Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Bem longe do topo

Novas pesquisas mostram que é lento o avanço das mulheres no mercado de trabalho


Mulheres ainda enfrentam o fantasma do machismo no mercado de trabalho (Caia Image/Science Photo Library/AFP)
Mulheres ainda enfrentam o fantasma do machismo no mercado de trabalho (Caia Image/AFP)

Os dados são do setor de seguros brasileiro, mas, seguramente, dizem muito sobre a questão de gênero no mercado de trabalho como um todo no país. Embora em maioria na área (56,3% hoje, contra 49%,  no ano 2000), as mulheres ficam com apenas três de cada 10 cargos executivos nas seguradoras. De todos os funcionários homens de uma empresa, 4,7% se tornam executivos. Na ala feminina, essa proporção cai para 1,4%. Ou seja, a probabilidade de um homem se tornar executivo de uma companhia é quase 3,5 vezes maior que a de uma mulher. Nos cargos intermediários, a proporção é semelhante: seis em cada 10 gerentes das seguradoras são homens. E as diferenças chegam de forma cruel ao bolso (no caso, à bolsa). Em uma amostra com 18 empresas – que representam de 85% a 90% do total de funcionários do setor -, o salário médio, em 2015, foi de R$ 4.520/mês, sendo que os homens receberam R$ 5.371, em média, contra R$ 3.858 mil das mulheres. Resumindo, o salário médio das mulheres corresponde a 72% da remuneração dos homens.

Em média, as mulheres, no mundo todo, ganham entre 70% e 75% do salário dos homens

Maria Helena Monteiro
Advogada
Esse é o panorama traçado pelo estudo “Mulheres no Mercado de Seguros no Brasil”, coordenado pelos professores Francisco Galiza e Maria Helena Monteiro, respectivamente consultor e diretora da área de Ensino Técnico da Escola Nacional de Seguros, também conhecida como Funenseg. Trata-se da segunda edição de uma pesquisa realizada pela primeira vez em 2012. A maior parte das 316 das entrevistadas (45% do total) tem entre 36 e 45 anos, com origens profissionais bastante diversas: corretoras, securitárias, órgãos representativos de classe, prestadoras de serviços, empresas de seguros etc.

Maria Helena Monteiro: coordenadora do estudo. Foto de divulgação
Maria Helena Monteiro: coordenadora do estudo. Foto de divulgação

Feito com base em dados do ano passado, o levantamento foi concluído em julho deste ano, e foi apresentado no dia 26 de outubro, em evento na Escola Nacional de Seguros, em São Paulo. “O cenário brasileiro não é diferente do resto do mundo. Esta é uma realidade não só do Brasil, nem só do mercado segurador. O que descobrimos é que esta evolução é muito, muito lenta. Em 2003, elas recebiam, de maneira geral, 61% do que ganhavam os homens. Dez anos depois, 74%. Em média, as mulheres, no mundo todo, ganham entre 70% e 75% do salário dos homens”, diz a professora Maria Helena Monteiro. Advogada, de 64 anos, ela trabalhou no departamento de Recursos Humanos de grandes empresas (como HSBC, Shell e SulAmérica), no Brasil e no exterior. Nos últimos cinco anos, se dedica à área acadêmica. “Por isso, comento política de RH. Vi tudo acontecer. Sempre fui a primeira e única mulher no time, durante toda a minha carreira”.

No Brasil, 19% das empresas contam com mulheres em cargos de chefia

Segundo estudo divulgado em 2015 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e realizado em 108 países, em 88 deles houve crescimento significativo da liderança feminina nas empresas. Em 34, o crescimento foi superior a 7%. Porém, esse crescimento ocorreu principalmente nas posições intermediárias de chefia. A quase totalidade das empresas no mundo continua sendo presidida por homens. De acordo com a pesquisa, no Brasil, o índice de ocupação feminina nos cargos de alto comando gira entre 5% e 10%. Os melhores desempenhos foram registrados na Finlândia, na Noruega, no Reino Unido e na Suécia, com mais de 20%.

Já de acordo com outra pesquisa, mais recente – a Internacional Business Report (IBR) Women in Business, realizada pela Grant Thornton em 36 países e divulgada agora, em outubro -, a presença de mulheres em cargos de CEO aumentou de 5% para 11% este ano, em relação a 2015. E o número de empresas com mulheres no comando financeiro (CFO) registrou o mesmo salto, de 5% para 11%. De 2015 para cá, houve queda de quatro pontos percentuais no volume de empresas no país sem mulheres em cargos de liderança: o índice saiu de 57% para 53%, segundo o estudo. O Japão continua sendo o país com menos lideranças femininas (73% das empresas sem mulheres no topo). Na Rússia, 100% das companhias têm ao menos uma executiva líder. No Brasil, 19% das empresas contam com mulheres em cargos de chefia.

O Ipea e o Ministério do Trabalho e Previdência Social divulgaram, no dia 11 de março de 2016, a nota técnica “Mulheres e trabalho: breve análise do período 2004/2014”, apresentando um panorama de como tem sido a presença das mulheres no mercado de trabalho nos últimos anos, quais os postos que ocupam e sua evolução salarial. O estudo analisou dados da pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, e mostrou que, apesar da evolução, o perfil histórico de ocupação ainda mantém diferenças entre homens e mulheres.  Os homens, brancos ou negros, em idade economicamente ativa, apresentam taxas de atividade (razão entre as pessoas efetivamente engajadas no mercado de trabalho e ocupadas ou em busca de trabalho) da ordem de 80%. Enquanto isso, as mulheres, de ambos os grupos raciais, não alcançam 60%. “Ou seja, de cada 10 mulheres, 4 não conseguem se colocar disponíveis para uma ocupação no mercado de trabalho”, diz a pesquisa.

A renda também melhorou nesses dez anos, mas não foi suficiente para equiparar os ganhos entre gênero e raça. O rendimento médio do brasileiro cresceu quase 50%, ao passar dos R$ 1.000, em 2004, para R$ 1.595, em 2014.  As mulheres negras foram tiveram o maior aumento – de  77%, no período -, mas, apesar disso, seguem na base, com  renda de R$ 946, em 2014. Os homens conseguiram 43%, e as mulheres, em geral, 61%.  Eles, no entanto, continuam ganhando mais que elas (em média, R$ 1.813, contra R$ 1.288, em 2014). Os homens brancos ganham ainda mais (R$ 2.393, no mesmo ano).

Pesquisa da consultoria McKinsey&Company aponta que a igualdade de gênero elevaria em até US$ 28 trilhões o produto interno bruto (PIB) mundial até 2025. No Brasil, a economia ganharia US$ 850 bilhões, até lá. Isso equivale a um crescimento de 30% do PIB nacional. Os números, que constam do levantamento da Escola Nacional de Seguros,  foram apresentados na 5ª edição do Fórum Mulheres em Destaque, no ano passado.

Um dado importante sobre a diferença de salários apresentado nesta segunda edição de “Mulheres no Mercado de Seguros no Brasil” diz respeito à educação: “No caso específico da educação como fator de diferença salarial, em 1960, no Brasil, as mulheres tinham 1,7 anos de escolaridade média; em 1996, este número já foi de 6,1 anos”, aponta o estudo, que também dá ênfase a outra questão: “Em 1977, 39% das mulheres trabalhavam, passando para 58% em 2001, diminuindo em muito o hiato de participação em relação aos homens. Em 2014, porém, a inserção das mulheres no mercado de trabalho foi de 57%, segundo os dados do IBGE. Para alguns, essa evolução pode estar chegando a certo esgotamento, limitada pelos afazeres domésticos realizados pelo sexo feminino”.

Regina Lacerda, diretora-presidente da Rainha Seguros: "A jornada de trabalho da mulher é quadrupla". Foto de Raquel Cândido
Regina Lacerda,  da Rainha Seguros: “A jornada de trabalho da mulher é quadrupla”.  Foto de Raquel Cândida

Regina Lacerda, de 50 anos, diretora-presidente da Rainha Seguros, em Brasília, comenta a diferença salarial entre homens e mulheres.  “Pesquisas mostram que a jornada de trabalho da mulher é quádrupla: casa e filhos, obrigações profissionais, estudos e cuidados com os doentes da família. É claro que isso interfere na jornada de trabalho dela, no salário que ela ganha. Com isso, os homens acabam tendo mais qualificação”, observa. “Por essa e por outras, existe essa diferença salarial sim”, diz.  Maria Helena Monteiro tem uma avaliação parecida.  “Nos meus mais de 40 anos de trabalho, e justamente em RH, jamais vi uma empresa fazer diferença entre salários de homens e mulheres, na mesma função. O que acontece é que muitas mulheres não topam viajar, por exemplo, por conta de família, e acabam ficando com vagas que pagam menos”.

O preconceito não está só nos homens. “Tenho uma grande amiga que me pediu currículos para uma empresa, mas foi logo avisando: ‘Mulher eu não quero’. Não quer porque ‘mulher fica menstruada, faz muita fofoca, fica grávida, tem o período da amamentação, falta muito…’. O mercado ainda tem a tradição de pagar mais ao homem. Se ele está com uma faixa salarial mais alta em uma seguradora, eu não consigo trazê-lo para trabalhar por menos. Não sei como se resolve isso”, lamenta Regina, convicta de que há muita desigualdade.  “Ainda hoje, os presidentes das seguradoras são quase todos homens, assim como os de praticamente todos os sindicatos de corretores do país (em Minas Gerais temos uma presidente). Na Federação Nacional de Seguros, são apenas duas mulheres entre todos os de mais altos cargos”. Outro exemplo: de 10 pessoas que participaram de um programa de treinamento promovido pela Escola Nacional de Seguros em Londres, este mês, apenas uma era mulher.

Teóloga, pedagoga e psicóloga, Regina cursa mestrado em Poder Legislativo e está concluindo a pós-graduação em Administração Pública na FGV. Ela entrou no mercado de seguros muito jovem, em 1989. “Agora, estou no alto escalão, mas quando comecei era diferente. Tive que brigar muito. No início dos anos 1990, houve até uma campanha para “vender” o seguro como uma vocação feminina, pois não havia mulheres no mercado. Para estimular a vinda delas, a Funenseg dava 40% de desconto no valor do curso. E quatro mulheres foram chamadas para dar seu testemunho. Eu era uma delas, falando sobre a área patrimonial”, relembra ela. “Eu, pessoalmente, acho que as mulheres não têm que ser favorecidas, mas sim ter os mesmos direitos e oportunidades, desde que seja uma cultura de meritocracia”, finaliza Maria Helena, lembrando que teve três filhos e nunca parou de trabalhar. “Dos três, duas são mulheres que são donas de suas carreiras, uma na área técnica, e outra tradutora. A geração que veio depois de mim já segue um modelo bem diferente. E tenho bastante esperança de que esta geração, entre 30 e 40 anos, ajude a promover ainda mais mudanças”.


Escrito por Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha se completam. No trabalho e na vida. Juntos, têm umas quatro décadas de jornalismo. Ela, no texto, trabalhou no Globo por 17 anos, depois de passar por Jornal do Brasil, O Dia e Revista Veja, sempre cobrindo a cidade do Rio. Ele, nas imagens (paradas ou em movimento), há 20 anos bate ponto no Globo. O melhor desta parceria nasceu no mesmo dia que o #Colabora: 3 de novembro de 2015. Chama-se Pedro, e veio fazer par com a irmã, Maria.

53 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *