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O poder feminino no agronegócio

Curso capacita mulheres produtoras de leite para romper com cultura machista do agronegócio


Arlete Boeing fez curso para empoderar as mulheres produtoras de leite. Foto: Acervo pessoal
Arlete Boeing fez curso para empoderar as mulheres produtoras de leite. Foto: Acervo pessoal

Arlete Boeing, de 29 anos, é uma jovem produtora de leite em Rio Fortuna, município com a maior renda familiar de Santa Catarina, que gira em torno de R$ 5.310, 87 mensais, de acordo com os dados do Censo de 2010. Em sua propriedade, há 41 vacas em fase de lactação, o que garante uma produção diária de 750 litros de leite a ela e ao marido, José Mário. O fato de ser proprietária não afasta Arlete de botar a mão na massa: cuida da ordenha, da inseminação artificial e do pré-parto dos animais, entre outras tarefas.

Esta é uma peculiaridade do município. São os donos, geralmente pequenos proprietários, que cuidam de toda a produção. Lá, existem 808 propriedades rurais e 700 famílias trabalhando nelas. Portanto, não há mão de obra disponível. Mas a distribuição igualitária da terra e da renda acabam sobrecarregando as mulheres com a dupla jornada. Além de madrugarem para fazerem a ordenha – há uma outra no fim de tarde – ainda acumulam tarefas domésticas, como cozinhar e cuidar dos filhos.

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Apesar de dividirem com os homens as tarefas de gestão da propriedade, elas sofrem com a cultura machista do agronegócio. “Os pagamentos dos compradores vêm em nome do marido, os fornecedores não querem negociar com elas e suas opiniões são muitas vezes desmerecidas no mercado”, afirma a engenheira agrônoma Marcela Padilha, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Foi pensando nelas que Marcela promoveu na Epagri, ano passado, um curso para empoderar as produtoras de leite do município, que é o segundo maior produtor de leite do Vale do Braço do Norte, em Santa Catarina.

A engenheira agrônoma Marcela Padilha faz selfie com a primeira turma da Epagri para capacitação de mulheres produtoras de leite. Foto: Epagri
A engenheira agrônoma Marcela Padilha faz selfie com a primeira turma da Epagri para capacitação de mulheres produtoras de leite. Foto: Epagri

O curso capacitou 21 mulheres na bovinocultura de leite no município. “Fazíamos cursos e as mulheres não participavam. Geralmente iam os maridos”, relata Marcela. “Se não fossem as mulheres, a atividade não estaria neste patamar”. Para a engenheira, elas  escutam mais e são mais sensíveis à preservação ambiental, como o cuidado com as nascentes. “O controle leiteiro e a produtividade aumentaram”, comemora Marcela. O curso compreendeu aulas teóricas, mas também visitas técnicas a propriedades.

Entre as alunas, estava Arlete. Ela teve que interromper os estudos no oitavo ano. “Meu pai, que plantava fumo, achava que não era necessário mais do que isso para trabalhar na roça”, diz. Ela discorda. “Minhas filhas vão fazer o Ensino Médio e, se quiserem, faculdade”, afirma Arlete, mãe de Milene e de Heloísa, de 14 e 10 anos. Ela diz que falta coragem ainda a algumas mulheres para se impor. “Debaixo do galpão, o serviço aqui é dividido. Eu ordenho, insemino, cuido do controle genético”, conta. Já o marido fica encarregado da vacinação e do preparo da ração dos animais.

No curso, ela aprendeu a fazer exame de toque nas vacas, parto e aplicar vacinas. Fez questão de transmitir ao marido os ensinamentos sobre as técnicas de vacinação, que está entre as atribuições dele. “Sou independente. Muitas vezes eu que pago as contas”, orgulha-se. “Teve um dia que deixei um vendedor com a cara no chão. Ele queria me empurrar um fortificante para as vacas e eu queria apenas comprar um antibiótico”, conta. “Ele queria me enrolar de todos os jeitos. Inventou que a empresa fornecedora do fortificante tinha pegado fogo e que o produto ia encarecer”, relata ela, que se manteve irredutível.

Mulheres produtoras de leite de Rio Fortuna a caminho de uma das aulas práticas. Foto: Epagri
Mulheres produtoras de leite de Rio Fortuna a caminho de uma das aulas práticas. Foto: Epagri

Apesar do alto comparecimento ao curso, Marcela conta que a dedicação das mulheres envolveu uma dose extra de sacrifício. “Nos dias de aula, elas tinham que acordar mais cedo para deixar o almoço e a janta prontos”, diz. “Aí os maridos e os filhos esquentavam a comida”. Como o curso era exclusivo para mulheres, elas tinham que ir. “Não tinham como terceirizar isso e mandar os maridos”, comemora Marcela.

Além dos ensinamentos  técnicos sobre a bovinocultura, as mulheres também receberam doses de incentivo para ganharem mais autoconfiança. Isso passou pelo estímulo a tirarem a carteira de motorista. Em Rio Fortuna, 65,74% da população vivem em áreas rurais. A dificuldade de locomoção – lá também não há linhas de ônibus – acabava sendo mais um empecilho para a independência das mulheres.

No início do curso, elas receberam um questionário pedindo que apontassem os principais problemas das mulheres produtoras de leite. Entre eles, elas escreveram a “falta de oportunidades na administração do negócio”, “o pagameno vem sempre no nome do marido”, “a mulher não é valorizada”.  Ao final, elas preencheram um outro, de avaliação. “Nós, mulheres, podemos, sim”, afirmou uma delas, provando que o empoderamento surtiu efeito.


Escrito por Adriana Barsotti

É jornalista com mais de 20 anos de experiência nas redações de O Estado de S.Paulo, IstoÉ e O Globo, onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série de reportagens “A História Secreta da Guerrilha do Araguaia”. Concilia a redação com a vida acadêmica, onde estuda as transformações no cenário da mídia. Doutora em Comunicação pela PUC-Rio, é autora dos livros “Jornalista em mutação: do cão de guarda ao mobilizador de audiência” e "Uma história da primeira página: do grito no papel ao silêncio no jornalismo em rede". É autora e editora no #Colabora e professora da ESPM. Acredita (muito!) no futuro da profissão. E-mail: barsotti.adriana@gmail.com

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