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Dançando para o mundo

Meninos da Maré são aprovados para concorrida escola de dança na Bélgica


Nos jardins da escola P.A.R.T.S, da esquerda para a direita: Luyd, Rafael, Gustavo e Marllon
Nos jardins da escola P.A.R.T.S, da esquerda para a direita: Luyd, Rafael, Gustavo e Marllon

A suada aventura dos quatro garotos da Escola Livre de Dança da Maré a caminho da Bélgica para uma audição, contada aqui no #Colabora há poucas semanas, teve final feliz para dois deles. Gustavo Gláuber e Rafael Galdino superaram mais de mil candidatos de todo o mundo e a partir de setembro estarão entre os 44 alunos escolhidos para três anos de estudos na renomada escola P.A.R.T.S., referência em ensino de dança contemporânea no planeta. Os dois são crias do Centro de Artes da Maré, onde começaram a fazer aulas de dança em 2009 e desde 2012 integram o Núcleo 2, grupo de formação continuada idealizado pela Lia Rodrigues Companhias de Danças.

A gente vive desafios de todos os jeitos como morador da Maré e nos últimos quatro anos fomos desafiados artisticamente todos os dias pelo trabalho do Núcleo 2, com a presença de professores de fora e o contato muito próximo com os dançarinos da Lia Rodrigues. Então, mesmo sem falar inglês, respirei fundo e me joguei.

Rafael Galdino
Aluno de dança da escola P.A.R.T.S.

No fim de semana passado, a dupla – que mora em comunidades do Complexo de Favelas da Maré – recebeu um e-mail assinado pelo próprio diretor da escola, Theo Van Rompay, avisando que, depois de audições com 1154 jovens, eles estavam entre os selecionados. Havia menos de uma semana que Gustavo, Rafael e os outros dois dançarinos da Maré, Marllon Araújo e Luyd Carvalho, tinham voltado de intensa viagem europeia de dez dias e ainda estavam ruminando as experiências vividas. A mensagem do diretor dizia ainda que a ida da dupla carioca deve ser antecipada para julho, para que tenham aulas intensivas de inglês, antes do início do curso de dança.

“Foi tudo muito corrido e intenso. Como teve um atraso na conexão em Portugal, já chegamos em Bruxelas praticamente direto para a primeira parte da audição”, conta Gustavo, que já tinha viajado para a França junto com o Núcleo 2. “Entrar na P.A.R.T.S. foi um choque positivo, porque é um lugar inteiramente pensado para o bem-estar dos dançarinos. Tivemos mais de oito horas por dia de aulas e ensaios até a finalíssima, em que cada candidato apresentou um solo de um minuto.”

Vou fazer o máximo de coisas para conseguir mais dinheiro. Minha mãe é auxiliar de serviços gerais do Teatro Glauce Rocha, por isso, sempre tive que contribuir. Além do Núcleo 2, que me dá uma bolsa de R$ 200, sou ator do Teatro do Oprimido e já participei do projeto Teatro em Comunidades.

Gustavo Gláuber
Aluno de dança da escola P.A.R.T.S.

A frase clichê “foi a realização de um sonho” se encaixa perfeitamente na história de Gustavo. Depois que começou a fazer aulas de dança contemporânea, ele – que nasceu na Paraíba e mora sozinho com a mãe na Maré desde os 11 anos – pegou o vício de ver vídeos de trabalhos coreográficos no Youtube. Foi assim que descobriu e foi seduzido por “Drumming”, obra-prima da coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker, idealizadora da P.A.R.T.S. Para surpresa de Gustavo, não só De Keersmaeker era uma das juradas do concurso, como uma das etapas da extensa seleção foi aprender e dançar um trecho da coreografia. Para chegar aos 44 que irão passar os três próximos anos na escola de Bruxelas, houve ainda teste de dramaturgia com texto em inglês e uma redação sobre figuras importantes da história da dança, como Pina Bausch e Trisha Brown. Sem grandes conhecimentos em inglês, os garotos da Maré se viraram à sua maneira.

“A gente vive desafios de todos os jeitos como morador da Maré e nos últimos quatro anos fomos desafiados artisticamente todos os dias pelo trabalho do Núcleo 2, com a presença de professores de fora e o contato muito próximo com os dançarinos da Lia Rodrigues. Então, mesmo sem falar inglês, respirei fundo e me joguei”, conta Rafael, 20 anos, que nasceu em Alagoas e aos 6 anos chegou à Maré, filho de uma auxiliar de serviços gerais com um metalúrgico. “O texto de teatro por exemplo, eu aprendi pelo som, repetindo como os outros falavam.”

Mesmo para os dois outros rapazes que participaram da audição belga mas não ficaram entre os escolhidos, a experiência da viagem contou muito. Marllon e Luyd voltaram mais preparados para a dança e para a vida:

“De volta às aulas no Centro de Artes da Maré, percebi que meu corpo, minha dança e até minha forma de criar meus próprios movimentos mudou”, avalia Luyd, 19 anos, que na ida para a Bélgica viajou pela primeira vez de avião.

Idealizadora do Núcleo 2 ao lado de Lia Rodrigues e Eliana Sousa Silva, a crítica e professora de dança Silvia Soter percebe que a ampla formação continuada do Núcleo 2 deu aos rapazes a segurança e a auto-estima necessárias para quererem participar da audição, sem medo de fracassar mesmo concorrendo com jovens de mais de 15 países.

“Eles entenderam que realizam um trabalho de tanta qualidade que podiam ficar à vontade ao lado de dançarinos de todo o mundo. Do ponto de vista da Escola da Maré, um sucesso como este reafirma o objetivo de darmos a estes jovens mais oportunidades na vida.”

A viagem que possibilitou tantas novas experiências para garotos de uma classe social que nem sempre consegue ter a chance de conhecer mundos distantes só foi possível com muito esforço, aliado a uma bela corrente de solidariedade. Entre apresentações na rua, vendas de empadão e bolo no Centro de Artes da Maré e doações, eles conseguiram sair do Rio com 500 euros cada para os gastos de comida e transporte. Em Bruxelas, ainda foram acomodados por uma brasileira, irmã de uma das coordenadoras da Redes de Desenvolvimento da Maré, parceira da Lia Rodrigues Companhia de Dança no projeto do Centro de Artes da Maré. Agora, uma nova vaquinha começa para a compra das passagens dos futuros estudantes, que ao chegarem de vez em Bruxelas vão ter que se virar para fechar a conta do dia a dia. A princípio, a P.A.R.T.S tenta acomodá-los e, em alguns casos, contempla os alunos de baixa renda com uma bolsa de até 500 euros.

“Vou me jogar, tentar fazer o máximo de coisas para conseguir mais dinheiro”, diz Gustavo, que hoje, para sobreviver e ajudar a mãe nas contas da casa também se vira como pode. “Minha mãe é auxiliar de serviços gerais do Teatro Glauce Rocha, por isso, sempre tive que contribuir. Além do Núcleo 2, que me dá uma bolsa de R$ 200, sou ator do Teatro do Oprimido e já participei do projeto Teatro em Comunidades, também no Centro de Artes,  e fui agente de promoção socio-ambiental de um outro projeto em escolas públicas da Maré.”

Já Rafael decidiu que nos próximos dias, entre as brechas das aulas do Núcleo 2, vai dar uma força na pensão que sua tia dirige no Parque União, uma das comunidades da Maré.

“Vamos recomeçar a corrente entre apoiadores porque agora não é mais vaquinha, mas vacão”, diz, sem esconder o orgulho.

A alegria da turma final de selecionados para estudar na escola P.A.R.T.S., em Bruxelas
A alegria da turma final de selecionados para estudar na escola P.A.R.T.S., em Bruxelas

Escrito por Adriana Pavlova

Adriana Pavlova

Trabalhou durante 13 anos no jornal O Globo, de onde saiu em 2005 para morar em São Paulo. Foi setorista de dança na Folha de S. Paulo de 2007 a 2010 e colaborou regularmente com as revistas Época São Paulo e Exame. De volta ao Rio, é crítica de dança do Globo desde 2013. Em 2015 tornou-se mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da Escola de Comunicação da UFRJ.

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Um Comentário

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  1. OMG!!!
    Que história tão delicada e reveladora dos segredos da vida!!!!
    LINDO de viver!!!!!!
    É ler e lembrar que não há limites para sonhar!!! Mas acima de tudo AGIR!!!!! Pois, para sonhos, o MAIOR combustível é a GENEROSIDADE, e ELA os levará para Bélgica por 3 anos SIM!!! E manterá os que ficarem aqui, sonhando, sonhando e sonhando. Até um dia as asas do amor os levarem até lá também, e levarão!!!!!!!!
    Muito AMOR para vocês, meninos!!!!!!

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