em 1999 e reconhecida pelo combate aos preconceitos no esporte e atuante em 50 países, inclusive no Brasil. A Fifa já vinha utilizando este sistema em partidas das Eliminatórias e na Copa das Confederações do ano passado, evento-teste para este Mundial. Entretanto, agora, com as 32 seleções e suas torcidas no palco do campeonato, são muito maiores as expectativas e receios de que ofensas raciais ou baseadas na opção sexual venham mesmo a ocorrer.

Disse para a minha família para não ir à Rússia, porque fico preocupado com a segurança deles, o que iria afetar minha preparação para as partidas

Danny Rose
Jogador da Seleção Inglesa

Um exemplo disso ocorreu em São Petersburgo, na Rússia, em março, quando da vitória da França sobre o time da casa por 3 a 1, em amistoso. Sempre que atletas negros franceses, entre os quais o astro Paul Pogba, tocavam na bola, eram ouvidos gritos semelhantes aos de macacos. Embora fotógrafos e cinegrafistas tenham ouvido tais manifestações ao lado do campo, nenhuma providência imediata foi tomada. Na atual temporada, foi o terceiro caso de racismo naquele estádio, palco de uma das semifinais da Copa. O Futebol Club Zenit, pelo qual jogaram os brasileiros Hulk, Giuliano e Hernani, já recebeu duas sanções da Uefa (confederação europeia) por atos racistas de sua torcida em campeonatos dessa liga. No caso do amistoso, somente em maio a Fifa multou a Federação Russa em 22 mil euros por causa do ocorrido.

Ainda em março, a ministra francesa do Esporte, a ex-esgrimista negra Laura Flessel (atleta feminina daquele país com mais medalhas olímpicas, num total de cinco) pontuara, por meio de seu Twitter: “O racismo não pode ter lugar nos gramados. Deveríamos atuar de forma conjunta, em nível europeu e internacional, com o objetivo de dar um fim a este comportamento intolerável”

Já o presidente da Fare Network,  Piara Powar, fez um alerta. Observou que na ocasião faltavam menos de três meses para a Copa e criticou a omissão tanto da equipe de arbitragem e dirigentes de federações, quanto dos seguranças nas tribunas.

“Se no fim de março, eles ainda não sabem o que fazer, nem implementaram procedimentos e protocolos já existentes, as coisas ainda não estão bem assentadas para a Copa do Mundo”, declarou. “Tão perto do Mundial, o que se questiona é porque não resolveram o problema quando este ocorreu durante o jogo.”

Apesar da adoção, pela Fifa, do recém-publicado “Guia de Boas Práticas sobre Diversidade e Anti-Discriminação”, base do sistema a ser adotado na Rússia, o tema causa polêmica entre atletas de seleções importantes, como a inglesa. Um dos destaques do English Team, o zagueiro negro Danny Rose anunciou ter pedido a seus parentes para não viajar à sede do Mundial. Em 2012, ainda pela seleção sub-21, ele foi expulso do jogo com a Sérvia, na casa dos rivais, por ter reagido de forma enérgica quando foi atingido por pedras e ouviu gritos que imitavam os de macacos.

“Disse para a minha família não ir à Rússia, porque fico preocupado com a segurança deles, o que iria afetar minha preparação para as partidas”, enfatizou.

Embora a Fifa tenha estabelecido que o juiz poderá encerrar a partida, caso haja repetidas manifestações de preconceito, o técnico da seleção inglesa, Gareth Southgate, entrou na contramão. Afirmou que se algum atleta negro de sua equipe for ofendido seus jogadores não deixarão o campo, porque a própria seleção poderia ser punida e todo o elenco se esforçou muito para estar na Copa.

Além das preocupações com possíveis ofensas racistas, a Fifa teme igualmente manifestações contra torcedores gays. Por um aspecto cultural, beijos e carícias entre pessoas do mesmo sexo não são bem vistas naquele país, que dispõe de rígida legislação antigay. Para que se tenha uma ideia, até uma cidadã do mundo, como Yelena Isinbayeva, bicampeã olímpica e tricampeã mundial do salto com vara, se manifestou a favor de medidas restritivas à comunidade LGBT em seu país, em 2013, no Mundial de Atletismo de Moscou.

“Nós nos consideramos pessoas normais, dentro do padrão. Vivemos com homens ao lado de mulheres e mulheres ao lado de homens. Tudo deve ser assim. É histórico. Nós nunca tivemos problemas assim na Rússia, e não queremos ter no futuro”, afirmou a atleta, que dias depois disse ter sido mal interpretada.

E o Brasil? O governo brasileiro divulgou no dia 7 de junho uma cartilha para os cerca de 60 mil torcedores verde-amarelos que irão ao megaevento, recomendando em especial à comunidade LGBT evitar manifestações de afeto em público. No país, a entidade dedicada ao combate ao racismo e a outros preconceitos no esporte é o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, cujo site aborda também ocorrências relacionadas a homofobia, xenofobia e preconceito contra a mulher no esporte, entre outros. Em março, o Observatório revelou ter relacionado 17 casos de racismo nos estádios em competições da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) desde 2014, sendo 11 na  Libertadores da América. O mais recente havia sido em fevereiro, em Sucre, Bolívia, onde torcedores do Jorge Wilstermann local teriam chamado de “macacos” atletas do Vasco da Gama. De acordo com a entidade brasileira, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) não tomou quaisquer providências. Até o momento, a CBF não se manifestou oficialmente sobre a questão, embora vários atletas da seleção sejam afrodescendentes, como Neymar, assim como torcedores e profissionais de imprensa brasileiros que deverão estar no Mundial. Isso sem falar em integrantes da comunidade LGBT brasileira.

A realidade é que os preconceitos invadiram os estádios, ou talvez jamais os tenham abandonado.   Em recente debate na Casa do Saber, no Rio, sobre o tema Futebol e Homofobia, o sociólogo Maurício Murad afirmava que os preconceitos neste e noutros esportes só serão combatidos à medida em que a sociedade internacional for capaz de criticar, de se posicionar contra e de punir comportamentos baseados em preconceitos de raça, nacionalidade, etnia e orientação sexual.

“O futebol é um dos últimos espaços masculinos (predominantemente). Trata-se de um ambiente conservador e de muito poder perante a sociedade. Mas só aumentando a massa crítica se pode mudar isso”, afirmou Murad, criador do núcleo de Sociologia do Futebol da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de vários livros sobre torcidas organizadas. “O futebol é muito mais que um jogo. É vida social, cultural, as mazelas, as alegrias. É uma ferramenta de educação e de civilização.  Um esporte tão grandioso e de alcance mundial precisa ter essa missão civilizatória. Pode, deve e tem a obrigação histórica de fazer isso”.


Escrito por Claudio Nogueira

Claudio Nogueira

É jornalista, tendo iniciado carreira em 1986 no Globo, onde trabalhou até o começo de 2016. Desde março do mesmo ano, é produtor de reportagens do Sportv. Cobriu, entre outros eventos, quatro Olimpíadas, a Copa do Mundo-2014 e cinco Jogos Pan-Americanos. Como escritor, publicou, entre outras obras: “Futebol Brasil Memória”; “Dez Toques sobre Jornalismo”; “Vamos todos cantar de coração - os 100 anos do Futebol do Vascão”; e ”Esporte Paralímpico - Tornar possível o Impossível”

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Um Comentário

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  1. Excelente matéria. Infelizmente ainda é um mal que perdura em nossa espécie. Ignorante é o homem que se volta contra o próprio homem em atos tão horríveis como esses.

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