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Acessibilidade à prova em atrações Brasil afora

Aplicativos avaliam milhares de pontos por todo o Brasil de forma colaborativas e a conclusão é que ainda há muito trabalho por fazer


Aplicativos mostram a acessibilidade de vários locais (Joel Saget/AFP)
Aplicativos mostram a acessibilidade de vários locais (Joel Saget/AFP)

Se você tivesse que avaliar as atrações do Rio de Janeiro, que nota daria para o Jardim Botânico? No TripAdvisor, por exemplo, o lugar é o quarto mais bem cotado na cidade. Mas em outra plataforma o passeio é considerado apenas mediano, leva nota 3 numa escala de 0 a 5. Por quê?  “As aleias têm pisos de tipos variados, às vezes lisos, com calçamento ou não, às vezes de pedras, o que compromete o conforto do cadeirante. Há também espaços inacessíveis devido à irregularidade do terreno.” A análise é do Biomob, aplicativo que indica a acessibilidade locais em nove categorias (Comer e Beber, Lazer, Hospedagem, Saúde, Cultura, Compras, Corpo e Alma, Serviços e Parques e Praças),  com base na avaliação de seis itens acessibilidade da calçada, da entrada principal e de veículos, circulação interna e banheiro adaptado.

Assim como o Jardim Botânico, o Aterro do Flamengo, o Pão de Açúcar, o Cristo e o bondinho do Corcovado, a Cobal do Leblon, a casa de shows Vivo Rio e o cinema Estação Net Rio receberam nota 3, que os classifica como regulares.  Já o Cinema São Luiz obteve nota dois porque, embora possua rampa e elevador, nas salas 1 e 4 os cadeirantes ficam muito próximos da tela. Talvez seja melhor ir direto para o Roxy, em Copacabana, que conquistou nota máxima. Para não baixar a média, a esticada pode ser até a Braz Pizzaria, no Jardim Botânico, plana, ampla e com banheiro adaptado.

Criador do Guia de Rodas, Bruno Mahfuz conta que muitos dos avaliadores não são cadeirantes (Foto divulgação)
Criador do Guia de Rodas, Bruno Mahfuz conta que muitos dos avaliadores não são cadeirantes (Foto divulgação)

Avaliação é colaboração

O Biomob oferece a melhor cobertura do Rio de Janeiro. Já em São Paulo, a maior base de dados está no Guia de Rodas, forte também em Belém, no Pará; no Rio Grande do Sul e no Espírito Santo. Bruno Mahfuz, empresário e cadeirante que lançou o aplicativo em 2016, não faz ideia das razões para o engajamento ser maior em regiões tão díspares. Mas sabe, por meio de um questionário, que 65% dos usuários que já opinaram via aplicativo não têm deficiência.

Como eles medem as condições para o deficiente? “Treinando a própria percepção”, diz Mahfuz, orgulhoso de somar 15 mil estabelecimentos avaliados em 600 cidades de 130 países. O Guia de Rodas não dá nota. O local recebe uma marcação que pode ser verde, para acessível, amarelo, para parcialmente acessível, e vermelho, para inacessível. A confeitaria The Bakers, em Copacabana, por exemplo, recebeu o amarelo. A avaliação confere com a nota três no Biomob, justificada pelo degrau na entrada e pelo balcão alto. Fazer uma análise realmente é simples e leva cerca de 30 segundos. No Guia de Rodas basta cadastrar-se como usuário para publicar e é possível modificar uma avaliação anterior. Mahfuz acredita que assim vai aperfeiçoando as informações e sensibilizando as pessoas, criando conscientização.  

Treinos e mutirões para formar avaliadores

Valmir de Souza, CEO do Biomob, acha que é preciso ter critérios técnicos. Por isso, além das notas, o Biomob, que tem pouco mais de três mil endereços avaliados no Brasil e no mundo, adota como marcação um tique verde, que indica se o local foi vistoriado por um especialista. Estes podem ser parte da equipe ou voluntários, treinados em programas ou mutirões que incluem palestra de cerca de uma hora sobre a LBI (Lei Brasileira de Inclusão) e as regras da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e saída de campo.

Avaliadores podem publicar no aplicativo sem passar pelo processo e contam inclusive com o botão de ajuda, que ensina como avaliar se a largura de uma calçada está correta, por exemplo. As publicações ficam visíveis, mas sem o selo verde. No Rio já foram feitos dois mutirões de treinamento. O primeiro, com voluntários do  Viva Rio, testou e aprovou os equipamentos construídos para as Olimpíadas e Paralimpíadas, em 2016. Usuários habilitados podem validar qualquer avaliação. É o mesmo com alguns parceiros, como os blogs Mão na Roda, também carioca, e Cadeira Voadora, da mineira Laura Martins.

Laura é cadeirante, formada em letras, e trabalha como revisora de textos. No blog, escreve sobre suas viagens e dá ótimas dicas de programas para pessoas com as mesmas dificuldades. Ela acha os aplicativos muito úteis, mas diz que, periodicamente, é preciso estimular as pessoas a colaborar, para que não se esqueçam. Mahfuz incentiva a participação através de suas redes sociais. Souza, que tem o campeão paralímpico Clodoaldo Silva como aliado e garoto propaganda, tenta até premiação. No fim do ano dará um Iphone ao colaborador mais profícuo entre os dois mil que tem cadastrados.

Prêmios e patrocínio incentivam

Gratuitos e colaborativos, os aplicativos são financiados parte por patrocinadores, parte pelo trabalho de consultoria que seus gestores passaram a oferecer a empresas. Ambos realizam desde avaliação arquitetônica até o experimento por parte de deficientes e treinamento para acessibilidade atitudinal, em geral destinado a funcionários e atendentes. Depois de testadas as adaptações, os clientes do Guia de Rodas recebem um selo do aplicativo. “É um selo qualificador, diferente do selo da prefeitura, que é certificador”, explica Mahfuz. O Allianz Parque, estádio do Palmeiras em São Paulo, possui o selo Guia de Rodas. O aplicativo, por sua vez, recebeu um prêmio da ONU já no ano de seu lançamento, quando foi considerado a Melhor Inovação Inclusiva do Mundo.

O exemplo do Museu do Amanhã

O selo Biomob independe de sua consultoria. No Rio, o Museu do Amanhã, inaugurado em 2015, foi o primeiro laureado. Bastante plano, com rampas e elevadores grandes, dispõe também de pisos e maquetes táteis, sinalização universal, banheiros acessíveis e cadeiras de rodas. Em parceria com escolas e instituições especializadas, a equipe do museu organiza visitas adaptadas a pessoas com qualquer tipo de necessidade especial. Esta é a parte mais interessante porque, como lembra Souza, as deficiências não se cruzam. “Hoje existe um foco muito grande em barreiras arquitetônicas e mobilidade, mas as necessidades são totalmente diferentes”, diz.

Inclusão para evitar a reclusão

Professor de educação física com mestrado em fisiologia, o CEO do Biomob já trabalhava com esporte adaptado e se incomodava com o sedentarismo e reclusão das pessoas com deficiência, razão pela qual criou o Giro Inclusivo, organizando passeios culturais para cadeirantes em São Paulo desde 2012. A ideia do aplicativo surgiu quando seu pai, depois de um AVC, também precisou usar cadeira de rodas. Mas logo no início ele percebeu que apenas disponibilizar informação não seria o suficiente para fazer diferença. “Vi que só o aplicativo não resolvia o problema e decidi entender melhor como os municípios encaravam essa questão da acessibilidade”, conta.  

A importância das calçadas

O empenho já gerou algumas boas parcerias. A mais vistosa é o projeto Pinda Acessível. Em busca dos recursos do programa MIT (Município de Interesse Turístico) do governo do Estado de São Paulo, Pindamonhangaba investiu em ações educativas envolvendo o comércio local e, principalmente, os fornecedores de material e serviços para órgãos públicos; adequação de pontos turísticos e prédios da administração; e capacitação de funcionários para lidar com o público específico.

A pedido da reportagem, Souza listou outros exemplos de sucesso, e nem tanto, pelo Brasil. “Não existe cidade perfeita”, ele diz, mas algumas encontram soluções melhores que outras. Boas iniciativas para copiar seriam o programa Calçada Segura, de São José dos Campos, que orienta proprietários a adequar suas calçadas e multa os irregulares. Balneário Camboriú, em Santa Catarina, e Uberlândia, no interior de Minas também têm ótimas calçadas. E Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, já pode ser considerada uma cidade modelo, com várias iniciativas neste sentido, como a adaptação de praças para idosos e a adoção do projeto Praia Acessível. Já Curitiba, é pura fama. Só o embarque nos ônibus, que param nas estações tubos, é bom. As calçadas são todas ruins”, diz.

De acordo com o IBGE há pelo menos 45 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência. São 13 milhões somente com limitação motora. Somem-se a eles 21 milhões de idosos, 18 milhões de obesos, famílias com crianças de colo e vítimas de acidentes com dificuldades de locomoção temporárias. Juntos esses grupos representam mais de um quarto da população. Dá para arriscar que cada um de nós tem pelo menos um parente ou amigo nesta situação. Os aplicativos disponibilizam informação imediata e atualizada na medida da contribuição.


Escrito por Karla Marcolino

Karla Marcolino

Karla Marcolino queria ser arqueóloga ou artista plástica, mas foi fazer jornalismo e ficou. Formada em 1989 na Escola de Comunicação da UFRJ, atuou em rádio, TV, jornais e revistas. Optou pelo frila quando vieram os filhos, Julia e Pedro, pra dividir bem o tempo entre eles e o trabalho. Atualmente faz assessoria de comunicação, mas gosta mesmo é de reportagem.

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